quarta-feira, 1 de julho de 2026

Com nova lei, Brasil dá passo histórico para eliminar chumbo de tintas e se alinha aos melhores padrões internacionais

Lei 15.441 foi construída com o apoio da Abrafati, e atualiza marco regulatório no país, ampliando a proteção à saúde da população e ao meio ambiente.


Resultado de uma agenda construída e defendida pela Abrafati (Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas) junto ao poder público, foi sancionada na última sexta-feira, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei 15.441/2026, que estabelece o percentual máximo de 0,009% (90 ppm) de chumbo em tintas comercializadas no Brasil. A medida posiciona o país entre aqueles que adotam os padrões mais rigorosos do mundo para o controle da substância, representando um avanço relevante para a proteção da saúde pública, do meio ambiente e da segurança dos profissionais que lidam com as tintas e dos consumidores. O prazo para adequação à lei, a partir da sua publicação, é de um ano.

O limite de 90 ppm é recomendado por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), por meio da Global Alliance to Eliminate Lead Paint, iniciativa da qual a Abrafati é parceira desde 2016. É o mesmo utilizado nos Estados Unidos, na China e, indiretamente, na Comunidade Europeia (na qual o Regulamento REACH - Registration, Evaluation, Authorisation, Restriction of Chemicals, impõe exigências que, na prática, resultam nesse limite).

"A aprovação do projeto era fundamental para colocar o Brasil, que é o quarto maior produtor mundial de tintas, no mesmo patamar que os países mais avançados em termos de legislação sobre o tema. Desde 2008, quando foi aprovada a lei anterior, houve uma significativa evolução tecnológica na indústria de tintas, que permitiu a substituição de matérias-primas contendo chumbo (especialmente pigmentos e secantes) sem comprometer a qualidade, a durabilidade e o desempenho dos produtos. A indústria de tintas no Brasil está plenamente capacitada para cumprir esse limite, o que demonstra a capacidade do setor de inovar continuamente, acompanhando as melhores práticas internacionais em sustentabilidade, segurança e excelência técnica", afirma Luiz Cornacchioni, presidente-executivo da Abrafati.

A aprovação atualiza uma legislação que, desde 2008, impunha um teor máximo de chumbo apenas a tintas imobiliárias, infantis e escolares, que são as de maior contato direto com o público. Com a nova proposta, o limite máximo de 90 partes por milhão (ppm) passa a abranger todas as categorias de tintas de revestimento, utilizadas em diversas indústrias (de eletrodomésticos e móveis a trens e aeronaves), em inúmeras aplicações na infraestrutura e manutenção, na repintura automotiva, na sinalização viária e nas mais variadas demandas de proteção de superfícies, ampliando a proteção aos profissionais e a todas as pessoas que lidam com as tintas. Há duas exceções na lei: para as tintas marítimas anti-incrustantes e as tintas anticorrosivas à base de zinco. Para ambas, seguiu-se o padrão global de estabelecer o limite técnico praticável de 600 ppm de chumbo.

A aprovação da Lei 15.441 consolida um movimento que a indústria brasileira de tintas vem conduzindo há anos em direção a produtos cada vez mais seguros, sustentáveis e alinhados às melhores referências globais. O novo marco regulatório fortalece um caminho já adotado pelo setor, ao transformar em legislação padrões técnicos avançados que refletem a evolução tecnológica da indústria.

“A medida representa um avanço importante para a modernização do ambiente regulatório brasileiro relacionado ao setor, contribuindo para ampliar a competitividade da indústria nacional e reforçar o compromisso do país com elevados padrões de qualidade, inovação e sustentabilidade. Faz parte da nossa missão impulsionar a evolução do setor e isso envolve alinhar o Brasil às melhores práticas globais da indústria de tintas, o que beneficia toda a sociedade”, finaliza Luiz Cornacchioni.

Para ler o texto da lei na íntegra, acesse: Link




Abrafati – Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas

 

Advogado explica o que muda para famosas e brasileiras que tiveram filhos nos EUA após decisão da Suprema Corte

Especialista afirma que o foco agora deve ser o combate às fraudes e ao chamado turismo de nascimento


A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de manter o direito à cidadania automática para crianças nascidas em território americano trouxe segurança jurídica para milhares de famílias brasileiras, incluindo famosas que optaram por ter seus filhos no país. 

Por 6 votos a 3, o tribunal rejeitou nesta terça-feira (30) a ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump que restringia a concessão da cidadania a filhos de imigrantes em situação irregular e de turistas estrangeiros, preservando a interpretação histórica da 14ª Emenda da Constituição americana.

O julgamento representa uma derrota para uma das principais bandeiras da política migratória de Trump, mas não significa o fim das medidas voltadas ao combate ao chamado "turismo de nascimento", prática em que gestantes viajam aos Estados Unidos para que os filhos adquiram automaticamente a cidadania americana.

Segundo Daniel Toledo, advogado especializado em Direito Internacional, fundador da Toledo e Associados, a principal consequência da decisão é que quem já teve filhos nos Estados Unidos dentro da legalidade não sofrerá qualquer alteração em seus direitos. "A cidadania dessas crianças permanece integralmente protegida pela Constituição americana. A decisão da Suprema Corte apenas reafirma um entendimento que existe há mais de um século. Quem teve um filho nos Estados Unidos seguindo as regras migratórias não precisa se preocupar porque absolutamente nada muda em relação ao status de cidadania dessas crianças", afirma.

