Com entrada franca, "Eclodir o Efêmero", em cartaz no Espaço República, no centro de São Paulo
Depois
de anos produzindo cerâmicas para um mercado que buscava objetos utilitários,
Luisa Bresser percebeu que sua pesquisa artística seguia outro caminho.
Enquanto suas peças eram vistas como objetos de uso, ela enxergava nelas
possibilidades de investigação sobre memória, impermanência e transformação. A
decisão de desmontar o próprio ateliê e recomeçar marcou uma virada em sua
trajetória. É desse processo que nasce "Eclodir o Efêmero", sua
primeira exposição individual, em cartaz de 6 a 15 de agosto, no Espaço
República, em São Paulo, com entrada gratuita.
A
mostra reúne 43 obras entre cerâmica, arte têxtil, fotografia, vídeo e
instalação. Embora transite por diferentes linguagens, a exposição é
atravessada por uma mesma pergunta: o que permanece depois da ruptura? Em vez
de buscar respostas, as obras convidam o público a refletir sobre as marcas
deixadas pelas transformações, individuais e coletivas, e sobre a capacidade de
reconstrução presente na experiência humana.
Formada
em Arquitetura, Luisa construiu uma trajetória que passou pela arquitetura,
pelo design de jóias e pela cerâmica. Foi nesse percurso que desenvolveu o
domínio técnico sobre a argila e seus processos, explorando a repetição das
formas, a pesquisa de esmaltes e o comportamento imprevisível do material. Com
o tempo, no entanto, percebeu que sua produção autoral pedia mais espaço do que
aquele permitido pelas demandas do mercado.
"Durante
muito tempo produzi aquilo que o mercado procurava. As pessoas buscavam objetos
para a casa, peças utilitárias. Em algum momento percebi que estava deixando de
fazer a obra que realmente queria fazer. Quando desmontei meu ateliê, senti que
finalmente podia produzir a partir da minha pesquisa", afirma
Luisa Bresser.
Antes
da exposição individual, Luisa participou de uma mostra coletiva no próprio
Espaço República. A experiência marcou sua reaproximação com o circuito da arte
contemporânea e consolidou uma pesquisa que vinha sendo construída
silenciosamente ao longo dos últimos anos.
Livre
da necessidade de produzir para atender a uma demanda comercial, mergulhou
integralmente em sua investigação artística. Em poucos meses, desenvolveu
dezenas de obras. Ao visitar seu ateliê, o curador Andrés I. M. Hernández
identificou um conjunto consistente, no qual diferentes técnicas dialogavam em
torno de uma mesma reflexão.
"O
trabalho da Luísa revela uma pesquisa madura, em que diferentes linguagens
deixam de funcionar isoladamente para construir uma narrativa única. Cerâmica,
tecido, fotografia, instalação e vídeo investigam a fragilidade, a
transformação e a permanência como experiências fundamentais da
existência", afirma o curador Andrés I. M. Hernández.
Séries da exposição
Essa
investigação percorre toda a exposição.
Na
série "Sustentação", esculturas em cerâmica desafiam
a percepção ao encontrar equilíbrio em formas aparentemente instáveis. Objetos
que parecem prestes a cair permanecem de pé, sugerindo reflexões sobre
vulnerabilidade, resistência e permanência.
Em "Depois
da Ruptura", tecidos, aquarela e costuras aparentes
transformam rasgos, remendos e cicatrizes em parte da própria linguagem da
obra. Em vez de esconder as marcas, os trabalhos as tornam visíveis, revelando
que reconstruir não significa apagar aquilo que foi rompido.
"A
costura não tenta esconder a ruptura. Ela sustenta a ruptura.Não acredito que a
arte cure. Mas ela reorganiza os meus processos. Enquanto produzo, vou
reorganizando minha maneira de pensar", resume Luisa.
Já "Limiar" utiliza
o corpo feminino como território simbólico para discutir proteção, exposição,
delicadeza e força. Cerâmica, espinhos e superfícies irregulares rompem
representações idealizadas e propõem uma leitura mais complexa da experiência
humana.
Embora
sua produção tenha origem em experiências pessoais, Luisa evita interpretar seu
trabalho como autobiográfico ou terapêutico. Ao transformar experiências
íntimas em matéria, textura, equilíbrio e ausência, "Eclodir o
Efêmero" amplia o olhar para questões universais. As fissuras presentes
nas obras deixam de representar apenas aquilo que foi perdido e passam a
revelar novas possibilidades de existência.
Mais
do que marcar a estreia de Luisa Bresser em uma exposição individual, a mostra
apresenta uma artista que assume publicamente uma linguagem construída ao longo
de anos de estudo, experimentação e inquietação. Uma pesquisa que encontra na
impermanência não um fim, mas o ponto de partida para criar.
Serviço
Exposição “Eclodir o Efêmero”
Entrada gratuita
Artista: Luisa
Bresser
Curador: Andrés
I. M. Hernández
Visitação: Abertura:
6 de agosto,das 18h às 22h | 7 a 15 de agosto, das 11h às 17h
Local: Espaço
República | Avenida São Luís, 86, 5º andar - São Paulo

Nenhum comentário:
Postar um comentário