A Terra não
está sendo destruída por uma fatalidade cega. Não está sendo aniquilada por uma
tragédia inevitável da natureza. Sua iminente destruição acontece, antes de
tudo, por razões éticas e políticas. É resultado de uma longa pedagogia da
indiferença, fruto de reiteradas más escolhas e consequência de um modelo
civilizacional que tomou o lucro por critério e o planeta por matéria
descartável.
O descaso
ambiental aparece como expressão de uma deformação profunda: a perda da
capacidade de perceber o mundo não como estoque, mas como morada; não como
reserva de exploração, mas como comunidade de vida. O colapso climático não
decorre apenas das emissões, da devastação florestal, do esgotamento hídrico,
da desertificação ou do aquecimento global. Decorre, em camada mais funda, de
uma civilização que deixou de sentir empatia.
Nosso
iminente desastre também é consequência do avanço de lideranças negacionistas
do clima, para as quais a realidade ecológica é tratada como inconveniente
político, entrave econômico ou invenção ideológica. Em vez de enfrentar a
crise, elas a ridicularizam. Em vez de mobilizar responsabilidade, organizam a
dúvida. Em vez de convocar solidariedade, estimulam
ressentimento, anti-intelectualismo e brutalidade.
O
negacionismo climático não é apenas erro cognitivo. É a vontade de governar
pelo curto prazo, pelo cálculo eleitoral e pela fabricação de inimigos. Quando
essa lógica se articula a correntes autoritárias inspiradas no unilateralismo,
o dano se multiplica. A devastação ambiental passa a caminhar ao lado da
devastação da ética. Minorias tornam-se bodes expiatórios, a empatia é tratada
como fraqueza, a compaixão como ingenuidade, e a própria ideia de bem comum
começa a dissolver-se sob o peso da propaganda, do medo e da polarização
permanente.
É nesse
ponto que o papel das “big techs” e dos mega
oligarcas da tecnologia assume dimensão central. A Terra caminha para a
ruína porque permite que a tecnologia cresça sem freios, sem regulação pública,
sem responsabilidade democrática e sem imaginação ética.
A
inteligência artificial é deixada à lógica do mercado e da competição
estratégica. As redes sociais, em vez de servirem ao encontro humano,
converteram-se em máquinas de amplificação do ódio, da mentira e da
fragmentação coletiva. Os grandes sistemas algorítmicos descobriram que a
atenção humana pode ser minerada como recurso bruto e que o ressentimento rende
mais do que a verdade.
Passaram a
explorar a vulnerabilidade das massas e a envenenar a informação com mentiras,
transformando seres humanos em perfis manipuláveis, isolados em bolhas e cada
vez menos capazes de perceber o sofrimento do outro. A ausência de controle
sobre a IA e sobre as plataformas digitais não produz apenas desordem
comunicacional, produz um rebaixamento antropológico. O mundo perde a
empatia global e a capacidade de reconhecer no estranho um semelhante. Nosso
planeta endurece o coração enquanto sofistica os sistemas.
Nesse
sentido, o colapso climático não pode ser separado do colapso da sensibilidade.
A catástrofe ambiental é inseparável de uma catástrofe moral. O planeta está
sendo destruído porque a humanidade dominante perdeu a capacidade de impor
limites a si mesma. Porque aceita ser governada por elites econômicas sem
empatia e por líderes políticos sem grandeza ética.
Essa
ausência de grandeza se manifesta no aumento dos preconceitos contra quem é
diferente, na brutalização das relações humanas e na conversão do outro em
ameaça. A devastação ecológica é, portanto, a face material de uma
desertificação interior. A Terra seca por fora porque está secando por dentro.
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| Divulgação Paulo Alexandre Negreiros de Andrade |
Paulo Alexandre Negreiros de Andrade - Autor do livro de ficção cientifica “Cinzas do Futuro”, também é médico, pediatra e neonatologista

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