Ao longo dos últimos anos, diversas brasileiras conhecidas do público escolheram os Estados Unidos para o nascimento dos filhos, tanto pela estrutura hospitalar quanto pela cidadania automática garantida pela legislação americana. A decisão da Suprema Corte mantém esse direito preservado.


O que realmente pode mudar

Embora tenha perdido a disputa constitucional, o governo Trump ainda possui instrumentos para endurecer o controle migratório.

Na avaliação de Toledo, a tendência é que a Casa Branca direcione seus esforços para intensificar a fiscalização de possíveis fraudes durante a obtenção de vistos ou na entrada de estrangeiros no país.

"O governo dificilmente abandonará essa pauta. O caminho agora deve ser aumentar a fiscalização sobre pessoas que entram nos Estados Unidos ocultando sua verdadeira intenção. Se uma gestante solicitar um visto de turismo afirmando que fará apenas uma viagem de lazer, quando seu objetivo principal é dar à luz no país, essa situação pode ser analisada pelas autoridades sob a ótica da fraude migratória."

Segundo o advogado, esse tipo de fiscalização já existe, mas pode ganhar força após a derrota sofrida pelo governo na Suprema Corte. "O presidente não conseguiu alterar a Constituição, mas continua tendo competência para determinar um controle migratório mais rigoroso. Isso pode significar entrevistas consulares mais detalhadas, análise mais criteriosa dos pedidos de visto e maior fiscalização na entrada de estrangeiros."


Cidadania permanece garantida

Um dos principais receios de brasileiros que tiveram filhos nos Estados Unidos era a possibilidade de perda da cidadania americana das crianças.

Segundo Toledo, esse risco praticamente deixa de existir após a decisão da Suprema Corte. "A cidadania por nascimento continua sendo um direito constitucional. A Suprema Corte reafirmou que esse direito não pode ser alterado por meio de uma ordem executiva. Para que isso acontecesse, seria necessária uma emenda à Constituição, aprovada pelo Congresso e ratificada pelos estados, um processo extremamente complexo."

Isso significa que crianças nascidas em solo americano continuam sendo cidadãs dos Estados Unidos, independentemente da nacionalidade ou da situação migratória dos pais, salvo exceções muito específicas previstas na legislação, como filhos de diplomatas estrangeiros.


Fiscalização pode atingir processos migratórios

Embora a cidadania permaneça preservada, Toledo acredita que o governo poderá ampliar a revisão de processos migratórios em que existam indícios de falsas declarações."É possível que haja uma rechecagem mais rigorosa de casos em que o governo entenda que houve fraude na obtenção do visto ou na entrada no país. O foco não será retirar a cidadania das crianças, mas verificar se os pais cumpriram corretamente as regras migratórias."

Segundo ele, prestar informações falsas durante entrevistas consulares ou para agentes da imigração pode gerar consequências como cancelamento de vistos, impedimento de novas entradas nos Estados Unidos e até processos administrativos.

"São situações completamente diferentes. A cidadania da criança continua protegida. O que pode ser investigado é a conduta dos pais durante o processo migratório."


Debate continua

Apesar da derrota judicial, Toledo acredita que a política migratória continuará sendo uma das prioridades da administração Trump.

"O governo perdeu uma batalha importante, mas dificilmente encerrará essa discussão. A tendência agora é um endurecimento administrativo, com foco em fiscalização, combate às fraudes e controle sobre o chamado turismo de nascimento. Para brasileiros que pretendem viajar aos Estados Unidos, a principal recomendação é agir com absoluta transparência em todas as etapas do processo migratório."

Na prática, a decisão da Suprema Corte preserva um dos pilares do direito constitucional americano, mas também inaugura uma nova etapa da política migratória dos Estados Unidos, em que o foco tende a migrar das mudanças constitucionais para um controle mais rigoroso sobre a forma como estrangeiros ingressam no país.



Daniel Toledo - advogado da Toledo e Advogados Associados especializado em Direito Internacional, consultor de negócios internacionais, palestrante e sócio da LeeToledo PLLC. Toledo também possui um canal no YouTube com mais de 1 milhão de seguidores com dicas para quem deseja morar, trabalhar ou empreender internacionalmente. Ele também é membro efetivo da Comissão de Relações Internacionais da OAB Santos, professor honorário da Universidade Oxford - Reino Unido, consultor em protocolos diplomáticos do Instituto Americano de Diplomacia e Direitos Humanos USIDHR.
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Grandes mamíferos alteram a química do solo e aumentam a fertilidade da Mata Atlântica

 

Vivendo em grupos por vezes com mais de cem indivíduos, queixadas
revolvem o solo de florestas tropicais a ponto de mudar suas propriedades químicas
(
foto: João Paulo Krajewski)

Estudo revela que antas, queixadas, catetos e veados atuam como verdadeiros engenheiros do ecossistema ao diminuir a acidez da terra, aumentar a diversidade e acelerar a decomposição de matéria orgânica na floresta

 

Um estudo publicado na revista Ecological Monographs aponta que grandes mamíferos, como antas, queixadas, catetos e veados, alteram a composição química da serrapilheira e do solo em florestas tropicais da Mata Atlântica brasileira. Como consequência, proporcionam maior disponibilidade de nutrientes e, possivelmente, uma maior fertilidade do solo.

