quarta-feira, 22 de abril de 2026

Crédito consignado privado amplia endividamento e pressiona indicadores trabalhistas no setor têxtil e de confecção

 Levantamento da Abit aponta reflexos em absenteísmo, rotatividade e produtividade em um setor que já enfrenta escassez de mão de obra

 

Uma enquete realizada pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), entre os dias 30 de março e 8 de abril de 2026, com empresas de diferentes portes e regiões do País, evidencia os impactos do crédito consignado privado sobre os trabalhadores do setor. Os resultados indicam aumento relevante do endividamento dos colaboradores, com desdobramentos diretos sobre indicadores como absenteísmo, turnover e produtividade nas indústrias e confecções. 

De acordo com o levantamento, 76% das empresas observaram crescimento no nível de endividamento dos trabalhadores nos últimos 12 meses, sendo que, para a maior parte, esse aumento foi considerado significativo. O crédito consignado privado já está presente em 75% das empresas, sendo utilizado principalmente para substituição de dívidas mais elevadas ou para essa finalidade combinada com consumo adicional (45%). 

“O crédito consignado privado consolidou-se como um instrumento amplamente acessado pelos trabalhadores e, em sua essência, pode contribuir para a reorganização financeira ao substituir dívidas mais onerosas. No entanto, sua utilização crescente, sem o devido acompanhamento e orientação, tem gerado efeitos colaterais relevantes, especialmente no aumento do comprometimento da renda”, destaca Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit. 

Os impactos, porém, extrapolam a esfera financeira individual e se manifestam de maneira progressiva nas empresas. Cerca de 43% relataram aumento do absenteísmo associado a questões financeiras, enquanto 65% identificaram pedidos de desligamento com possível motivação econômica. Em muitos casos, a necessidade de quitar dívidas tem levado trabalhadores a solicitarem demissão, antecipando o acesso a recursos, o que intensifica a rotatividade.

Como consequência, 23% das empresas já percebem impacto direto das dificuldades financeiras no turnover. Esse é um fator crítico em um setor que já enfrenta desafios estruturais de contratação, com reflexos posteriores sobre a produtividade e a eficiência operacional. 

Outro dado relevante é que 47% das empresas reportaram situações críticas recorrentes envolvendo o consignado, como a contratação de múltiplos empréstimos e o elevado comprometimento da renda dos colaboradores. Apesar desse cenário, apenas 6% das empresas contam com programas estruturados e contínuos de educação financeira, enquanto 35% realizam ações pontuais. 

Na percepção dos empresários, o avanço do consignado privado acende um sinal de alerta: 72% consideram que essa modalidade de crédito tem se tornado um fator de risco para o superendividamento dos trabalhadores. 

“Estamos diante de uma ferramenta que tem mérito ao ampliar o acesso ao crédito em condições mais favoráveis, mas que, nas condições atuais, exige ajustes. Os dados mostram efeitos que vão além do endividamento, atingindo a dinâmica das empresas por meio da rotatividade e, em última instância, da produtividade. É fundamental avançar em educação financeira, estabelecer boas práticas de governança e promover acompanhamento mais próximo”, afirma Fernando Pimentel. 

“Mais do que isso, é oportuno evoluir para um modelo em que a tomada de crédito venha acompanhada de orientação estruturada em educação financeira. Essa agenda pode e deve ir além das empresas, tornando-se uma diretriz mais ampla no País, contribuindo para o uso consciente do crédito e para a redução de vulnerabilidades econômicas e sociais”, conclui. 

Os resultados reforçam a importância de ampliar iniciativas de educação financeira, incentivar políticas internas mais claras e responsáveis quanto ao uso do crédito consignado e estimular um debate mais amplo sobre mecanismos que conciliem o acesso a essa modalidade de empréstimo com sustentabilidade financeira, tanto para os trabalhadores quanto para as empresas.



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