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Interesse em viver no exterior cresce entre diferentes gerações, enquanto países europeus criam mecanismos para atrair profissionais qualificados e reforçam exigências para entrada legal
Morar no exterior deixou de ser um projeto restrito a jovens
aventureiros ou famílias em busca de recomeço. Hoje, trata-se de um fenômeno
social que mobiliza milhões de brasileiros de diferentes idades, perfis e
objetivos. Ao mesmo tempo em que cresce o interesse pela Europa como destino, o
continente europeu também vive uma transformação: enfrenta escassez de mão de
obra, mas adota políticas cada vez mais seletivas para definir quem poderá
ingressar e permanecer legalmente em seus países.
Levantamento do Observatório Febraban/Ipespe, divulgado em
dezembro de 2025, mostra que 40% dos brasileiros adultos afirmam ter interesse
em morar fora do Brasil. O percentual representa dezenas de
milhões de pessoas e demonstra que a internacionalização dos projetos de vida
deixou de ser um movimento de nicho para se tornar uma tendência nacional.
O desejo é ainda mais forte entre pessoas em idade economicamente
ativa. Entre os millennials, metade manifesta interesse em viver no exterior.
Na Geração Z, o índice chega a 44%, enquanto entre integrantes da Geração X
alcança 35%. Mesmo entre os baby boomers, um em cada quatro entrevistados
considera essa possibilidade.
Segundo especialistas, esses números refletem motivações bastante
distintas. Os mais jovens enxergam oportunidades de estudo, aprendizado de
idiomas e crescimento profissional. Já os millennials buscam maior
previsibilidade financeira, estabilidade para criar os filhos e perspectivas de
carreira. A Geração X costuma priorizar segurança patrimonial, sucessão
familiar e qualidade de vida, enquanto os mais velhos valorizam principalmente
saúde, bem-estar e legado.
Outro dado relevante é que o interesse em emigrar cresce
justamente entre brasileiros com maior escolaridade e renda. Entre aqueles com
ensino superior completo, 44% demonstram intenção de morar fora. O mesmo
percentual aparece entre pessoas com renda superior a cinco salários mínimos,
indicando que a busca por uma vida internacional não está relacionada apenas a
dificuldades econômicas, mas também à construção de projetos pessoais,
familiares e profissionais de longo prazo.
Europa
volta ao centro dos planos dos brasileiros
Embora os Estados Unidos permaneçam como o país mais citado
individualmente, mencionado por 37% dos interessados, os destinos europeus,
quando analisados em conjunto, lideram a preferência dos brasileiros. Cerca de
60% daqueles que desejam viver no exterior apontam países da Europa como
objetivo principal.
Portugal aparece em primeiro lugar entre os destinos europeus,
seguido por Itália, Espanha, Inglaterra, Suíça, Alemanha e Irlanda.
Para especialistas em mobilidade internacional, esse movimento
acompanha mudanças demográficas importantes no continente europeu.
A Europa enfrenta um processo acelerado de envelhecimento
populacional, queda das taxas de natalidade e escassez crescente de
trabalhadores qualificados. A própria Comissão Europeia reconhece que a falta
de profissionais já afeta praticamente todos os Estados-membros. Em 2024, o
bloco identificou 42 ocupações com déficit de mão de obra,
além de registrar que 63% das pequenas e médias empresas encontravam
dificuldades para contratar profissionais compatíveis com suas necessidades.
As maiores carências concentram-se em áreas estratégicas como
saúde, engenharia, construção civil, tecnologia da informação, transporte,
indústria, serviços técnicos e cuidados com idosos.
Europa
amplia oportunidades, mas também endurece regras
Para enfrentar esse cenário, a União Europeia passou a estruturar
novos mecanismos de imigração voltados especificamente para trabalhadores
qualificados.
Entre as principais iniciativas está o EU Talent
Pool, plataforma lançada em junho de 2026 que conecta
profissionais de países fora da União Europeia a empresas europeias com vagas
em setores que enfrentam escassez de mão de obra. O sistema permite que
candidatos apresentem suas competências, formação, idiomas e experiências para
empregadores interessados.
Também entrou em vigor a atualização da Single
Permit Directive, que simplifica o processo de solicitação
conjunta de autorização de residência e trabalho para cidadãos de países
terceiros, reduzindo burocracias e fortalecendo a proteção aos trabalhadores estrangeiros.
Na Itália, o tradicional Decreto Flussi continua
estabelecendo cotas anuais para entrada de trabalhadores estrangeiros conforme
as necessidades do mercado de trabalho italiano. O modelo determina limites
específicos por setor econômico, categoria profissional e períodos de ingresso,
reforçando uma política migratória baseada em planejamento e demanda econômica.
Em paralelo, a União Europeia passou a endurecer os mecanismos de
controle migratório. Desde 12 de junho de 2026, o novo Pacto Europeu
de Migração e Asilo estabelece procedimentos mais rigorosos
para registro de entradas irregulares, análise de pedidos de proteção
internacional e retorno de pessoas sem direito de permanência.
Na prática, o continente europeu procura equilibrar duas
necessidades simultâneas: suprir a falta de trabalhadores e garantir que a
imigração ocorra de forma organizada, legal e alinhada às demandas econômicas.
Planejamento
se torna diferencial para brasileiros
Para quem pretende construir uma vida na Europa, especialistas
afirmam que o cenário atual exige uma mudança de mentalidade. O desejo de morar
fora, por si só, já não é suficiente.
Hoje, torna-se cada vez mais importante compreender as regras
migratórias de cada país, avaliar possibilidades legais de permanência,
organizar documentação, investir em qualificação profissional, desenvolver
competências linguísticas e conhecer os processos de reconhecimento de diplomas
e profissões quando necessário.
Segundo Welliton Girotto, CEO da Master Cidadania, a nova realidade europeia favorece quem transforma o
sonho em um projeto estruturado.
"A Europa continua precisando de pessoas, mas hoje procura
profissionais preparados, com documentação organizada, qualificação compatível
e objetivos bem definidos. A imigração deixou de ser um processo baseado apenas
na vontade de recomeçar e passou a exigir planejamento, conhecimento das regras
e construção de uma trajetória sólida antes mesmo da mudança."
Girotto afirma que esse movimento é percebido diariamente por quem
atua diretamente com processos de cidadania, reconhecimento de documentos e
mobilidade internacional.
"Como ex-agente de comércio na Itália e profissional de
Recursos Humanos internacional formado pela Confindustria, vejo que por trás de
praticamente todo pedido de cidadania italiana ou reconhecimento de diploma
existe uma necessidade maior: construir uma entrada segura, responsável e
juridicamente consistente na Europa. É justamente esse planejamento que
buscamos desenvolver junto aos nossos assistidos."
Para o executivo, o Brasil possui um importante potencial de
profissionais aptos a ocupar espaços no mercado europeu, incluindo descendentes
de europeus, profissionais da saúde, engenheiros, trabalhadores da indústria,
especialistas em tecnologia e jovens universitários. No entanto, transformar
esse potencial em oportunidade depende de preparação.
"A próxima migração brasileira tende a ser menos baseada na
tentativa e mais no planejamento. A Europa não começa quando o avião decola.
Ela começa muito antes, na organização do projeto de vida, na documentação
correta e na compreensão de como cada pessoa poderá contribuir para o país que
escolheu como destino", conclui.

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