sábado, 18 de abril de 2026

Casos de ansiedade infantil aumentam e já atingem até 1 em cada 5 crianças

 Sintomas físicos e mudanças de comportamento deixam de ser vistos como “fase” e acendem alerta para saúde mental na infância; especialista explica como família e escola podem agir

 

Dor de barriga antes de uma prova, dificuldade para dormir, falta de apetite, irritação sem motivo aparente, idas frequentes ao banheiro ou o hábito de roer unhas. Durante muito tempo, esses sinais foram tratados como algo passageiro. Hoje, já se sabe que podem ser manifestações claras de ansiedade infantil.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo relatório do UNICEF, 1 em cada 7 crianças e adolescentes vive com algum transtorno mental diagnosticado, sendo ansiedade e depressão responsáveis por cerca de 40% dos casos. Após a pandemia, o cenário se intensificou. Um estudo publicado no JAMA Pediatrics apontou taxas de ansiedade chegando a 20% em crianças de países de alta renda.

Para Mariana Ruske, pedagoga e fundadora da Senses Montessori School, o ponto mais preocupante é que os impactos vão além do comportamento.
“A gente não está falando de uma fase difícil. O estresse crônico na infância pode alterar a estrutura do cérebro em formação. Sem suporte adequado, a criança passa a se organizar emocionalmente a partir do medo”, explica.

Pesquisas do Harvard Center on the Developing Child mostram que esse estresse prolongado afeta regiões como o hipocampo e a amígdala, ligadas à memória e à regulação emocional. Ou seja, não se trata apenas de um momento delicado, mas de algo que pode influenciar diretamente o desenvolvimento.

Na prática, o que mais protege a criança não é uma técnica isolada, mas o ambiente ao redor dela. “O que regula uma criança ansiosa é o adulto regulado ao lado dela. Não adianta pedir calma se o adulto também está no limite. A criança aprende no espelho emocional”, afirma Mariana.

Esse conceito, conhecido como corregulação, mostra que o cérebro infantil responde diretamente ao estado emocional dos adultos de referência.

Algumas atitudes simples fazem diferença no dia a dia. A primeira é validar o que a criança sente.“Quando o adulto nomeia a emoção, dizendo ‘eu vejo que você está com medo’, ele não reforça a ansiedade. Ele cria segurança. A criança se sente compreendida e não sozinha naquele sentimento”, explica.

Outro ponto importante é a previsibilidade da rotina. Para o cérebro ansioso, saber o que vem a seguir reduz a sensação de ameaça. “A criança precisa de ordem. Isso não significa rigidez, mas uma rotina minimamente previsível. E aqui entra um erro comum: agendas cheias demais. Criança não precisa de rotina de executivo”, diz.

Segundo ela, o tempo livre tem um papel essencial no desenvolvimento emocional.
“O ócio não é perda de tempo. É nesse espaço que a criança processa o que viveu, descansa o cérebro e cria. Tirar isso dela é tirar uma ferramenta importante de regulação.”

Por fim, há um ponto que costuma gerar desconforto em muitos pais: permitir que a criança enfrente desafios. “Resolver tudo para a criança pode parecer cuidado, mas enfraquece. Quando ela não vivencia o desconforto, não aprende que é capaz de lidar com ele. Aos poucos, passa a acreditar que não dá conta”, afirma.

Esse processo impacta diretamente a autoestima e a confiança ao longo do desenvolvimento. Aprender a errar, segundo a especialista, é uma das bases mais importantes da educação.

A integração entre escola e família também é fundamental nesse cenário. E, quando os sinais são frequentes ou intensos, buscar ajuda especializada faz toda a diferença.
“Pedir ajuda não é exagero, é cuidado. Quanto antes a criança for acolhida, maiores são as chances de um desenvolvimento emocional mais saudável”, finaliza Mariana.


Mariana Ruske - Pedagoga da Senses Montessori School


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