Especialista
explica por que a doença não desaparece com o fim do ciclo menstrual e alerta
para dor crônica, subdiagnóstico e necessidade de acompanhamento contínuo
A ideia de que a endometriose desaparece com a
chegada da menopausa ainda circula entre pacientes e até em parte da população
médica, mas não reflete a realidade clínica de cerca de 3% das mulheres.
A condição, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora
do útero, pode persistir mesmo após o fim da menstruação e continuar provocando
dor intensa e limitações no dia a dia.
“Mesmo com a queda dos hormônios, a endometriose
não necessariamente desaparece. Existem casos em que as lesões permanecem
ativas e a dor continua impactando de forma significativa a vida da paciente”,
afirma Fabiane Berta, médica, pesquisadora e especialista em menopausa.
A redução do estrogênio durante a menopausa tende a
aliviar alguns sintomas, mas não elimina os focos já instalados no organismo.
Inflamações, aderências e tecidos comprometidos continuam presentes e podem
sustentar quadros de dor crônica. Em alguns casos, a doença permanece ativa
mesmo com baixos níveis hormonais, o que reforça seu caráter crônico e multifatorial.
A dor, inclusive, segue como um dos principais
desafios. Mulheres relatam desconfortos persistentes, muitas vezes
incapacitantes, que interferem em atividades simples, como caminhar, trabalhar
ou manter uma rotina regular. Além do impacto físico, há efeitos emocionais e
sociais associados à condição, que podem agravar quadros de ansiedade e reduzir
a qualidade de vida.
Outro ponto de atenção envolve os tratamentos
hormonais utilizados na menopausa. A terapia de reposição hormonal, indicada para
aliviar sintomas como ondas de calor e alterações de humor, pode, em alguns
casos, reativar focos de endometriose. “O tratamento precisa ser
individualizado. A reposição hormonal pode trazer benefícios, mas também exige
cautela em pacientes com histórico da doença”, explica Fabiane.
O diagnóstico também se torna mais desafiador nessa
fase da vida. Os sintomas de endometriose em mulheres na menopausa tendem a ser
subestimados ou confundidos com outras condições ginecológicas e intestinais.
Essa condição contribui para um cenário de subdiagnóstico e atraso no
tratamento. A falta de escuta qualificada e de investigação adequada amplia
esse cenário. “A dor na menopausa não deve ser naturalizada. Quando
persistente, precisa ser investigada com atenção. Existe um bloqueio importante
no olhar para essas pacientes, que muitas vezes ficam sem resposta ou
tratamento adequado”, diz a especialista.
A permanência da doença após a menopausa reforça a
necessidade de informação, diagnóstico preciso e escuta ativa dos profissionais.
Para especialistas, reconhecer que a endometriose não tem um “ponto final”
definido é essencial para garantir mais qualidade de vida às mulheres que
convivem com a condição.
“O entendimento da endometriose como uma condição
crônica, que pode atravessar diferentes fases da vida é fundamental para
ampliar o cuidado com a saúde feminina. O acompanhamento contínuo, aliado a uma
abordagem individualizada e multidisciplinar, é apontado como caminho para
reduzir sintomas e preservar o bem-estar das pacientes”, conclui Berta.
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