O trabalho foi realizado por integrantes do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP e sediado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro. Os resultados enfatizam a importância que esses animais – muito visados pela caça ilegal e com populações em declínio – têm para a sobrevivência a longo prazo do bioma, mesmo dentro de áreas onde a cobertura florestal permanece intacta.

“A maior parte da biomassa de mamíferos em áreas contínuas de Mata Atlântica é composta pela queixada, um porco selvagem nativo que vive em bandos que podem passar de cem indivíduos”, conta Letícia Gonçalves Ribeiro, primeira autora do trabalho, realizado como parte de seu doutorado no IB-Unesp com bolsa da FAPESP.

“Eles chegam numa área e passam muito tempo pisoteando e fuçando a terra, à procura de frutos caídos e sementes, além de defecar e urinar. Com isso, acabam influenciando a ciclagem de nutrientes, alterando a química do solo e a diversidade da serrapilheira – a camada de folhas, galhos e frutos que fica na superfície do solo”, explica a cientista. Outros exemplos de mamíferos herbívoros de grande porte que povoam o bioma incluem as antas, os veados e os catetos, que são uma outra espécie de porco selvagem.

Para entender melhor a relevância desses animais no funcionamento da Mata Atlântica, os pesquisadores compararam amostras do solo e da serrapilheira de áreas onde esses mamíferos circulam livremente com as de outras áreas, que foram cercadas para eliminar temporariamente a presença deles. Os resultados apontaram diferenças substanciais na acidez (pH) – menos ácido com animais, mais ácido sem – e na disponibilidade de nutrientes como cálcio e alumínio.

“O alumínio, que em altos níveis é prejudicial às plantas, foi reduzido onde havia maior presença de animais. Esse nutriente tem uma relação especial com o pH e o cálcio. O equilíbrio entre eles é necessário para uma maior fertilidade do solo”, afirma Ribeiro. Isso significa, na prática, que a presença de grandes mamíferos aumenta a fertilidade do solo da floresta.

Na serrapilheira das áreas com mamíferos, foi observada uma redução de lignina, uma molécula complexa que recobre as células das plantas e dificulta sua decomposição. Ao ser remexida e pisoteada pelos animais, a serrapilheira é mais bem distribuída no espaço e se fragmenta em pedaços menores, o que aumenta o contato com o solo e facilita a quebra da lignina e o processo de decomposição.

Foi constatada ainda uma maior diversidade na serrapilheira que era fuçada e pisoteada pelos grandes animais. As amostras coletadas na parte com presença de grandes mamíferos tinham uma proporção mais equilibrada de folhas, galhos, frutos e sementes, outro fator que contribui para a decomposição desses materiais no solo da floresta.

“Nossa pesquisa tem demonstrado, de forma cada vez mais robusta, como os grandes herbívoros têm uma importância primordial para as florestas. São justamente esses animais, mais visados pela caça, que atuam como engenheiros de ecossistemas, influenciando desde a composição das plantas na paisagem até mesmo a química do solo”, afirma Mauro Galetti, professor do IB-Unesp que coordenou o estudo e é um dos pesquisadores principais do CBioClima.


No alto, veado-mateiro (Mazama rufa) e anta (Tapirus terrestris) flagrados por câmeras trap instaladas nas áreas do estudo, que flagraram ainda a queixada (Tayasu pecari), à direita (fotos: câmeras trap e Letícia Gonçalves Ribeiro/IB-Unesp)

 

Estudo de longo prazo

A investigação se baseou em dados obtidos por meio do projeto “DEFAU-BIOTA: efeitos da defaunação no carbono do solo e na diversidade funcional de plantas da Mata Atlântica”, apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa BIOTA.

No experimento, conduzido desde 2009 na Serra do Mar, são comparadas áreas (parcelas) de 15 metros quadrados abertas para a livre passagem dos animais com outras onde o acesso é restrito por cercas, que são instaladas pelos pesquisadores para impedir a entrada de mamíferos de grande porte.

No trabalho atual, foram analisadas dez parcelas abertas e dez fechadas no Parque Estadual Carlos Botelho, no município de São Miguel Arcanjo, parte de um grande mosaico de áreas protegidas de Mata Atlântica na região do Vale do Ribeira, no sudeste do Estado de São Paulo. A biomassa de mamíferos foi estimada a partir de imagens de câmeras conhecidas como “armadilhas fotográficas", que são acionadas automaticamente quando algum animal passa na frente delas.

Em estudos anteriores, os pesquisadores já haviam demonstrado que a ausência de grandes mamíferos herbívoros reduz a quantidade de nitrogênio no solo, diminui a diversidade de plantas e altera as relações entre plantas e seus inimigos naturais — modificando, assim, a dinâmica ecológica da floresta (leia mais em: agencia.fapesp.br/34879, agencia.fapesp.br/31388 e agencia.fapesp.br/50818).

