segunda-feira, 25 de maio de 2026

Endometriose: mulher leva 20 anos para receber diagnóstico e alerta para sintomas ignorados

Arquivo pessoal Kauane
Atraso pode agravar impactos da doença, que afeta uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva:

 

Durante anos, a administradora Kauane Faria Barros, hoje com 34 anos, ouviu a mesma resposta nos consultórios: era “normal”. O fluxo menstrual intenso, os episódios frequentes de anemia, o cansaço extremo e até a necessidade de trocar de roupa várias vezes ao dia foram tratados como parte de uma rotina feminina comum. Não eram.

A história começou ainda na adolescência, por volta dos 14 anos. Desde a primeira menstruação, os sinais como sangramento excessivo, presença de coágulos e impactos diretos na rotina escolar já existiam. “Eu levava uma muda de roupa na mochila. Já precisei sair por último da sala para não constranger ninguém”, lembra. Apesar dos sinais evidentes, exames de imagem não apontavam alterações, o que dificultava a investigação e adiava respostas.

A comparação com a irmã, dois anos mais nova, tornava tudo ainda mais confuso. Com sintomas diferentes, ela recebeu o diagnóstico de endometriose ainda na juventude. Kauane, não. “Eu tinha todos os sintomas clínicos, mas nada aparecia nos exames. Então, os médicos diziam que estava tudo bem.” Sem respostas, vieram as tentativas de tratamento padrão, como o uso contínuo de anticoncepcionais. No caso dela, sem sucesso. “Cheguei a ficar três meses menstruada direto. Não resolvia e ainda piorava minha qualidade de vida”, relata.

Ao longo dos anos, a falta de diagnóstico impactou não apenas a saúde física, mas também a vida social e profissional. Faltas no trabalho eram justificadas como enxaquecas. Convites eram recusados. “Eu simplesmente evitava sair nos primeiros dias do ciclo. Sabia que não ia dar conta.”

O sangramento severo causava anemia profunda, cansaço extremo e uma suposta "síndrome do intestino irritável" que, descobriu-se anos depois, eram focos da doença pressionando o sistema digestivo. Foi apenas na vida adulta, ao morar com o atual marido, que o alerta acendeu. "Ele me dizia: 'não é normal o quanto você sangra'. Ele via a toalha, a cama manchada e foi o primeiro a me incentivar a buscar novos médicos", conta.

A jornada, porém, foi frustrante. Cinco especialistas depois, a resposta era sempre a mesma. O cenário se tornou crítico quando o casal decidiu engravidar. Após um ano de tentativas frustradas e diagnósticos de ‘infertilidade sem causa’, uma indicação médica para uso de hormônios desnecessários fez surgir um tumor ovariano de quatro centímetros.

"Eu estava desesperada. Tinha um tumor e ninguém me dava respostas. Foi quando conheci uma ginecologista que salvou a minha vida e a minha sanidade". Diferentemente das abordagens anteriores, a médica decidiu investigar a fundo, mesmo diante de exames pouco conclusivos.

“Ela me disse, com segurança, que eu tinha endometriose. Foi a primeira vez que alguém me ouviu de verdade”, conta Kauane. Embora apresentasse sintomas típicos da doença, os exames de imagem identificaram apenas um foco mínimo, praticamente imperceptível, localizado entre o intestino e o reto. Como ela já passaria por uma cirurgia para retirada de um tumor benigno, a equipe médica decidiu aproveitar o procedimento para tratar também essa suspeita inicial de endometriose.

A real dimensão do problema, porém, só ficou evidente durante a operação. Ao iniciar a cirurgia, os médicos constataram que a doença estava muito mais avançada do que indicavam os exames, com múltiplos focos espalhados por órgãos como útero, intestino e reto. “O que parecia pequeno estava espalhado em vários órgãos: útero, intestino, reto. Era muito mais avançado do que qualquer exame mostrava.

A cirurgia retirou os focos da doença e reconstruiu a região afetada. O resultado foi imediato e transformador. “Eu nunca soube o que era menstruar sem sofrimento. Depois da cirurgia, tudo mudou. Nunca mais tive anemia, dores intensas ou problemas intestinais”, conta. Três meses após o procedimento, veio outra surpresa, a gravidez. “Foi exatamente como a médica disse. Eu nem acreditei.”



A doença invisível que vai muito além da cólica

A história de Kauane é retrato de um problema que ainda afeta uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), e pode levar anos para ser diagnosticada.

“O diagnóstico demora, em média, de cinco a 12 anos. Nesse período, muitas mulheres passam por vários especialistas e recebem respostas equivocadas”, afirma a ginecologista Georgia Fontes Cintra, Coordenadora do Núcleo de Ginecologia no Hospital Sírio-Libanês.A especialista explica que a endometriose pode comprometer diferentes sistemas do organismo, com repercussões que extrapolam a saúde ginecológica. Alguns estudos sugerem, ainda, associação com maior risco cardiovascular, como infarto e AVC. Já no campo imunológico, observa-se associação com doenças autoimunes, como o lúpus.

Alterações neurológicas também são descritas, especialmente na forma como o cérebro processa a dor, enquanto o sistema digestivo pode ser afetado por sintomas como distensão abdominal, constipação e náuseas. Na esfera mental, os impactos incluem maior predisposição à depressão, ansiedade e até comportamento autolesivo – prática de causar dano ao próprio corpo de forma intencional.

“A dor crônica, a inflamação e até alterações hormonais influenciam diretamente o cérebro. Em alguns casos, o risco de transtornos mentais pode ser até três vezes maior”, reforça a médica. Estima-se que entre 25% e 50% das mulheres com infertilidade tenham a doença, o que faz com que muitos diagnósticos ocorram durante a investigação para engravidar.

Sinais frequentemente subestimados, como fadiga intensa, distúrbios do sono, alterações intestinais e dor ao evacuar ou urinar durante a menstruação podem indicar endometriose – especialmente quando seguem um padrão cíclico. “Mesmo com exames normais, a condição não deve ser descartada. O olhar clínico é fundamental”, reforça a médica.

Os impactos vão além da saúde e atingem também, de forma silenciosa, a vida profissional. “A endometriose tem um impacto importante – e muitas vezes invisível – no trabalho”, afirma a especialista. Estudos mostram que a maior parte do custo da doença está na perda de produtividade. “Em alguns casos, a capacidade de trabalho pode cair quase pela metade.”

Embora avanços científicos apontem para uma doença complexa, ligada a fatores genéticos, imunológicos e inflamatórios, o principal desafio ainda é o diagnóstico precoce. “A gente precisa parar de normalizar a dor. Menstruação não deve incapacitar”, finaliza Georgia.

Hoje, com a qualidade de vida restabelecida, Kauane transforma a própria trajetória em um alerta para outras mulheres. “Não aceite que a dor é normal. Se algo está errado, procure outro médico, investigue. Eu demorei mais de 20 anos para ser ouvida.” E complementa: “Eu achava que viver daquele jeito era comum. Não é, e não precisa ser”, finaliza.
 



Hospital Sírio-Libanês
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