terça-feira, 18 de agosto de 2026

Correr desgasta o joelho? O que a ciência realmente diz sobre o impacto da atividade

Especialista explica porque a corrida não é a vilã da artrose e destaca os cuidados necessários para proteger as articulações 

 

"Pare de correr para não acabar com o joelho." A recomendação ainda é comum entre praticantes de atividade física, mas a ciência vem mostrando que essa relação não é tão simples. Embora a corrida imponha carga às articulações, estudos recentes indicam que, quando praticada de forma adequada, ela não aumenta o risco de artrose em pessoas saudáveis e pode, inclusive, contribuir para a saúde das cartilagens. 

Uma revisão publicada no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy e estudos acompanhando corredores recreativos ao longo dos anos mostram que a prática regular da corrida não está associada a uma maior incidência de osteoartrite de joelho quando comparada à população sedentária. O risco costuma estar relacionado a fatores como excesso de peso, lesões prévias, alterações no alinhamento dos membros inferiores e treinamento inadequado. 

Segundo o ortopedista e cirurgião do joelho Dr. Ari Zekcer, referência nacional em cirurgia do joelho e traumatologia esportiva, o principal erro é acreditar que o movimento, por si só, desgasta a articulação. 

"A cartilagem é um tecido que responde ao estímulo mecânico. Quando a corrida é realizada de forma orientada, respeitando a capacidade física do praticante, ela contribui para a manutenção da saúde articular. O problema surge quando há excesso de carga, ausência de preparo físico ou lesões que não receberam tratamento adequado", comenta. 

A artrose é uma doença multifatorial e está relacionada ao envelhecimento, predisposição genética, obesidade, histórico de traumas e alterações biomecânicas. Embora corredores profissionais submetidos a cargas extremas possam apresentar maior risco de determinadas lesões, a realidade é diferente para quem pratica corrida de forma recreativa. 

"O joelho foi feito para se movimentar. O sedentarismo também tem consequências importantes para a saúde das articulações, favorecendo perda de força muscular, ganho de peso e redução da estabilidade do joelho. Por isso, deixar de correr por medo do desgaste nem sempre é a melhor decisão", destaca o especialista. 

Para reduzir o risco de lesões, especialistas recomendam respeitar a progressão dos treinos, fortalecer a musculatura dos membros inferiores, utilizar calçados adequados, manter o peso corporal dentro de uma faixa saudável e evitar aumentos bruscos na intensidade ou no volume de corrida. 

Também é importante ficar atento aos sinais do corpo. Dor persistente, inchaço, sensação de instabilidade ou limitação dos movimentos não devem ser considerados normais e merecem avaliação médica. 

"Muitas pessoas acreditam que sentir dor faz parte da corrida, mas isso não é verdade. A dor é um sinal de alerta de que algo precisa ser investigado. Quanto mais cedo identificamos uma lesão, maiores são as chances de tratá-la sem comprometer a prática esportiva", destaca Ari. 

Para o especialista, a principal mensagem é que correr pode fazer parte de um estilo de vida saudável, desde que a atividade seja adaptada às condições de cada pessoa. 

"A corrida traz benefícios para o sistema cardiovascular, ajuda no controle do peso, melhora a saúde mental e contribui para a qualidade de vida. Quando existe orientação adequada e respeito aos limites do organismo, ela deixa de ser uma ameaça ao joelho e passa a ser uma aliada da saúde”, finaliza o especialista. 

 

Prof. Dr. Ari Zekcer - referência nacional em cirurgia do joelho e traumatologia esportiva, com 35 anos de experiência no tratamento de lesões ortopédicas, especialmente relacionadas à prática esportiva. É um dos pioneiros no país em transplante de menisco, cultura de condrócitos e uso de células-tronco para lesões da cartilagem, além de transplantes osteocondrais com enxertos de doação. Também atua na formação de especialistas, recebendo médicos para estágios em cirurgia do joelho. Possui especializações pela UNIFESP em Ortopedia e Traumatologia, Medicina Esportiva e Cirurgia do Joelho, formação em artroscopia nos Estados Unidos, MBA em Gestão em Saúde, pós-graduação e doutorado pela Santa Casa de São Paulo. Integra as principais sociedades científicas da área no Brasil e no exterior e é membro do grupo de especialistas em joelho do Hospital Israelita Albert Einstein.


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