terça-feira, 14 de julho de 2026

“Eu sentia um incômodo na garganta, mas achava que era uma gripe ou até sequela da Covid”, diz pacient

 

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Especialistas alertam que falta de informação ainda atrasa o diagnóstico dos tumores de cabeça e pescoço; tabagismo, álcool e HPV estão entre os principais fatores de risco

 

Uma ferida na boca que não cicatriza, uma rouquidão persistente ou um caroço no pescoço podem parecer problemas simples. Mas, quando os sintomas permanecem por semanas, podem indicar um câncer de cabeça e pescoço, grupo de tumores que surge principalmente na boca, garganta, faringe e laringe. 

Apesar da gravidade, especialistas destacam que boa parte dos casos poderia ser evitada. O desconhecimento dos sintomas iniciais e dos fatores de risco ainda contribui para diagnósticos tardios. 

Foi justamente a dificuldade de reconhecer os sinais que quase atrasou o diagnóstico do administrador Fernando Ihara, de 57 anos. Em outubro de 2025, o que parecia ser uma sinusite acabou revelando um câncer de orofaringe. 

"Eu tive muita sorte. Foi a minha esposa quem sugeriu que eu fizesse uma tomografia para investigar uma possível sinusite. Eu nunca tive sinusite, mas resolvi fazer o exame. Foi aí que tudo começou", conta. 

A tomografia mostrou alterações que levaram à investigação especializada e à confirmação do diagnóstico. Antes disso, Fernando já apresentava alguns sintomas, mas não imaginava a gravidade. 

"Eu já sentia um incômodo na garganta, mas achava que era algo comum, uma gripe ou até sequela da Covid. Com a correria do dia a dia, a gente acaba minimizando os sinais que o corpo dá." 

Segundo o oncologista Gilberto Castro, do Hospital Sírio-Libanês, esse tipo de situação é mais comum do que se imagina. 

"O câncer de cabeça e pescoço está entre os tumores mais importantes em termos de incidência e mortalidade. Ao mesmo tempo, é uma doença amplamente passível de prevenção", afirma. "Se conseguirmos reduzir o tabagismo e o consumo de álcool e ampliar a vacinação contra o HPV, a incidência desses tumores pode cair de forma drástica." 

Os primeiros sinais costumam ser discretos. "Qualquer rouquidão acima de duas ou três semanas precisa ser investigada. Da mesma forma, uma lesão na boca que não melhora ou um caroço no pescoço que continua crescendo não devem ser ignorados", alerta o especialista. 

O diagnóstico precoce pode começar com uma avaliação simples. "Muitas vezes, basta examinar a boca. Por isso, o dentista tem papel fundamental na identificação precoce da doença", explica. 

Para o oncologista Guilherme Harada, do Hospital Sírio-Libanês, nódulos cervicais, popularmente conhecidos como ínguas, também merecem atenção, especialmente nos tumores relacionados ao HPV. 

"A prevenção e a detecção precoce são pontos fundamentais quando falamos em tumores de cabeça e pescoço. A medicina bucal tem um papel importante nesse acompanhamento", afirma. 

Nos últimos anos, o câncer de orofaringe associado ao HPV tem se consolidado como uma preocupação crescente de saúde pública. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças1 (CDC, na sigla em inglês), o câncer de orofaringe se tornou um dos principais tumores relacionados ao HPV. Estima-se que o vírus esteja envolvido em cerca de 60% a 70% dos diagnósticos da doença nos Estados Unidos. No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados mais de 42 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço por ano2. Diferentemente dos tumores associados ao tabagismo e ao álcool, esses cânceres costumam atingir pacientes mais jovens e sem os fatores de risco tradicionais. 

Após o diagnóstico, Fernando passou por sessões de quimioterapia e radioterapia. Em maio deste ano, recebeu a notícia mais aguardada: o primeiro PET-CT– exame de alta precisão utilizado para investigar a presença e a extensão de tumores – realizado após o término do tratamento, apontou resposta completa à terapia. 

Hoje, ele segue em acompanhamento médico e compartilha sua experiência como forma de conscientização. 

"Primeiro, é preciso aceitar o diagnóstico. Depois, confiar na equipe, seguir as orientações e continuar lutando. O medo existe, mas não pode ser maior do que a vontade de seguir em frente.” E complementa: "Quando recebemos um diagnóstico de câncer, percebemos que muitos dos problemas do dia a dia deixam de ter importância. Saúde muda tudo. Por isso, não ignore os sintomas. Respeite o seu corpo", finaliza. 

Para Castro, a mensagem é simples: "Suspeitou de alguma lesão ou sintoma persistente? Procure um médico ou dentista e faça a investigação o mais rápido possível. O diagnóstico precoce é o que mais aumenta as chances de sucesso no tratamento", conclui. 


Hospital Sírio-Libanês
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