Em março deste ano, outro estudo do grupo indicou que a falta de grandes mamíferos leva a uma homogeneização da floresta, ou seja, a dominância de algumas poucas espécies de plantas que prosperam na ausência desses herbívoros.

Fezes de anta no Parque Estadual Carlos Botelho: presença de grandes
mamíferos aumenta disponibilidade de nutrientes para a manutenção da floresta
(
foto: Letícia Gonçalves Ribeiro/IB-Unesp)


Vida no solo

Numa etapa mais recente da pesquisa, ainda em desenvolvimento, Ribeiro está analisando o efeito dos grandes mamíferos sobre os nematoides, animais microscópicos, parecidos com vermes, que vivem no solo e são indicadores de qualidade do ecossistema.

“Os nematoides são um dos grupos mais abundantes da fauna do solo, ocupando diferentes níveis tróficos: alguns são especializados em comer bactérias, outros se alimentam apenas de fungos e há ainda os predadores, que se alimentam de outros nematoides e organismos da fauna do solo”, explica Ribeiro, que atualmente realiza estágio de doutorado na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, com bolsa da FAPESP.

As análises preliminares realizadas até agora em amostras de solo coletadas das áreas de pesquisa apontam que a presença dos grandes mamíferos contribui para uma presença maior de nematoides predadores. “É preciso ter todos os outros níveis tróficos presentes para que haja esse tipo de nematoide. Portanto, sua abundância indica um ecossistema mais saudável”, diz.

Os resultados dessa nova fase do estudo, no entanto, ainda não têm data para serem publicados.

O trabalho agora publicado teve apoio da FAPESP também por meio de bolsa de doutorado concedida a Mateus de Melo Dias, coautor do texto.

O artigo Mammals' zoogeochemical effects change litter and soil biogeochemistry in a tropical rainforest pode ser lido em: esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ecm.70070.

Veja vídeo sobre a pesquisa em: youtu.be/nUNav9OPhcU.

 



André Julião

Agência FAPESP 
https://agencia.fapesp.br/grandes-mamiferos-alteram-a-quimica-do-solo-e-aumentam-a-fertilidade-da-mata-atlantica/58565



Idosos na mira! Brasil registra média de cinco processos de estelionato por dia; entenda o fenômeno dos “golpes virtuais”

Segundo dados divulgados pelo Escavador nesta quarta-feira, 1º de julho, o país soma quase cinco mil denúncias registradas entre os anos de 2023 e o final de maio de 2026.


 

 

Basta uma ligação falsa para que o popular ‘171’, mais conhecido como crime de estelionato, convença a vítima a abrir sua conta bancária. Entre o público boomer (60+), a quantidade de denúncias cresce ano após ano: no Brasil, aproximadamente 5 processos por estelionato contra idosos são abertos por dia.

 

Os dados foram divulgados pelo Escavador nesta quarta-feira, 1º de julho, com quase cinco mil denúncias registradas entre 2023 e o final de maio de 2026. De acordo com a plataforma de dados jurídicos, os crimes de estelionato contra idosos se intensificaram na última década. Mantendo o ritmo atual, 2026 deve encerrar com cerca de 62% mais processos do que em 2023.

O início da análise identificou 1,1 mil processos em 2023, crescendo em uma curva suave no ano de 2024, que fechou com 1,3 mil ações. Acompanhando o fenômeno dos golpes virtuais, 2025 apresentou a maior quantidade de denúncias, com 1,7 mil processos apresentados nos tribunais.  

Levar os casos à Justiça, após tentativas com os bancos, tornou-se um cotidiano na vida do público mais velho. Segundo Dalila Pinheiro, Coordenadora Jurídica e DPO do Escavador, os criminosos entram em contato com tons de urgência, se passando por ‘gerentes de banco’, ou, em alguns casos, passando de setor em setor da própria quadrilha, levando a vítima a ‘cair em uma arapuca’, como se estivesse sendo assistida pelo time das agências bancárias. 

 

“Um dos casos mais comuns, quando referido ao crime de estelionato contra idosos, é o de golpes relacionados à fraude bancária. Geralmente são encaminhados SMS ou mensagens via WhatsApp, pedindo alguma confirmação: você reconhece esta compra? Ao informar que não, uma equipe entra em contato com a vítima, precisamente como os setores de prevenção à fraude dos bancos fazem. Os estelionatários, em alguns casos, utilizam dados primários, como CPF, para que a engenharia social (técnica de manipulação psicológica) tenha ainda mais efeito no público. Entre os mais velhos, a dificuldade é maior, devido à adaptação tardia com a tecnologia e o entendimento das linguagens e procedimentos”, explica a DPO. 

 

Apesar das campanhas de conscientização, o país está longe de frear os avanços do crime de estelionato contra idosos. O fechamento parcial do primeiro semestre de 2026 trouxe mais uma preocupação às autoridades, com 748 ações notificadas aos tribunais; fatia que corresponde a 41,7% de todo o volume registrado em 2025. “Podemos entrar em um ano histórico de denúncias por crimes de estelionato. Os idosos costumam ser o público mais comum, no entanto, todos estão suscetíveis à engenharia social. O caminho que o dinheiro percorre também é difícil de rastrear. As chamadas contas-laranja recebem os valores e, geralmente, são instruídas a repassar de conta em conta, de certa forma, ‘limpando’ o dinheiro. Nesse método, ainda que o banco possa bloquear a conta recebedora, a mesma já não deve estar com nenhum resquício do valor do golpe, dificultando a restituição bancária e elevando o número de processos por casos de estelionato no país”.  

