Atraso pode agravar impactos da doença,
que afeta uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva:
Arquivo pessoal Kauane
Durante anos, a administradora Kauane
Faria Barros, hoje com 34 anos, ouviu a mesma resposta nos consultórios: era
“normal”. O fluxo menstrual intenso, os episódios frequentes de anemia, o
cansaço extremo e até a necessidade de trocar de roupa várias vezes ao dia
foram tratados como parte de uma rotina feminina comum. Não eram.
A história começou ainda na adolescência, por volta
dos 14 anos. Desde a primeira menstruação, os sinais como sangramento
excessivo, presença de coágulos e impactos diretos na rotina escolar já
existiam. “Eu levava uma muda de roupa na mochila. Já precisei sair por último
da sala para não constranger ninguém”, lembra. Apesar dos sinais evidentes,
exames de imagem não apontavam alterações, o que dificultava a investigação e
adiava respostas.
A comparação com a irmã, dois anos mais nova, tornava
tudo ainda mais confuso. Com sintomas diferentes, ela recebeu o diagnóstico de
endometriose ainda na juventude. Kauane, não. “Eu tinha todos os sintomas
clínicos, mas nada aparecia nos exames. Então, os médicos diziam que estava
tudo bem.” Sem respostas, vieram as tentativas de tratamento padrão, como o uso
contínuo de anticoncepcionais. No caso dela, sem sucesso. “Cheguei a ficar três
meses menstruada direto. Não resolvia e ainda piorava minha qualidade de vida”,
relata.
Ao longo dos anos, a falta de diagnóstico impactou
não apenas a saúde física, mas também a vida social e profissional. Faltas no
trabalho eram justificadas como enxaquecas. Convites eram recusados. “Eu simplesmente
evitava sair nos primeiros dias do ciclo. Sabia que não ia dar conta.”
O sangramento severo causava anemia profunda, cansaço
extremo e uma suposta "síndrome do intestino irritável" que,
descobriu-se anos depois, eram focos da doença pressionando o sistema
digestivo. Foi apenas na vida adulta, ao morar com o atual marido, que o alerta
acendeu. "Ele me dizia: 'não é normal o quanto você sangra'. Ele via a
toalha, a cama manchada e foi o primeiro a me incentivar a buscar novos
médicos", conta.
A jornada, porém, foi frustrante. Cinco especialistas
depois, a resposta era sempre a mesma. O cenário se tornou crítico quando o
casal decidiu engravidar. Após um ano de tentativas frustradas e diagnósticos
de ‘infertilidade sem causa’, uma indicação médica para uso de hormônios
desnecessários fez surgir um tumor ovariano de quatro centímetros.
"Eu estava desesperada. Tinha um tumor e ninguém
me dava respostas. Foi quando conheci uma ginecologista que salvou a minha vida
e a minha sanidade". Diferentemente das abordagens anteriores, a médica
decidiu investigar a fundo, mesmo diante de exames pouco conclusivos.
“Ela me disse, com segurança, que eu tinha
endometriose. Foi a primeira vez que alguém me ouviu de verdade”, conta Kauane.
Embora apresentasse sintomas típicos da doença, os exames de imagem
identificaram apenas um foco mínimo, praticamente imperceptível, localizado
entre o intestino e o reto. Como ela já passaria por uma cirurgia para retirada
de um tumor benigno, a equipe médica decidiu aproveitar o procedimento para
tratar também essa suspeita inicial de endometriose.
A real dimensão do problema, porém, só ficou evidente
durante a operação. Ao iniciar a cirurgia, os médicos constataram que a doença
estava muito mais avançada do que indicavam os exames, com múltiplos focos
espalhados por órgãos como útero, intestino e reto. “O que parecia pequeno
estava espalhado em vários órgãos: útero, intestino, reto. Era muito mais
avançado do que qualquer exame mostrava.
A cirurgia retirou os focos da doença e reconstruiu a
região afetada. O resultado foi imediato e transformador. “Eu nunca soube o que
era menstruar sem sofrimento. Depois da cirurgia, tudo mudou. Nunca mais tive
anemia, dores intensas ou problemas intestinais”, conta. Três meses após o
procedimento, veio outra surpresa, a gravidez. “Foi exatamente como a médica
disse. Eu nem acreditei.”
A doença invisível que vai muito além da cólica
A história de Kauane é retrato de um problema que
ainda afeta uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva no mundo, segundo a
Organização Mundial de Saúde (OMS), e pode levar anos para ser diagnosticada.
“O diagnóstico demora, em média, de cinco a 12 anos.
Nesse período, muitas mulheres passam por vários especialistas e recebem
respostas equivocadas”, afirma a ginecologista Georgia Fontes Cintra,
Coordenadora do Núcleo de Ginecologia no Hospital Sírio-Libanês.A especialista
explica que a endometriose pode comprometer diferentes sistemas do organismo,
com repercussões que extrapolam a saúde ginecológica. Alguns estudos sugerem,
ainda, associação com maior risco cardiovascular, como infarto e AVC. Já no
campo imunológico, observa-se associação com doenças autoimunes, como o lúpus.
Alterações neurológicas também são descritas,
especialmente na forma como o cérebro processa a dor, enquanto o sistema
digestivo pode ser afetado por sintomas como distensão abdominal, constipação e
náuseas. Na esfera mental, os impactos incluem maior predisposição à depressão,
ansiedade e até comportamento autolesivo – prática de causar dano ao próprio
corpo de forma intencional.
“A dor crônica, a inflamação e até alterações
hormonais influenciam diretamente o cérebro. Em alguns casos, o risco de
transtornos mentais pode ser até três vezes maior”, reforça a médica. Estima-se
que entre 25% e 50% das mulheres com infertilidade tenham a doença, o que faz
com que muitos diagnósticos ocorram durante a investigação para engravidar.
Sinais frequentemente subestimados, como fadiga
intensa, distúrbios do sono, alterações intestinais e dor ao evacuar ou urinar
durante a menstruação podem indicar endometriose – especialmente quando seguem
um padrão cíclico. “Mesmo com exames normais, a condição não deve ser
descartada. O olhar clínico é fundamental”, reforça a médica.
Os impactos vão além da saúde e atingem também, de
forma silenciosa, a vida profissional. “A endometriose tem um impacto
importante – e muitas vezes invisível – no trabalho”, afirma a especialista.
Estudos mostram que a maior parte do custo da doença está na perda de
produtividade. “Em alguns casos, a capacidade de trabalho pode cair quase pela
metade.”
Embora avanços científicos apontem para uma doença
complexa, ligada a fatores genéticos, imunológicos e inflamatórios, o principal
desafio ainda é o diagnóstico precoce. “A gente precisa parar de normalizar a
dor. Menstruação não deve incapacitar”, finaliza Georgia.
Hoje, com a qualidade de vida restabelecida, Kauane
transforma a própria trajetória em um alerta para outras mulheres. “Não aceite
que a dor é normal. Se algo está errado, procure outro médico, investigue. Eu
demorei mais de 20 anos para ser ouvida.” E complementa: “Eu achava que viver
daquele jeito era comum. Não é, e não precisa ser”, finaliza.
Hospital Sírio-Libanês
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