terça-feira, 14 de julho de 2026

Dia Mundial do Cérebro: neurocirurgião explica cuidados da infância ao envelhecimento


Celebrado em 22 de julho, o Dia Mundial do Cérebro reforça a importância de prevenir doenças neurológicas e ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Para o neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da USP Dr. Fernando Gomes, no entanto, cuidar do cérebro exige uma política pública que acompanhe a população durante toda a vida — e não apenas quando a doença já está instalada. 

O especialista defende a ideia de ações integradas para crianças, adultos e idosos. A proposta parte de uma visão ampla: a saúde cerebral começa no desenvolvimento infantil, passa pela proteção emocional durante a vida adulta e inclui prevenção, diagnóstico e tratamento no envelhecimento.

“Durante muito tempo, esperamos a doença aparecer para começar a cuidar do cérebro. Precisamos inverter essa lógica. Saúde cerebral deve ser tratada como prioridade de Estado, presente na escola, na UBS, no ambiente de trabalho, na família e no atendimento ao idoso”, afirma Fernando Gomes.
 

Na infância: identificação precoce

Reconhecer sinais de autismo, TDAH, atrasos no desenvolvimento, dificuldades de aprendizagem e alterações comportamentais é uma necessidade urgente. “Quanto mais cedo uma criança é acolhida, avaliada e estimulada, maiores são as chances de desenvolver comunicação, autonomia, aprendizado e qualidade de vida. O que não pode acontecer é a família ficar perdida entre filas, laudos e encaminhamentos que não se conectam”, explica o médico que afirma que ter atenção aos primeiros sinais garante que a criança consiga se tratar e se desenvolver melhor. “O diagnóstico precoce é o que vai abrir a porta para orientação, tratamento, inclusão e suporte à família.”
 

Principais sinais de alerta: atraso na fala, dificuldade de interação social e contato visual, não responder ao nome, movimentos repetitivos, sensibilidade excessiva a estímulos, dificuldade de atenção, hiperatividade, queda no rendimento escolar, dificuldades de aprendizagem, mudanças de comportamento, isolamento, dificuldade para fazer amigos e problemas de coordenação motora.

"O mais importante é observar se esses sinais são persistentes, aparecem tanto em casa quanto na escola e passam a interferir no aprendizado, na convivência e na autonomia da criança. O objetivo não é rotular, mas garantir uma avaliação precoce e o cuidado adequado", destaca o Dr. Fernando Gomes.
 

Adultos: prevenção de doenças emocionais

Cada vez mais o mundo conectado e sobrecarregado de tarefas abre espaços para ansiedade, depressão, burnout, isolamento social, violência, uso abusivo de substâncias e sobrecarga mental.

“Não podemos tratar o adoecimento emocional apenas como um problema individual. Muitas vezes, ele está relacionado às condições de trabalho, à sobrecarga, à falta de acesso ao cuidado e à ausência de uma rede de apoio”, ressalta.

Sinais de alerta: tristeza ou ansiedade persistentes, cansaço constante, alterações no sono, dificuldade de concentração, perda de interesse pelas atividades, esgotamento físico e emocional, queda no desempenho e isolamento social.

"Quando esses sintomas persistem e começam a interferir na rotina, é fundamental buscar ajuda. O diagnóstico e o cuidado precoces fazem toda a diferença", ressalta o Dr. Fernando Gomes.

Segundo o neurocientista, proteger a saúde cerebral do adulto também exige olhar para sono, atividade física, alimentação, vínculos sociais e ambientes de trabalho mais saudáveis.

“Cuidar do cérebro não é apenas tratar uma doença neurológica. É criar condições para que a pessoa possa viver, trabalhar, dormir, se relacionar e envelhecer com equilíbrio.”
 

Idosos: nem toda perda de memória é Alzheimer

O médico alerta que alterações de memória, dificuldade para caminhar, quedas, mudanças de comportamento e perda de independência não devem ser automaticamente atribuídas à idade. “Nem toda perda de memória é Alzheimer. Existem doenças neurológicas que se parecem com demência, mas podem ter tratamento, controle e, em alguns casos, até reversão, quando identificadas a tempo”, afirma.

Sinais de alerta nos idosos: perda de memória que interfere na rotina, dificuldade para caminhar, quedas frequentes, mudanças de comportamento, perda de autonomia e incontinência urinária.

"Esses sintomas não devem ser vistos como parte natural do envelhecimento. Algumas doenças, como a Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN), podem ser tratadas e até revertidas quando diagnosticadas precocemente", alerta o Dr. Fernando Gomes.

“Uma criança acompanhada na escola, um adulto acolhido antes de adoecer gravemente e um idoso diagnosticado corretamente fazem parte da mesma política: cuidar da saúde do cérebro ao longo da vida. O cérebro precisa ser tratado como prioridade desde a infância até o envelhecimento.”



Dr. Fernando Gomes - Professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de SP com mais de 2 milhões de seguidores. Desde 2012 anos atua como comunicador, já tendo passado pela TV Globo por seis anos como consultor fixo do programa Encontro com Fátima Bernardes (2013 a 2019), por um ano (2020) na TV Band no programa Aqui na Band como apresentador do quadro de saúde “E Agora Doutor?” e dois anos (2020 a 2022) como Corresponde Médico da TV CNN Brasil. É também autor de 10 livros de neurocirurgia e comportamento humano. Professor Livre Docente de Neurocirurgia, com residência médica em Neurologia e Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Link


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