Para
conquistar autoridade em ambientes profissionais tradicionalmente masculinos,
muitas mulheres ainda sentem que precisam provar sua competência antes mesmo de
terem suas habilidades reconhecidas
Durante muito tempo, ocupar espaços profissionais dominados por homens significou, para muitas mulheres, enfrentar uma exigência que ia além da competência: era preciso provar que aquele lugar também pertencia a elas.
Em alguns casos, essa pressão vinha acompanhada de outra expectativa: a de que, para serem respeitadas, mulheres precisariam adotar comportamentos associados ao universo masculino. Falar mais alto, endurecer a postura, esconder características pessoais ou evitar demonstrar vulnerabilidade. A experiência de Márcia Santos, fundadora da Aliare Consultoria e especialista em modernização e automação de serviços de lavagem automotiva, mostra que esse não precisa ser o caminho.
Com uma trajetória profissional construída em ambientes nos quais mulheres ainda são minoria, Márcia desenvolveu autoridade sem abrir mão da própria identidade. Para ela, conhecimento, posicionamento, relacionamento e consistência são ferramentas mais importantes do que tentar reproduzir comportamentos masculinos.
Engravidou aos 17 anos e aos 27, após o nascimento do seu segundo filho e sem uma formação acadêmica tradicional, foi trabalhar com o então marido no transporte público como motorista de lotação, em um universo formado por cerca de 800 homens e apenas três mulheres. Foi nesse cenário que desenvolveu habilidades que mais tarde se tornariam fundamentais em sua carreira: compreender pessoas, construir confiança e estabelecer relacionamentos.
Anos depois, Márcia migrou para a área comercial no segmento de postos de combustíveis. Ao identificar os desafios dos processos tradicionais de lavagem de veículos, especialmente relacionados ao desperdício de recursos e à eficiência operacional, passou a estudar soluções de reaproveitamento de água e tecnologias automatizadas. Com o tempo, tornou-se especialista na modernização dessas operações.
A construção dessa autoridade, no entanto, não aconteceu sem que sua competência fosse questionada.
Em uma reunião com um empresário do setor, ao apresentar suas análises sobre uma solução operacional, Márcia ouviu: “Quando você entender de máquina, a gente conversa”. A resposta não veio na forma de um confronto. “Minha resposta veio com o tempo, com o conhecimento adquirido, com os resultados entregues e com a confiança construída junto aos clientes”, explica.
Para ela, a situação representa uma experiência ainda comum para mulheres que atuam em áreas técnicas e setores tradicionalmente masculinos. “Muitas mulheres ainda precisam conquistar uma credibilidade que homens frequentemente recebem antes mesmo de demonstrarem sua capacidade. O conhecimento é uma das principais ferramentas para construir autoridade, mas ele precisa estar acompanhado de posicionamento e coragem para defender ideias”, afirma.
Confira 5 atitudes
que ajudam mulheres a conquistar espaço em setores dominados por homens,
segundo Márcia Santos:
1. Conheça
profundamente o seu mercado
A preparação técnica
aumenta a segurança para participar de decisões, apresentar argumentos e
defender ideias. O conhecimento não elimina todos os questionamentos, mas
oferece uma base sólida para enfrentá-los.
2. Não tente provar
que é mais masculina
Mulheres não precisam
abandonar sua personalidade ou reproduzir comportamentos masculinos para serem
respeitadas. Liderança está relacionada à capacidade de tomar decisões,
construir relações e entregar resultados.
3. Aprenda a ocupar
espaço nas conversas
Ouvir e analisar são
habilidades importantes, mas posicionar-se também faz parte da construção
profissional. Ter conhecimento e não apresentar suas ideias pode fazer com que
sua contribuição permaneça invisível. “Se houver uma mulher em uma reunião,
sempre darei lugar de fala a ela mesmo sabendo que por muitas vezes a opinião
dela não será levado em conta mas reiterarei o que ela comentar. As mulheres
têm percepções importantes e muitas vezes não são levadas em conta em grandes
corporações ou até quando o sócio é o marido”, diz Márcia.
4. Deixe a
consistência construir sua credibilidade
A confiança não é
conquistada em uma única reunião. Ela se forma ao longo do tempo, a partir da
qualidade das entregas, da postura profissional e da capacidade de construir
relacionamentos.
5. Não recue quando
sua competência for questionada
Posicionamento não significa confronto. Significa ter segurança para apresentar argumentos, defender ideias e continuar avançando mesmo quando alguém tenta reduzir sua capacidade a um estereótipo.
Para Márcia, mulheres
em setores tradicionalmente masculinos não são uma exceção que precisa ser
justificada. São profissionais preparadas para inovar, liderar e transformar
negócios. “A maior conquista será quando ninguém mais questionar se uma mulher
pertence ao lugar que conquistou. Até lá, precisamos continuar ocupando esses
espaços sem acreditar que, para sermos respeitadas, precisamos deixar de ser
quem somos”, conclui.
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