Homens falam mais sobre fertilidade, emoções e equilíbrio hormonal
Durante décadas, questões relacionadas à testosterona, fertilidade masculina e saúde emocional permaneceram cercadas de silêncio. Sintomas como cansaço persistente, queda de libido, alterações de humor e dificuldades para ter filhos raramente entravam nas conversas entre amigos, nas consultas médicas ou dentro de casa.
Agora, especialistas observam uma mudança gradual: homens
de diferentes idades têm buscado mais informação, diagnóstico e tratamento,
abrindo espaço para um debate antes evitado.
O movimento acompanha transformações culturais mais amplas ligadas à saúde mental, ao envelhecimento e ao autocuidado masculino. Há um aumento na procura por avaliações hormonais, especialmente entre homens acima dos 40 anos, mas também entre pacientes mais jovens preocupados com fertilidade, qualidade do sono, estresse e desempenho físico.
Segundo a doutora em Engenharia Biomédica, cientista e farmacêutica Izabelle Gindri, o principal avanço está na disposição dos pacientes em falar sobre sintomas que antes eram vistos como sinal de fraqueza. “Por muito tempo, o homem foi educado para suportar desconfortos em silêncio. Hoje percebemos pacientes mais atentos ao próprio corpo e mais abertos para discutir libido, cansaço, ansiedade e fertilidade sem tanto constrangimento”, afirma a especialista em saúde hormonal, cofundadora e CEO da bio meds Brasil.
A DAEM (Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino) ou andropausa, termo popular usado para descrever a queda gradual dos níveis de testosterona associada ao envelhecimento, ainda gera debate entre especialistas. Diferentemente da menopausa feminina, ela não ocorre de maneira abrupta nem atinge todos os homens da mesma forma. Ainda assim, a redução hormonal pode provocar impactos importantes na qualidade de vida.
Entre os sintomas mais comuns estão fadiga, perda de massa muscular, dificuldade de concentração, irritabilidade e diminuição do desejo sexual. O desafio é diferenciar alterações hormonais reais de problemas relacionados ao estresse, sedentarismo, má alimentação e privação de sono.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a fertilidade masculina. Estudos recentes mostram queda progressiva na qualidade do sêmen em diferentes países, fenômeno associado a fatores ambientais, obesidade, tabagismo, consumo de álcool, exposição excessiva ao calor e rotinas de alta pressão emocional.
Muitos homens ainda chegam tardiamente aos consultórios por acreditarem que infertilidade é um problema predominantemente feminino.
“Quando um casal enfrenta dificuldade para engravidar, é fundamental investigar os dois lados. Hoje, sabemos que fatores masculinos podem representar a causa em até 30%, de modo isolado, ou até metade dos casos, quando associados a fatores femininos. O lado positivo é que a maioria dos cenários é tratável, mas ainda existe resistência em procurar avaliação, o que poderia tornar os tratamentos mais rápidos e efetivos, evitando anos de frustração do casal”, explica Edgar Sarmento, médico urologista.
"A testosterona não é uma fórmula mágica para disposição ou performance. Existe indicação clínica específica, baseada em exames e sintomas. O uso inadequado pode trazer consequências importantes, inclusive para a fertilidade”, completa a PhD. Izabelle Gindri.
Outro aspecto que ganha espaço é a relação entre
hormônios e saúde emocional. Ansiedade, depressão, exaustão profissional e
distúrbios do sono podem afetar diretamente o equilíbrio hormonal. Por isso,
especialistas defendem abordagens mais integradas, envolvendo atividade física,
alimentação, acompanhamento psicológico e hábitos saudáveis.
A quebra do tabu representa um avanço importante não apenas para a medicina, mas para as relações sociais. Ao falar mais sobre envelhecimento, vulnerabilidade e bem-estar, homens começam a construir uma relação mais preventiva e menos rígida com a própria saúde.
“O autocuidado deixou de ser visto como fragilidade.
Muitos homens hoje desejam envelhecer com qualidade, manter a energia,
preservar vínculos afetivos e viver melhor. Essa mudança cultural talvez seja o
aspecto mais positivo de todos”, conclui Gindri.
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