Especialista alerta que inflamações na gengiva podem evoluir para endocardite bacteriana e elevar riscos de infarto na vida adulta
O
Dia Internacional da Síndrome de Down celebrado em 21 de março passado, ganha um novo
alerta de saúde pública focado na conexão entre a boca e o coração. Um estudo
recente da Universidade de Copenhague aponta que a presença de gengivite grave
ainda na infância possui associação direta com a maior incidência de acidentes
vasculares cerebrais e infartos ao longo da vida. Para a população com a
síndrome, que já apresenta predisposição genética a alterações cardíacas, o
cuidado odontológico regular torna-se uma medida de sobrevivência.
O
principal risco enfrentado por esses pacientes é a endocardite bacteriana. Essa
condição ocorre quando as bactérias da cavidade oral conseguem acessar a
corrente sanguínea por meio de feridas na gengiva e se instalam nas válvulas do
coração. O dentista Cristiano Demartini, CEO da OdontoTop, explica que a boca
jamais deve ser vista de forma isolada do restante do organismo. Segundo o
especialista, uma inflamação gengival persistente cria o ambiente ideal para
que microrganismos alcancem outros sistemas vitais como o cardiovascular e o
respiratório.
“A
saúde bucal não pode ser vista de forma isolada. A boca é uma das principais
portas de entrada para microrganismos no organismo. Quando há inflamação
gengival persistente, cria-se um ambiente favorável para que bactérias alcancem
a corrente sanguínea e impactem outros sistemas, como o cardiovascular e o
respiratório. Em pacientes mais vulneráveis, isso significa complicações mais
delicadas. Prevenir a doença periodontal é uma estratégia de proteção
sistêmica”, ressalta Dr. Demartini.
A
Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down estima que o Brasil
reúna cerca de 300 mil pessoas com a condição. Além das questões cardíacas, as
particularidades genéticas trazem desafios práticos para a higiene diária. A
macroglossia, que se caracteriza pelo tamanho maior da língua, dificulta a
limpeza dos dentes e favorece o surgimento de cáries e problemas respiratórios.
Somam-se a isso as dificuldades sensoriais e o medo do consultório, fatores que
muitas vezes afastam as famílias do acompanhamento preventivo.
A
abordagem humanizada aparece como a principal ferramenta para reverter esse
cenário e garantir a segurança do paciente. Dr. Cristiano Demartini ressalta
que o ambiente clínico precisa estar preparado para acolher hipersensibilidades
sensoriais com profissionais capacitados e tempo de consulta estendido. Ele
destaca ainda que muitas pessoas com a síndrome enfrentam dificuldades para
comunicar dores ou desconfortos bucais, o que costuma atrasar o diagnóstico de
quadros inflamatórios silenciosos.
O
caminho para a prevenção sistêmica passa pela participação ativa dos responsáveis
e pelo estímulo à autonomia do paciente. Quando a família e o dentista
trabalham em conjunto, é possível identificar problemas precocemente e evitar
que uma simples inflamação bucal se transforme em uma complicação hospitalar
delicada. A conscientização sobre esses riscos é o primeiro passo para garantir
que o cuidado com o sorriso seja também um cuidado com a longevidade do
coração.
“Em
alguns casos, a pessoa com Síndrome de Down pode ter dificuldade para comunicar
que está sentindo dor ou desconforto na região bucal, o que pode atrasar o
diagnóstico de problemas que começam de forma silenciosa. Não é raro recebermos
pacientes já com quadros inflamatórios bucais avançados justamente por essa
dificuldade de percepção ou comunicação. O caminho que seguimos é avaliar as
possibilidades de cada paciente para estimular a autonomia na higiene oral. A
partir dela, o paciente já adquire maior conhecimento das próprias dores e
podemos ter um diagnóstico antecipado”, conclui Dr. Cristiano Demartini.

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