sábado, 25 de abril de 2026

Estamos transformando prevenção em dependência estética?

Cresce o uso precoce de botox entre jovens e especialista alerta para riscos de banalização

 

O avanço do uso da toxina botulínica entre pacientes cada vez mais jovens acende um alerta no meio médico. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) indicam que o procedimento já é o mais realizado entre pessoas de 18 a 30 anos, com crescimento de 300% nos últimos três anos. Impulsionada por redes sociais e padrões estéticos irreais, a chamada “prevenção” tem levado até adolescentes a buscarem aplicações sem indicação clínica, levantando questionamentos sobre os limites entre cuidado e excesso. 

Para a dermatologista Dra. Débora Cardial, da Clínica Terra Cardial, esse movimento revela uma mudança preocupante na relação com o envelhecimento. Segundo ela, há uma ansiedade estética precoce, em que jovens procuram o procedimento pela ideia de que é preciso começar cedo, o que distorce o conceito de prevenção. Do ponto de vista científico, embora a toxina atue na redução da contração muscular, fator ligado às rugas dinâmicas, não existe consenso sobre a idade ideal para início, e ainda faltam evidências de longo prazo sobre o uso precoce sem indicação adequada. 

A médica reforça que o botox é seguro e eficaz quando bem indicado e aplicado por profissionais qualificados, mas alerta que o uso indiscriminado pode gerar impactos que vão além da estética. “A naturalização dessas intervenções desde cedo pode alterar a forma como o indivíduo se enxerga, criando uma relação de dependência psicológica e insatisfação constante com a própria imagem. Além disso, aplicações frequentes ao longo dos anos podem trazer desafios clínicos, como a redução de resposta à toxina em alguns casos, especialmente quando realizada de forma inadequada”, destaca a dermatologista. 

Embora não haja comprovação científica de que o botox cause dependência, a repetição do procedimento costuma estar associada à satisfação com os resultados, o que pode reforçar sua continuidade. Estudos indicam que o uso prolongado pode contribuir para um envelhecimento mais lento da pele, e que a duração da toxina seja por volta de 4 meses. 

Nesse cenário, o debate não deve ser sobre condenar o procedimento, mas sobre seu uso responsável. “Mais do que buscar interromper o envelhecimento, o desafio está em equilibrar expectativa, necessidade e saúde, evitando que a prevenção se transforme, de forma silenciosa, em uma dependência estética precoce e em uma negação do envelhecimento natural”, conclui.



Clínica Terra Cardial


Dra. Márcia - médica formada pela Faculdade de Medicina do ABC, doutora em Tocoginecologia, professora associada e chefe do setor de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia, além de presidente da Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia (ABPTGIC).

Dr. Caetano - também graduado pela Faculdade de Medicina do ABC, é mestre em Ginecologia, cirurgião oncológico e mastologista, membro da Sociedade Brasileira de Mastologia e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica.

Dra. Débora Cardial - dermatologista formada pela Faculdade de Medicina do ABC, com residência em Clínica Médica e Dermatologia, título de especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, além de ser membro da Sociedade Europeia de Dermatologia e Venereologia e da Sociedade Brasileira de Laser.

 

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