quinta-feira, 14 de maio de 2026

Hemofilia: o que é a doença, seus desafios e a evolução do tratamento

O que é a hemofilia


A hemofilia é uma doença rara, hereditária e genética que ocorre quando uma pessoa nasce com deficiência ou anormalidade na atividade de um dos fatores. Quando a deficiência é no fator VIII, a hemofilia é tipo A. E quando é no fator IX é tipo B1.

Isso leva a alguns sintomas, como sangramentos prolongados, hematomas frequentes e sangramentos nas articulações e músculos. Ao longo do tempo, esses sangramentos podem prejudicar a mobilidade e causar lesões permanentes em tecidos e órgãos2.

Por ser uma genética ligada ao cromossomo X, em 70% dos casos, as hemofilias são passadas a indivíduos do sexo masculino por mães portadoras da mutação. Pelo fato de os homens possuírem apenas cromossomo X, é o suficiente para o desenvolvimento dos sinais da doença. Já em mulheres, os sinais e sintomas da doença ocorrem quando ambos pai e mãe são portadores do cromossomo X comprometido, o que é particularmente raro. Nos outros 30% dos casos, a doença surge em uma família sem histórico de hemofilia, sendo causada por uma nova mutação genética.

Hoje, mais de 13 mil pessoas vivem com hemofilia no Brasil. A prevalência estimada é de aproximadamente um caso em cada 5.000 a 10.000 nascimentos do sexo masculino para hemofilia A, e de um caso em cada 30.000 a 40.000 nascimentos do sexo masculino para a hemofilia B. A hemofilia A é mais comum, representando cerca de 80% dos casos.

Os métodos de diagnóstico da hemofilia incluem exames laboratoriais, para analisar a coagulação sanguínea, e testes genéticos, para identificar mutações nos genes fator VIII ou fator IX, responsáveis pelas hemofilias. Os casos graves de hemofilia geralmente são diagnosticados no primeiro ano de vida, mas as formas leves podem não ser aparentes até a idade adulta, dificultando o diagnóstico precoce.


A evolução do tratamento

Por décadas, o manejo da hemofilia consistia em repouso, imobilização e aplicação de gelo no membro atingido e, quando necessário, transfusão de sangue. Em 1940, o tratamento passou a ser pela transfusão de plasma, utilizado para repor fatores de coagulação (VIII ou IX) e controlar hemorragias.

Em 1970, foram fabricados os primeiros concentrados de fatores liofilizados de coagulação, permitindo diminuir o volume das infusões e o risco de reações alérgicas. Em 1990, surgiu o fator de coagulação recombinante, desenvolvido em laboratório e não derivado de plasma, evitando possíveis contaminações e diminuindo a dependência de doação de sangue para sua produção.

Nas últimas duas décadas, os tratamentos evoluíram ainda mais. Em 2010, começaram a ser produzidos fatores de coagulação recombinantes de longa duração, fazendo com que alguns pacientes conseguissem reduzir a frequência de infusões.

Esses avanços revolucionaram o cuidado com a hemofilia. Antes, os pacientes tratavam a hemofilia sob demanda – ou seja, apenas quando ocorria um trauma ou sangramento espontâneo. Mas, principalmente a partir de 2011, quando a profilaxia primária (preventiva) foi oficializada no Brasil, os pacientes puderam ter acesso a tratamentos que diminuíram o número de sangramentos, melhorando a qualidade de vida. No entanto, ainda há desafios e a ciência caminha para solucioná-los.


O impacto do tratamento

Um levantamento realizado com especialistas em hemofilia de 13 estados brasileiros revelou que 90,8% dos pacientes com hemofilia A no Brasil precisam realizar três ou mais infusões semanais para prevenir sangramentos. Em relação a hemofilia B, 73,2% realizam duas e 21,1% três vezes por semana, totalizando 94,3% dos pacientes. Somando-se isso aos exames e ao acompanhamento médico que devem ser regularmente, a rotina do paciente pode se tornar exaustiva.

