A inteligência artificial (IA) já entrou no mercado de trabalho brasileiro.
Entrou nas empresas, nos escritórios, nas rotinas administrativas, no
atendimento, nas análises, nos relatórios e até em atividades que, até pouco
tempo atrás, pareciam protegidas pela formação universitária. O problema é que
o Brasil continua debatendo esse tema como quem comenta uma tendência futura,
quando na prática a mudança já começou.
Há um erro recorrente nessa discussão. Fala-se demais sobre máquinas
substituindo pessoas, como se esse fosse o centro da questão. Não é. O ponto
mais grave é outro: o país não está formando trabalhadores na velocidade
exigida por essa transformação. A tecnologia avançou. A qualificação, não.
A IA não elimina apenas funções simples e repetitivas. Ela também reduz tempo,
enxuga etapas, redistribui tarefas e muda o perfil de quem continua sendo
necessário dentro das organizações. Em muitos casos, o emprego não desaparece
por completo, mas passa a exigir competências que o trabalhador não teve oportunidade
de desenvolver. É aí que mora o risco real.
No Brasil, esse impacto tende a ser ainda mais duro porque ele encontra um
mercado de trabalho já marcado por fragilidades antigas: informalidade elevada,
baixa produtividade, desigualdade educacional e dificuldade histórica de
conectar ensino e necessidade econômica real. Em um país assim, toda grande
transformação tecnológica corre o risco de beneficiar poucos e deslocar muitos.
É claro que a inteligência artificial também pode gerar ganhos importantes.
Pode aumentar produtividade, melhorar serviços, reduzir desperdícios e abrir
espaço para novos negócios. Seria um erro enxergá-la apenas como ameaça. Mas
também seria ingenuidade tratá-la como solução automática. Tecnologia, sozinha,
não corrige atraso estrutural. Em alguns casos, ela apenas o escancara.
O debate sério, portanto, não deveria ser se a IA vai acabar com o trabalho.
Deveria ser como o Brasil pretende evitar que essa transição amplie ainda mais
a distância entre quem tem repertório para acompanhar a mudança e quem será
simplesmente empurrado para fora dela.
Sem política pública consistente, sem requalificação em escala e sem uma
discussão menos superficial sobre educação e produtividade, o país corre o
risco de repetir um velho padrão: consumir inovação produzida por outros sem
construir capacidade própria para transformar isso em desenvolvimento.
A inteligência artificial já chegou. O que ainda não chegou foi a resposta
brasileira à altura do problema.
Manoel Villas Boas Júnior - Coordenador do Curso de Ciência de Dados da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio
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