quarta-feira, 1 de julho de 2026

Internações de adolescentes por ansiedade no Brasil crescem 9 vezes em 10 anos

 Para cada adolescente menino internado por ansiedade,
 quase 4 meninas são internadas.
Imagem ilustrativa, gerada por IA
Estudo que utiliza dados de operadoras de planos de saúde aponta meninas de 10 a 19 anos como o grupo de crescimento mais acelerado nas internações por transtornos de ansiedade no país 

 

Um estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) revela que as internações de adolescentes por transtornos de ansiedade na saúde suplementar brasileira cresceram nove vezes entre 2015 e 2024. Este foi o maior salto entre todas as faixas etárias analisadas. A taxa passou de 1,03 para 9,60 internações por 100 mil beneficiários no grupo de 10 a 19 anos, superando proporcionalmente o crescimento observado entre adultos e idosos. 

O levantamento, baseado em mais de 30 mil registros de internação extraídos do Padrão TISS (D-TISS/ANS) ao longo de uma década, também mostra que a participação dos adolescentes no total de internações por ansiedade saltou de 2,8% em 2015 para um patamar entre 9% e 12% nos últimos anos. 

Entre as meninas, o fenômeno é ainda mais acentuado: para cada adolescente do sexo masculino internado por ansiedade em 2024, foram registradas 3,71 internações de adolescentes do sexo feminino, razão que era de 1,95 no ano de 2015. O estudo ainda aponta que a média anual de internações de meninas adolescentes saltou de 91 entre os anos de 2015 a 2019 para 453 entre 2022 e 2024.

 

Por que as meninas?

Para o psiquiatra Roberto Ratzke, professor e coordenador de Psiquiatria do Hospital Heidelberg, em Curitiba, os números captam, em sua manifestação mais grave (a internação hospitalar), um fenômeno que vem sendo descrito internacionalmente desde a pandemia de Covid-19: o aumento expressivo de sintomas ansiosos entre adolescentes, com magnitude maior entre meninas mais velhas. 

Fatores como exposição prolongada a redes sociais, pressão acadêmica, mudanças na rotina escolar e familiar, e maior tendência de meninas verbalizarem sofrimento psíquico ajudam a explicar a diferença entre os sexos. “Estamos vendo adolescentes chegarem ao hospital depois de meses ou anos de sofrimento que poderia ter sido identificado antes, na escola ou na família. A internação é a ponta visível de um problema que começa muito antes.” 

Entre os sinais que costumam passar despercebidos, Ratzke cita irritabilidade constante, queixas físicas recorrentes sem causa médica identificada (dores de cabeça e de estômago), isolamento social progressivo, queda no desempenho escolar e dificuldade para dormir. “Pais e professores costumam atribuir isso à 'fase da adolescência', mas quando esses sinais se acumulam e duram semanas, é hora de procurar avaliação especializada”, afirma. 

A diferença entre os sexos, segundo o psiquiatra, também tem raízes biológicas e sociais que se somam aos fatores já citados. As alterações hormonais da puberdade afetam de forma mais intensa os circuitos cerebrais ligados à regulação emocional em meninas, tornando-as mais vulneráveis a quadros ansiosos nessa fase da vida. Ao mesmo tempo, pesquisas têm associado o uso intenso de redes sociais a um efeito mais pronunciado sobre meninas, especialmente pela comparação social constante e pela exposição a padrões de aparência e desempenho. 

Jaqueline Cenci, médica psiquiatra do Hospital Heidelberg, especializada em infância e juventude, também explica porquê as meninas sentem mais a depressão e ansiedade que os meninos. 

“Sabemos que quadros de ansiedade podem aumentar o risco de sintomas depressivos e que meninas tendem a relatar mais medo e preocupações do que meninos, resultado de uma interação complexa entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. Além disso, novas formas de sofrimento relacionadas ao mundo contemporâneo, como a ecoansiedade (caracterizada por preocupações intensas com as mudanças climáticas e o futuro do planeta) vêm sendo descritas como fatores que podem contribuir para o agravamento da ansiedade em jovens vulneráveis”, analisa a médica. 

Essa ressalta que, diante desse cenário, além de oferecer acolhimento e tratamento, é fundamental investir em estratégias de prevenção, fortalecendo recursos emocionais, vínculos familiares e ações que promovam saúde mental no cotidiano.

 

Papel da escola e da família na ansiedade em adolescentes

Para Ratzke, é fundamental que famílias e profissionais de saúde saibam diferenciar a ansiedade que faz parte do desenvolvimento normal (desafios de relacionamento, expectativas com o futuro, primeiras responsabilidades) daquela que já configura um transtorno clínico. 

“A ansiedade típica da adolescência é pontual e não impede a rotina. Quando o medo ou a angústia passam a interferir na escola, nas amizades, no sono ou na alimentação de forma persistente, isso já é sinal de alerta”, explica.

 

Quando um adolescente deve ser internado?

A internação, segundo o Dr. Ratzke, é indicada apenas quando há risco iminente, como ideação suicida, crises de pânico incapacitantes ou comprometimento grave do funcionamento do adolescente, e funciona como uma etapa de estabilização clínica antes da retomada do tratamento ambulatorial. 

“Internar não é o objetivo do cuidado, é uma ponte para que o paciente saia em condições de seguir o tratamento fora do hospital. Quanto mais cedo identificamos, menor a chance de chegar à internação. O hospital deveria ser a exceção, não a regra”, pontua. 



Hospital Heidelberg
Rua Padre Agostinho, 687 - bairro Mercês – Curitiba
Telefone: (41) 3320-4900 / WhatsApp: (41) 98869-0436.


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