Com a inteligência artificial capaz de criar imagens impecáveis em segundos, marcas da vida real, como gestos espontâneos, texturas e pequenas imperfeições, passam a ocupar outro lugar na relação com a beleza e a identidade
Durante anos, a beleza foi apresentada como uma
superfície sem ruídos. Rostos sem marcas, cenários sob controle, corpos
ajustados por filtros e fotografias calculadas até o último detalhe passaram a
ditar o que deveria ser admirado. Agora, quando a inteligência artificial
consegue produzir esse mesmo acabamento em poucos segundos, a perfeição começa
a perder parte do encanto. O olhar parece procurar uma fresta por onde a vida
possa entrar.
Texturas naturais, peças feitas à mão, registros
espontâneos e pequenos desvios voltaram a despertar interesse. São sinais de
passagem, tempo e autoria. Aquilo que antes seria corrigido ou escondido começa
a ser percebido como vestígio de uma experiência que não nasceu de um comando.
Essa mudança já aparece na comunicação das marcas,
em campanhas com menos retoques, produções mais simples e histórias apoiadas em
experiências reais. Também chega ao consumo, com a procura por trabalhos em
pequena escala, peças singulares e criações nas quais ainda seja possível
reconhecer a mão de alguém.
Para a psicóloga Maria Klien, o
movimento ultrapassa a estética. Ele toca a identidade e a maneira como cada
pessoa deseja ser vista em um ambiente cercado por imagens fabricadas.
“Passamos muito tempo tentando caber em padrões para
sermos aceitos. Hoje, os algoritmos conseguem reproduzir esses modelos com
enorme facilidade. Por isso estejamos voltando o olhar para aquilo que carrega
uma história, uma escolha, uma maneira própria de estar no mundo. A perfeição
pode ser reproduzida. A trajetória de uma pessoa não”, afirma.
A tecnologia criou um contraste curioso. Quanto
mais o ambiente digital entrega imagens sem falhas, maior parece ser a procura
pelo que guarda calor, hesitação e memória. Uma fotografia pode estar
tecnicamente correta e, ainda assim, não provocar nada. Falta nela o que não
cabe no enquadramento; o vínculo.
“O cérebro procura reconhecimento e identificação.
Quando tudo parece calculado ou previsível, a conexão pode enfraquecer. Nós nos
aproximamos do que transmite alguma verdade, porque encontramos ali algo de nós
mesmos. É como reconhecer uma casa não pela fachada perfeita, mas pela luz
acesa na janela”, explica Maria.
Esse deslocamento também pode aliviar a relação com
a própria imagem. A comparação com padrões inalcançáveis não desaparece, mas
começa a dividir espaço com uma percepção menos rígida da beleza. Marcas no
rosto, mudanças do corpo e traços particulares deixam de ser apenas elementos a
corrigir e passam a contar uma história.
Autenticidade, porém, não exige o abandono da vaidade
ou a recusa das ferramentas digitais. Para Maria Klien, o
cuidado está em não entregar à tecnologia a tarefa de definir o valor de uma pessoa.
“A tecnologia continuará evoluindo e fará parte da
nossa rotina. Ela pode criar imagens, organizar referências e ampliar
possibilidades, mas não consegue viver por nós. O sentido vem da presença, da
intenção e da bagagem que acompanha cada gesto. Uma imagem pode nascer pronta.
Uma identidade precisa de tempo”, observa a psicóloga.
Nesse cenário, o processo recupera espaço. O tempo
dedicado a uma criação, o toque manual, as escolhas afetivas e até as pequenas
irregularidades passam a importar tanto quanto o resultado. Em uma época de
reprodução em larga escala, saber de onde algo veio e quem esteve por trás de
sua construção muda a forma como esse objeto, imagem ou trabalho é percebido.
“Ser humano talvez seja justamente deixar rastro; uma escolha inesperada, uma marca, uma lembrança que atravessa aquilo que fazemos. A inteligência artificial pode reproduzir estilos e criar cenas inteiras. O que nasce de uma vida vivida continua carregando uma origem que não se copia”, conclui Maria Klien.
Maria Klien - exerce a psicologia, com título de mestra na área, orientando sua investigação aos distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua atuação clínica integra métodos tradicionais e práticas complementares, com foco nas demandas emocionais de cada indivíduo em seu contexto singular. Também é criadora do Psicologia da Moda, iniciativa que articula comportamento, identidade e expressão a partir da relação entre vestuário e subjetividade. Como empreendedora, se dedica à ampliação do acesso a recursos terapêuticos voltados à saúde psíquica, desenvolvendo instrumentos que contribuem para o equilíbrio mental e para o enfrentamento de questões que atravessam o bem-estar psicológico de cada paciente.
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