Empresas brasileiras operam sob pressão crescente
por eficiência, reputação e capacidade de resposta e, hoje, o desempenho
depende diretamente da qualidade das decisões tomadas diariamente pelas
equipes. Nesse cenário, a gestão de pessoas assume dimensão de variável
econômica, já que o desafio vai além da contratação de profissionais
qualificados e envolve a construção de ambientes capazes de sustentar
resultados no longo prazo.
Durante anos, processos seletivos priorizaram a
competência técnica como principal critério de escolha, o que permanece
indispensável. Essa lógica, porém, passou a considerar novos fatores, como a
cultura organizacional e o alinhamento de valores, cada vez mais decisivos na
escolha do local de trabalho. Segundo o estudo Workmonitor 2025,
da Randstad, 58% dos trabalhadores brasileiros apontam esse alinhamento como
relevante, acima da média global. Empresas que mantêm critérios exclusivamente
técnicos tendem a perder competitividade na atração e na retenção de talentos,
especialmente em um contexto em que profissionais avaliam com rigor a coerência
institucional.
O engajamento também exige atenção. Um levantamento
de 2025 da EAESP/FGV mostra que apenas 39% dos trabalhadores brasileiros se
declaram engajados — o menor índice da série histórica. Sem clareza de
propósito e coerência entre discurso e prática, o vínculo se fragiliza e a
produtividade cai.
Os impactos são concretos: rotatividade elevada
representa mais do que custos de recrutamento e treinamento, pois acarreta
perda de conhecimento acumulado, descontinuidade de projetos e maior tempo de
adaptação de novas equipes. De acordo com o levantamento State of
the Global Workplace 2025, da Gallup, a queda no engajamento global
em 2024 reduziu a produtividade em cerca de US$ 438 bilhões, enquanto a
elevação desses níveis poderia adicionar até US$ 9,6 trilhões à economia
mundial — o equivalente a cerca de 9% do PIB global. Esses números evidenciam a
relação direta entre ambiente interno, resultados financeiros e
competitividade.
Organizações que alinham cultura e estratégia
constroem equipes mais estáveis, reduzem a rotatividade e tomam decisões com
maior consistência. A competência técnica continua sendo um pilar essencial —
especialização, capacidade analítica e visão sistêmica são diferenciais
relevantes —, mas a sustentabilidade das equipes também depende de colaboração,
responsabilidade, adaptabilidade e compromisso ético, fatores que influenciam
diretamente a qualidade das entregas e a previsibilidade dos resultados.
A gestão de talentos consolidou-se como eixo
estratégico, na medida em que critérios de contratação, desenvolvimento e
reconhecimento indicam quais comportamentos são esperados e quais valores
orientam a organização. Quando esses critérios não dialogam com a estratégia, surgem
decisões fragmentadas e perda de foco. Cultura, nesse sentido, deixa de ser um
tema restrito à área de recursos humanos e passa a integrar a governança
corporativa.
Esse princípio deve orientar as escolhas
relacionadas a pessoas e liderança, garantindo coerência entre a missão
institucional e as práticas cotidianas. Mais do que discurso, trata-se de
traduzir valores em ações concretas, capazes de sustentar resultados e
preservar credibilidade em ambientes de alta exposição pública.
O futuro do trabalho é frequentemente discutido em
termos de evolução tecnológica e novos modelos contratuais. A tecnologia
continuará avançando, modelos de negócio seguirão mudando e novas métricas
surgirão. Mas nenhuma estratégia sobreviverá se as pessoas não acreditarem nela.
Ignorar o alinhamento cultural é tratar sintomas — rotatividade, queda de
produtividade, desalinhamento — sem enfrentar a causa estrutural. Organizações
sustentáveis são aquelas em que estratégia e cultura caminham juntas — e nas
quais cada decisão reforça, na prática, aquilo que a instituição declara como
valor.
No longo prazo, não são os ativos físicos nem os algoritmos que definem a competitividade, mas a capacidade de mobilizar pessoas em torno de um propósito claro. É essa coerência que sustenta os resultados e preserva a credibilidade.
Tânia Dias Santos - diretora de Pessoas e Cultura do Grupo Marista. Formada em Direito, possui especializações em Direito do Trabalho e Direito Ambiental e MBA em Gestão de Pessoas, com mais de 15 anos de experiência em desenvolvimento organizacional, comunicação interna e ESG.
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