 

Ainda segundo o Escavador, a quantidade de denúncias pode variar de lugar para lugar. Entre as federações com a maior quantidade de processos por estelionato contra idosos, o estado da Bahia ocupa o topo do ranking, com 580 denúncias, seguido por Minas Gerais (542), São Paulo (458), Paraná (432), Rio de Janeiro (329), Piauí (316), Santa Catarina (273), Mato Grosso do Sul (233) e Ceará, com 207 casos, no período entre 2023 e a última parcial de 2026. 

 

Já entre os que menos contabilizaram processos, está o estado do Acre, com apenas três ações, seguido por Pernambuco (5), Rio Grande do Norte (13) e Maranhão (14). “Uma onda de crimes de estelionato rompeu os estados e não se limitou à fraude bancária. Esse tipo de crime, tipificado no Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940), especificamente em seu Artigo 171, estourou nas metrópoles por meio  de diferentes formas: compra de veículo, fraudes, golpes do PIX, boletos falsos, fraudes imobiliárias, empréstimos consignados fraudulentos, golpe do falso parente, entre vários outros. A engenharia social por trás dos golpes também avança, conseguindo replicar faces, fazer chamadas de vídeo ‘ao vivo’, criar locais falsos e outras artimanhas”, comenta Dalila.  

 

Crimes previstos no ‘Estatuto do Idoso’ acumulam alta consecutiva

 

Além da preocupação que espreita o telefone, os processos por “crimes previstos no Estatuto do Idoso” cresceram no país. Ainda segundo apuração do Escavador, as infrações contra o Estatuto do Idoso já chegam a 29 mil ações no Brasil, com uma média superior a 8,5 mil processos por ano. 

 

“As preocupações com o envelhecimento no Brasil ampliaram para além da saúde. Hoje, há um desafio crescente relacionado à proteção patrimonial, financeira e até emocional da população idosa. À medida que o país envelhece e a digitalização dos serviços avança, cresce também a necessidade de mecanismos de prevenção, educação digital e proteção jurídica capazes de reduzir a vulnerabilidade desse público diante de golpes, fraudes e outras formas de violência”, conclui Dalila.


Confira a lista de processos por estelionato contra idosos nos estados (2023 a maio de 2026)

 

Bahia (BA) – 580

Minas Gerais (MG) – 542

São Paulo (SP) – 458

Paraná (PR) – 432

Rio de Janeiro (RJ) – 329

Piauí (PI) – 316

Santa Catarina (SC) – 273

Mato Grosso do Sul (MS) – 233

Ceará (CE) – 207

Goiás (GO) – 193

Rio Grande do Sul (RS) – 175

Sergipe (SE) – 133

Pará (PA) – 127

Paraíba (PB) – 67

Alagoas (AL) – 66

Amazonas (AM) – 60

Espírito Santo (ES) – 58

Distrito Federal (DF) – 53

Tocantins (TO) – 53

Amapá (AP) – 43

Mato Grosso (MT) – 18

Maranhão (MA) – 14

Rio Grande do Norte (RN) – 13

Pernambuco (PE) – 5

Acre (AC) – 3

 

Sanidade Animal – Segunda etapa da campanha de vacinação contra a Brucelose começa nesta quarta-feira, 1º de julho

 

Dando continuidade ao calendário de vacinação estipulado pela Resolução SAA nº 78/24 e pelas Portarias 33/24 e 34/24, começa hoje, dia 1º de julho de 2026, a segunda etapa da campanha de vacinação contra a Brucelose no Estado de São Paulo. A Defesa Agropecuária da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) reforça que durante a etapa, que vai até 31 de dezembro, devem ser imunizadas as bovinas e bubalinas de três a oito meses de idade. 

Por se tratar de uma vacina viva, passível de infecção para quem a manipula, a vacinação deve ser feita por um médico-veterinário cadastrado que, além de garantir a correta aplicação do imunizante, fornece o atestado de vacinação ao produtor. 

A relação dos médicos-veterinários cadastrados na Defesa Agropecuária para realizar a vacinação em diversos municípios do Estado de São Paulo está disponível em Link. 

Além dos prazos, outra mudança preconizada pela Resolução e pelas portarias mencionadas, trata da entrega da declaração da vacinação. A partir de agora, o médico-veterinário responsável pela imunização, ao cadastrar o atestado de vacinação no sistema informatizado de gestão de defesa animal e vegetal (GEDAVE) em um prazo máximo de quatro dias a contar da data da vacinação e dentro do período correspondente à vacinação, validará a imunização dos animais. Em casos em que o saldo do rebanho esteja atualizado, o sistema fará a declaração automática. 

A exceção acontecerá quando houver casos de divergências entre o número de animais vacinados e o saldo do rebanho declarado pelo produtor no sistema GEDAVE. 

