terça-feira, 7 de abril de 2026

Estudo brasileiro revela "gatilho" na progressão do Alzheimer

Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento demonstra que proteínas tóxicas só destroem a memória quando encontram o cérebro inflamado; achado muda a forma como a doença será tratada 


A recente descoberta feita por pesquisadores brasileiros abre o caminho para tratamentos mais assertivos do Alzheimer. O estudo, publicado na prestigiada revista
Nature Neuroscience, revela que o acúmulo da proteína beta-amiloide — tradicionalmente vista como a grande vilã da doença — não tem capacidade para destruir o cérebro sozinha. Para que a perda de memória ocorra, é necessário um “gatilho”: a ativação das células de defesa do cérebro - a microglia. Quando essas células estão ativadas, elas fazem com que outras células de suporte (astrócitos) assumam papéis inflamatórios, acelerando a progressão da doença. 

A pesquisa é um marco para a ciência brasileira por ser um estudo translacional — ou seja, aquele que leva o que foi descoberto no laboratório diretamente para o diagnóstico e cuidado do paciente no consultório. Utilizando tecnologias de ponta, como PET Scan* e análise ultrassensível de proteínas no sangue, os pesquisadores monitoraram mais de 300 pessoas e identificaram que, mesmo quem tem placas de beta-amiloide no cérebro, pode não desenvolver demência se o seu sistema de defesa estiver controlado. “Mostramos pela primeira vez, em humanos, que a comunicação desregulada entre as células de suporte e defesa do cérebro é determinante para o desenvolvimento da doença de Alzheimer”, comenta João Pedro Ferrari-Souza, primeiro autor do artigo e pesquisador da Unidade de Neurociência do Hospital Moinhos de Vento. 

Para Eduardo Zimmer, head de pesquisa do Hospital Moinhos de Vento e um autor correspondente do trabalho, o achado redefine como médicos e cientistas devem olhar para a doença: “Utilizando biomarcadores para entender o paciente de forma individual, os resultados nos mostraram que precisamos focar em terapias que sejam capazes de controlar a inflamação do cérebro, e não apenas na remoção das placas de beta-amiloide, para sermos realmente eficazes contra o Alzheimer", afirma. 

Traduzindo, essa “conversa errada” entre as células é o que faz surgir uma segunda proteína tóxica, a tau – associada a depósitos anormais no cérebro, que é a que de fato apaga as memórias. “Imagina que a inflamação funciona como uma ponte: ela conecta as proteínas tóxicas ao dano cerebral definitivo. Conseguir identificar esse processo por meio de exames de sangue e imagem nos permite antecipar o avanço da doença com muito mais precisão, agindo antes que as perdas sejam irreversíveis”, explica Wyllians Borelli, coordenador do Centro da Memória do Hospital Moinhos de Vento, que também participa do estudo. 

Ao mostrar que o controle da inflamação pode interromper a destruição da memória, esse estudo coloca, mais uma vez, o Brasil na vanguarda da medicina de precisão. A continuidade da pesquisa no Hospital Moinhos de Vento reforça a expertise da instituição em liderar estudos que não ficam apenas no papel, mas que se transformam em tratamentos personalizados para frear o Alzheimer em diferentes estágios, oferecendo uma nova perspectiva de futuro para pacientes e cuidadores.

 


Eduardo Zimmer - Referência mundial no estudo do Alzheimer, o farmacologista assume como Head de Pesquisa em Neurociência do Hospital Moinhos de Vento. Com uma trajetória de excelência apoiada pelo Instituto Serrapilheira e IDOR Ciência Pioneira, Eduardo Zimmer é reconhecido internacionalmente por suas contribuições à neurociência. Dentre as quais foi laureado com o prêmio “Blas Frangione Early Career Achievement”, a mais importante distinção global concedida pela Associação Americana de Alzheimer a pesquisadores em início de carreira, consolidando-se como uma das maiores autoridades do país no estudo da fisiopatologia das demências e recém-chegado ao time de especialistas do Hospital Moinhos de Vento.


*PET Scan: Tomografia por Emissão de Pósitrons é um exame de imagem avançado que avalia o funcionamento metabólico dos tecidos.

Hospital Moinhos de Vento
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