| Rubia Azevedo ao lado do marido e dos três filhos, frutos de duas gestações após a cirurgia bariátrica (Foto: Arquivo pessoal) |
A farmacêutica,
esteticista e professora universitária Rubia Azevedo, de 41 anos, encontrou na
cirurgia bariátrica um caminho para a realização do sonho de ser mãe. Ela
enfrentava questões de saúde que comprometiam seriamente suas chances de
engravidar: endometriose, ovários policísticos e obesidade. Antes da operação —
indicada por sua ginecologista como parte do tratamento para uma futura
gestação —, ela chegou a pesar quase 100 kg, mesmo tentando perder peso de
diversas formas. Hoje, com 64 kg, comemora a decisão ao olhar o filho Joaquim e
as gêmeas Júlia e Laura brincando juntos.
A história de
Rubia ilustra uma conexão que ainda surpreende muitas mulheres: a relação entre
obesidade, saúde hormonal e fertilidade. A Síndrome dos Ovários Policísticos
(SOP) — renomeada em maio pela comunidade científica para Síndrome Ovariana
Metabólica Poliendócrina (SOMP) — é uma das condições que mais se agravam com o
excesso de peso, justamente porque a obesidade intensifica a resistência à
insulina e o desequilíbrio hormonal que suprimem a ovulação, explica o
cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva),
em Brasília.
A nova
nomenclatura da síndrome busca refletir com maior clareza seus impactos em todo
o corpo. “O antigo nome escondia o que o novo revela: essa nunca foi apenas uma
doença ginecológica. É uma doença do metabolismo que se manifesta também no
ovário”, esclarece o médico.
Reprogramação
metabólica
O mecanismo pelo
qual a bariátrica favorece a fertilidade não passa apenas pela perda de peso. Com
importante atuação sobre o metabolismo, a intervenção no trato gastrointestinal
provoca uma reprogramação endócrina que melhora a sensibilidade à insulina,
reduz a inflamação sistêmica e reequilibra os hormônios sexuais. No caso da
SOMP, pode restaurar ciclos menstruais irregulares e melhorar a resposta a
tratamentos de fertilidade em mulheres com indicação cirúrgica.
Apesar de a
melhora do quadro ocorrer bem antes de uma perda mais acentuada de peso, De
Fazzio ressalta ser fundamental observar um intervalo mínimo entre a cirurgia e
a tentativa de gestação. “Trabalho com a lógica da estabilização: gestação
liberada quando o peso parou de cair, os exames nutricionais estão normais e a
paciente já aderiu a uma alimentação com densidade adequada. Isso costuma
acontecer entre 12 e 18 meses após o procedimento. A cirurgia prepara o
terreno. Mas o processo exige acompanhamento rigoroso e, sobretudo, paciência”,
afirma.
Rubia levou esse
conselho a sério. Mesmo após receber a liberação médica, esperou mais alguns
meses. “Eu estava preparando a casa. Me dediquei à atividade física, à dieta, a
concentrar os meus esforços em estar bem de saúde para conseguir engravidar”,
conta. Quando se sentiu segura para tentar, a gravidez veio rápido. E a
segunda, com gêmeas, chegou pouco tempo depois.
O médico ressalta
que a cirurgia não é indicada para todas as mulheres com SOMP e desejo de
engravidar. A decisão envolve uma avaliação clínica profunda e criteriosa,
feita em conjunto com a paciente. Só após um diagnóstico completo o
especialista apresenta as possibilidades de tratamento.
A farmacêutica acredita que a cirurgia foi a melhor opção para o seu caso e, segundo ela, a transformação proporcionada pela intervenção vai muito além da balança. “Passei a ter juízo, consciência, responsabilidade e educação alimentar necessárias para que a cirurgia fosse um sucesso. Eu renasci. E o maior presente foi viver a graça da maternidade com saúde e disposição. Afinal, três lindas crianças exigem”, reflete.
César De Fazzio é
cirurgião bariátrico (Foto: Victor Moura)
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