Em caso de incongruências, o médico-veterinário e o produtor serão notificados das pendências por meio de mensagem eletrônica, enviada ao e-mail cadastrado junto ao GEDAVE. Neste caso, o proprietário deverá regularizar a pendência para a efetivação da declaração. 
 

Identificação 

Está em vigor desde outubro de 2024 no Estado de São Paulo, o modelo alternativo de identificação - o primeiro do país aprovado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) - de vacinação contra a Brucelose. Trata-se da utilização de bottons auriculares, uma alternativa não obrigatória à marcação a fogo que além do bem-estar animal, estimula a produtividade e a qualidade do manejo, além de aumentar a segurança do produtor e do veterinário responsável pela aplicação do imunizante. 

De acordo com as portarias, Em São Paulo fica estabelecido o botton amarelo para a identificação dos animais vacinados com a vacina B19 e o botton azul passa a identificar as fêmeas vacinadas com a vacina RB 51. Anteriormente, a identificação era feita com marcação à fogo indicando o algarismo do ano corrente ou a marca em “V”, a depender da vacina utilizada. 

Para o caso de perda, dano ou qualquer alteração que prejudique a identificação, deverá ser solicitada nova aplicação que deverá ser feita ao médico-veterinário responsável pela aplicação ou ainda, para a Defesa Agropecuária. 

Havendo a impossibilidade da aquisição do botton, o animal deverá ser identificado conforme as normativas vigentes do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose (PNCEBT).

A Defesa Agropecuária informa ainda que o uso do botton só é válido dentro do Estado de São Paulo, não sendo permitido o trânsito de animais identificados de forma alternativa para demais estados da federação.

 

Felipe Nunes


Deportações expõem riscos da imigração irregular e levam brasileiros a buscar caminhos legais para os EUA

Histórias de famílias que perderam patrimônio e foram obrigadas a retornar ao Brasil após anos vivendo nos Estados Unidos, reforçam o interesse por vistos de imigração legal


O endurecimento da política migratória dos Estados Unidos e o aumento das deportações de imigrantes em situação irregular têm levado mais brasileiros a repensar os caminhos para viver no país. Escritórios especializados em imigração relatam um crescimento na procura por vistos legais, impulsionado por relatos de famílias que perderam patrimônio, foram separadas e precisaram retornar ao Brasil após anos vivendo de forma irregular.

Segundo Daniel Toledo, advogado especializado em Direito Internacional e imigração para os Estados Unidos, os casos recentes evidenciam que a imigração clandestina pode representar um risco muito maior do que apenas a possibilidade de deportação.

"Tem chegado cada vez mais relatos de brasileiros que venderam tudo o que tinham, pagaram atravessadores, enfrentaram a travessia pelo México e pelo Rio Grande e, anos depois, acabaram deportados. Em muitos casos, voltam ao Brasil sem patrimônio, endividados e emocionalmente abalados."

Um desses relatos envolve uma família de Governador Valadares (MG), que decidiu deixar o Brasil após enfrentar dificuldades financeiras. Depois de vender os bens que possuía e contrair dívidas para pagar cerca de US$ 24 mil a intermediários responsáveis pela travessia clandestina, o casal iniciou uma jornada que incluiu dias escondidos em casas improvisadas no México, escassez de alimentos, medo constante da atuação de cartéis e a travessia do Rio Grande com um filho pequeno doente.

Já em território americano, a família solicitou asilo e conseguiu permanecer no país enquanto o processo migratório era analisado. O casal passou a trabalhar na construção civil e em serviços de limpeza até que, em novembro de 2025, o homem foi detido por agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE). Após cerca de 70 dias em um centro de detenção, foi deportado para o Brasil. Sem condições financeiras para permanecer sozinha nos Estados Unidos, a esposa também retornou posteriormente com o filho, graças a uma campanha organizada pela comunidade brasileira.

Para Toledo, o ocorrido ilustra uma realidade que tem se tornado cada vez mais frequente diante do aumento da fiscalização migratória.

"Durante algum tempo muitas pessoas acreditaram que conseguir entrar era suficiente para permanecer nos Estados Unidos. Hoje a realidade é diferente. A fiscalização aumentou, as detenções se intensificaram e quem está irregular vive sob constante insegurança jurídica."


Prejuízo financeiro pode superar o investimento em uma imigração legal

Além dos riscos físicos da travessia, especialistas alertam que a imigração irregular costuma gerar perdas financeiras significativas. Muitas famílias vendem imóveis, veículos e contraem empréstimos para custear a viagem, sem qualquer garantia de permanência nos Estados Unidos.

Segundo Toledo, outro erro recorrente é utilizar o pedido de asilo como estratégia de imigração, mesmo sem atender aos requisitos previstos na legislação americana.

"O asilo existe para proteger pessoas que realmente sofrem perseguições por motivos específicos previstos em lei. Quando esse fundamento não existe, o risco de negativa do processo e posterior deportação é muito elevado."


Busca por vistos legais cresce

Como consequência desse cenário, cresce também o interesse por modalidades legais de imigração.