Essas infusões são parte das terapias profiláticas que estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). A profilaxia é o tratamento padrão para prevenir complicações da hemofilia, como os sangramentos, e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Ela é baseada na reposição do fator de coagulação e administrada por via intravenosa várias vezes por semana. Esse tratamento é eficaz e o Brasil é referência mundial por estar entre os poucos países que o oferecem de forma gratuita. No entanto, a rotina de infusões apresenta um desafio: segundo o levantamento, a frequência elevada de infusões e a via de aplicação intravenosa são as principais barreiras de adesão ao tratamento.


Campanha “6 Razões para Transformar”

Com um tratamento que exige uma rotina intensa de cuidados, a jornada do paciente de hemofilia e de seus cuidadores é desafiadora. Mas esse não é o único desafio da doença. Cada pessoa é única e tem dificuldades e necessidades diferentes. Pensando nisso, a Sanofi realizou a campanha “6 Razões para Transformar” com o propósito de entender as principais necessidades não atendidas da comunidade de hemofilia.

Como ponto de partida, a iniciativa conduziu um levantamento com pacientes, cuidadores e profissionais de saúde para identificar as seis razões para transformar o cuidado com a hemofilia no Brasil. Com 547 respondentes, as 6 razões escolhidas foram:

1.   Maior acesso a tratamentos inovadores (75%)

2.   Diagnóstico mais rápido e preciso (74%)

3.   Maior investimento em pesquisa (67%)

4.   Maior suporte para cuidadores e famílias (65%)

5.   Mais facilidade na aplicação dos medicamentos (62%)

6.   Educação médica contínua (60%)

Junto a outros atores, a Sanofi se compromete a endereçar essas necessidades não atendidas, buscando melhores políticas públicas para essas pessoas que hoje têm sua vida pautada pela doença e educando a população para diminuir a desinformação em relação à doença.


Qfitlia: uma inovação que leva mais autonomia aos pacientes.

Aprovado pela Anvisa em março de 2026, o Qfitlia (fitusirana sódica) é uma terapia de RNA de interferência para o tratamento de pacientes com hemofilia A e B, com ou sem inibidores. O tratamento é considerado inovador por promover o reequilíbrio homeostático, exigindo apenas seis infusões subcutâneas anuais, para a maioria dos pacientes. Portanto, ele contribui para a melhora na adesão ao tratamento, devido a sua via de administração e frequência de aplicações. Além disso, também contribui para a principal necessidade não atendida da comunidade, que é maior acesso a tratamentos inovadores, oferecendo proteção duradoura e maior autonomia aos pacientes.


Curiosidades


Você sabia que a hemofilia já foi considerada “doença da realeza”?

Evidências de uma doença hemorrágica semelhante à hemofilia datam do século II d.C., mas a primeira descrição científica moderna surgiu apenas em 1803, quando John Conrad Otto, médico americano, identificou um distúrbio hereditário que afetava principalmente homens e era passado por mulheres portadoras.

Ao longo do século XIX, a rainha Vitória, do Reino Unido, desempenhou um papel central na história da hemofilia, tendo provavelmente, e involuntariamente, repassado o gene da doença nas famílias reais europeias. Ela foi uma portadora da hemofilia – mais especificamente, sabe-se hoje que se tratava da hemofilia B, causada pela deficiência do fator IX – e passou o gene da doença para o filho Leopold, duque de Albany, que apresentava episódios frequentes de sangramento. Ele morreu aos 31 anos, provavelmente em decorrência de uma hemorragia cerebral após uma queda. Esse caso ajudou a consolidar o entendimento clínico da doença na época, ainda que os mecanismos biológicos não fossem totalmente conhecidos.

Além disso, duas de suas filhas, Alice e Beatrice, eram portadoras e passaram o gene da doença para outras casas reais da Europa por meio de casamentos dinásticos. O caso mais famoso dessa disseminação foi o do tsarevich Alexei, filho do czar Nicolau II da Rússia, que sofria de hemofilia grave.