Entre os vistos mais procurados estão o EB-2 NIW, destinado a profissionais qualificados que demonstrem interesse nacional para os Estados Unidos; o EB-5, voltado a investidores; além de vistos empresariais, como o E-2 e o L-1.

Segundo Toledo, muitas famílias descobrem, apenas depois da deportação, que o custo financeiro da imigração irregular poderia ter sido suficiente para estruturar um processo legal. "Em muitos casos, o valor gasto com atravessadores, deslocamentos, dívidas e perdas patrimoniais supera o investimento necessário para algumas modalidades legais de imigração. A diferença é que o caminho regular oferece segurança jurídica e reduz drasticamente o risco de perder tudo."


Crianças estão entre as maiores vítimas

Na avaliação do especialista, um dos aspectos mais preocupantes é a exposição de crianças às rotas clandestinas.

Além da atuação de organizações criminosas, as travessias frequentemente passam por regiões desérticas, rios com correnteza intensa, áreas isoladas e locais onde praticamente não há acesso a atendimento médico.

"Crianças não têm condições de enfrentar esse tipo de jornada. Basta uma febre, uma desidratação ou um acidente para transformar uma viagem em uma tragédia. O desejo de oferecer uma vida melhor jamais pode significar colocar toda a família em um risco tão elevado."

Para Toledo, o aumento das deportações tende a consolidar uma mudança de comportamento entre brasileiros interessados em viver nos Estados Unidos.

"As oportunidades continuam existindo para quem deseja construir uma vida nos Estados Unidos. A diferença é que cresce a compreensão de que fazer isso por meio das vias legais oferece muito mais segurança, previsibilidade e tranquilidade para toda a família."



Daniel Toledo - advogado da Toledo e Advogados Associados especializado em Direito Internacional, consultor de negócios internacionais, palestrante e sócio da LeeToledo PLLC. Toledo também possui um canal no YouTube com mais de 1 milhão de seguidores com dicas para quem deseja morar, trabalhar ou empreender internacionalmente. Ele também é membro efetivo da Comissão de Relações Internacionais da OAB Santos, professor honorário da Universidade Oxford - Reino Unido, consultor em protocolos diplomáticos do Instituto Americano de Diplomacia e Direitos Humanos USIDHR.
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Além do preço: cinco pontos para observar antes de comprar um imóvel

Planejamento financeiro e potencial de valorização estão entre os fatores que merecem atenção, alerta especialista

 

Sonho para muitos e investimento para outros, a casa própria segue como prioridade para os brasileiros. Segundo pesquisa Datafolha divulgada em 2025, cerca 93% das pessoas que moram de aluguel desejam comprar um imóvel, enquanto 94% consideram mais vantajoso financeiramente ser proprietário do que pagar aluguel. Antes de fechar negócio, porém, é importante avaliar fatores que vão além do preço para garantir uma decisão mais segura. 

Segundo Viviane Sieiro, diretora Comercial da MRV no Rio de Janeiro, adquirir um imóvel é uma das maiores decisões financeiras da vida e exige uma análise cuidadosa que considere tanto as necessidades atuais da família quanto os planos para o futuro. 

“É importante considerar aspectos que influenciam o dia a dia do morador e também a valorização do patrimônio ao longo do tempo. A avaliação conjunta desses fatores permite uma escolha mais assertiva e adequada ao perfil de cada família”, afirma. 

Da localização ao planejamento financeiro, alguns critérios podem fazer diferença tanto na experiência de moradia quanto na valorização do patrimônio ao longo do tempo. Confira os principais pontos de atenção destacados pela especialista:
 

1. Localização e infraestrutura da região

A localização é um dos fatores que mais impactam a experiência de quem vai morar no imóvel. A proximidade de transporte público, escolas, comércio e serviços pode trazer mais praticidade para a rotina, mas também é importante avaliar a infraestrutura da região e o potencial de valorização do entorno. Além disso, é recomendável visitar o bairro em diferentes horários para observar o trânsito, a movimentação, os níveis de ruído, a sensação de segurança e outros aspectos que podem influenciar a qualidade de vida dos moradores.
 

2. Características do imóvel

Aspectos internos também merecem atenção. Boa ventilação, iluminação natural, incidência solar adequada e distribuição funcional dos ambientes fazem diferença no conforto dos moradores.

“As características internas do imóvel têm um peso importante na decisão de compra. Ambientes bem planejados e adaptáveis às diferentes necessidades da família contribuem para o bem-estar e para a funcionalidade da rotina”, explica a diretora.
 

3. Documentação em dia

Antes de assinar qualquer contrato, é fundamental verificar a matrícula atualizada do imóvel, certidões negativas, situação do IPTU e eventuais débitos existentes. No caso de imóveis novos, também é recomendável pesquisar o histórico da construtora, observando aspectos como cumprimento de prazos, qualidade construtiva e atendimento no pós-venda.
 

4. Planejamento financeiro

Um dos erros mais comuns entre compradores é considerar apenas o valor das parcelas do financiamento. Despesas como ITBI, escritura, registro, condomínio e IPTU também precisam entrar no planejamento financeiro.

“O ideal é que a compra não comprometa excessivamente a renda familiar, permitindo que o comprador mantenha uma margem para imprevistos e outras despesas futuras. Em alguns casos, feirões imobiliários podem oferecer condições especiais e ajudar a reduzir parte desses custos”, destaca Viviane.
 