Assim, a hemofilia ficou conhecida como a “doença da realeza”, uma vez que afetou diretamente linhagens reais e teve consequências não apenas médicas, mas também sociais e políticas. O estudo dessas famílias foi fundamental para compreender o padrão de herança genética da doença, especialmente o fato de ela ser ligada ao cromossomo X, o que explica por que afeta majoritariamente homens.


Você sabia que estudos em petúnias contribuíram para a evolução do tratamento da hemofilia

Em 1990, Richard Jorgensen, Cientista Botânico da Universidade do Arizona, lançou o conceito de “cossupressão” ao tentar intensificar a cor roxa das pétalas de petúnias e falhar, uma vez que a pétalas desabrocharam brancas. Em 1998, os cientistas americanos Andrew Fire e Craig Mello se aprofundaram no experimento e descobriram que moléculas de RNA podem “silenciar” genes e impedi-los de produzir proteínas, as moléculas responsáveis por colocar o organismo em funcionamento.

O mecanismo descrito pelos cientistas, batizado como RNA de interferência (RNAi), é hoje uma ferramenta de pesquisa fundamental para geneticistas e simboliza uma das evoluções científicas mais prolíficas, multifacetadas e de alto potencial da indústria farmacêutica – tanto que, em 2006, que ganhou o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. Esta é a tecnologia que é usada no Qfitlia (fitusirana sódica), tratamento inovador para hemofilia, aprovado na Anvisa em março de 2026.

 


Sanofi
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1              1 -     BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Manual de hemofilia.

2                 2 -  ed.,reimpr.-Brasília:2025. Disponível em https://bvms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_hemofilia_2ed.pdf. Acesso em 15 de abril de 2026. Sem D, Chapla A, Walter N, et al. J Thromb Haemost. 2013 Feb; 11(2):293-306

3    3 - Ministério da Saúde. Hemofilia e a luta diária para não se machucar. Disponível em : http://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/notícias/2024/abril/hemofilia-e-a-luta-diaria-para-nao-se-machucar. Acesso em 15 de abril de 2026.

4  4 - SANOFI. Hemofilia: uma jornada de conhecimento sobre sintomas e tratamentos.2022. Disponível em: https://www.sanoficonecta.com.br/campanha/entenda-hemofilia-.   Acesso em 15 de abril de 2026.

5       5 -Mannucci M.Haematologica 2020;105:545-53;2. Ozelo MC e Yamaguchi-Hayakawa GG.Res Pract Thromb Haemost 2022;6 e 12695;3 Keam SJ.Medicamentos 2023;83:1053-9;4. Thornburg CD, et al.BioDrugs 2023;37:595

6     6 -Oliveira, L.C1, et al.2025, Outubro. Esquemas de profilaxia em hemofilia A e B sem inibidores no Brasil baseado em um painel Delphi. Apresentação oral. HEMO 2025, São Paulo, Brasil.

7 7  7 - BRASIL .Ministério da Saúde. Tratamento de hemofilias é integral e gratuito no Sistema Único de Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/notícias/2023/janeiro/tratamento-de-hemofilias-e-integral-e-gratuíto-no-sistema-unico-de-saude. Acesso em 15 de abril de 2026.

8       8 - G Young. Safety and efficacy of a fitusiran antithorombin-based dose regimen in people with hemofilia A or B: the ATLAS-OLE study. Blood.2025 Jun 19;145(25):2966-2977.doi: 10.1182/blood.2024027008.

9       9 - Wolfgang, W.The hostory of haemophilia – a short review. Departament fot Transfusion Medicine and Haemostaseology, Ludwing Maximilian’s University Hospital, Ziemsenstrasse 1, 80338 Munich, Germany, 2014.

10  10 - Jorgensen RA,Doetsch N, Muller A, Que Q, Gendler K, Napoli CA. A  paragenetic perspective on integracion of RNA silencing into the epigenome and its role in the biology of higher plants. Cold Spring Harb Symp Quant Biol. 2006;71:481-5. Doi: 10.1101/sqb.2006.71.023. PMID: 17381330.


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