5. Potencial de valorização

Além de atender às necessidades atuais da família, o imóvel também pode representar um importante patrimônio de longo prazo. Por isso, é importante avaliar as perspectivas de desenvolvimento da região, incluindo projetos de mobilidade urbana, novos empreendimentos, investimentos públicos e a ampliação da oferta de serviços e comércio no entorno.

Esses fatores podem influenciar diretamente a valorização do imóvel ao longo dos anos. Regiões que recebem melhorias de infraestrutura e novos investimentos costumam apresentar maior potencial de crescimento e atratividade para futuros compradores. Para Viviane, tão importante quanto avaliar aspectos técnicos e financeiros é evitar decisões precipitadas durante o processo de compra.

“Vale visitar o imóvel mais de uma vez, conversar com moradores da região e analisar cuidadosamente as condições financeiras antes da assinatura do contrato”, reforça.


O cansaço de pensar: por que você está exausto sem ter feito nada

Foto de Fernando Santander na Unsplash

Você chega ao fim do dia com a sensação de que trabalhou muito, mas quando olha para o que produziu, a conta não fecha. O cansaço é real. A entrega, nem sempre. Esse é um dos paradoxos mais comuns e silenciosos do ambiente corporativo atual.

A primeira reação costuma ser de culpa: "Preciso ser mais disciplinado", "estou perdendo foco", "tenho que me organizar melhor". Mas o problema, muitas vezes, não é falta de vontade. É um fenômeno que a ciência do comportamento humano descreve como ego depletion, ou esgotamento do ego.

O cérebro humano lida mal com o volume e a velocidade de decisões que o ambiente moderno impõe. Em 1998, o psicólogo social Roy Baumeister foi um dos primeiros a demonstrar, cientificamente, que a capacidade de autorregulação (que envolve tomar decisões, manter o foco e resistir a impulsos) funciona como um recurso limitado, quanto mais usada ao longo do dia, mais ela se desgasta.

Esse mecanismo ficou conhecido como ego depletion, ou esgotamento do ego, e deu origem ao que hoje chamamos de ‘fadiga de decisão’. A ideia central permanece observável na prática: a qualidade das decisões declina à medida que o dia avança e o esforço cognitivo se acumula. As decisões do final da tarde tendem a ser piores do que as da manhã, não porque você seja menos inteligente nesse horário, mas porque seu sistema de controle consciente já consumiu grande parte da energia disponível.

Estar ocupado e ser cognitivamente eficiente são coisas diferentes. E aqui mora a armadilha. O ambiente corporativo confunde movimento com progresso. Reuniões que poderiam ser e-mails, notificações constantes, mudanças de contexto a cada dez minutos, tudo isso impõe um custo cognitivo alto, muitas vezes invisível. Quando está exausto você não percebe o ato de pensar porque o corpo não dói. Mas a mente entra em modo de sobrevivência, evita o que é complexo, recorre ao automático e escolhe o mais fácil.

É nesse cenário que a dimensão reativa assume o controle. Na metodologia que desenvolvi ao longo de mais de uma década de trabalho com alta performance, trabalho com três dimensões cognitivas integradas: a reativa, a emocional e a racional. Em condições ideais, as três operam em conjunto. A reativa capta o estímulo, a emocional dá significado, e a racional organiza a melhor resposta. O problema é que a dimensão racional é a mais cara em termos de energia e atenção. Quando o tanque está no limite, ela sai de cena. O que sobra é reação pura: impulsividade, decisões no piloto automático, respostas que você mesmo não reconhece como suas no dia seguinte.

A grande virada começa quando paramos de medir produtividade pelo volume de tarefas e passamos a medir pela qualidade das decisões. Um profissional de alta performance não é aquele que aguenta mais horas na cadeira. É aquele que entende quando seu sistema racional está mais afiado e protege esse tempo com inteligência.

Na prática, isso exige mudanças simples, mas contraintuitivas como, por exemplo, reservar decisões relevantes para o início do dia; criar blocos de trabalho profundo sem interrupções, em vez de estar permanentemente disponível; e aprender a distinguir o que exige raciocínio real do que pode ser resolvido no automático.

A cultura da alta performance criou um mito perigoso, o de que resistir ao cansaço é virtude, de que trabalhar mais é sempre melhor, e também que o profissional que não para é o mais comprometido. A ciência do comportamento humano sugere o contrário. Ignorar limites cognitivos não é dedicação, é desperdício. Um cérebro exausto entrega apenas volume.

O verdadeiro desafio não é trabalhar mais horas. É garantir que, nas horas em que você trabalha, o sistema racional esteja presente e não apenas o reativo respondendo no automático. Porque, no fim, os resultados não são definidos pelo volume do que você faz, mas pela qualidade do que você decide quando realmente importa.

 


Bruno Rosa -engenheiro eletricista e Managing Director da Domperf High Performance, empresa de treinamento de alto desempenho profissional e consultoria empresarial. Há mais de uma década dedica-se ao estudo da neurociência e comportamento, desenvolvendo metodologias práticas aplicadas ao ambiente corporativo. https://domperf.com.br/