segunda-feira, 23 de março de 2026

Saúde bucal previne complicações cardíacas graves em pessoas com Síndrome de Down

Especialista alerta que inflamações na gengiva podem evoluir para endocardite bacteriana e elevar riscos de infarto na vida adulta  

 

O Dia Internacional da Síndrome de Down celebrado em 21 de março passado, ganha um novo alerta de saúde pública focado na conexão entre a boca e o coração. Um estudo recente da Universidade de Copenhague aponta que a presença de gengivite grave ainda na infância possui associação direta com a maior incidência de acidentes vasculares cerebrais e infartos ao longo da vida. Para a população com a síndrome, que já apresenta predisposição genética a alterações cardíacas, o cuidado odontológico regular torna-se uma medida de sobrevivência. 

O principal risco enfrentado por esses pacientes é a endocardite bacteriana. Essa condição ocorre quando as bactérias da cavidade oral conseguem acessar a corrente sanguínea por meio de feridas na gengiva e se instalam nas válvulas do coração. O dentista Cristiano Demartini, CEO da OdontoTop, explica que a boca jamais deve ser vista de forma isolada do restante do organismo. Segundo o especialista, uma inflamação gengival persistente cria o ambiente ideal para que microrganismos alcancem outros sistemas vitais como o cardiovascular e o respiratório. 

“A saúde bucal não pode ser vista de forma isolada. A boca é uma das principais portas de entrada para microrganismos no organismo. Quando há inflamação gengival persistente, cria-se um ambiente favorável para que bactérias alcancem a corrente sanguínea e impactem outros sistemas, como o cardiovascular e o respiratório. Em pacientes mais vulneráveis, isso significa complicações mais delicadas. Prevenir a doença periodontal é uma estratégia de proteção sistêmica”, ressalta Dr. Demartini. 

A Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down estima que o Brasil reúna cerca de 300 mil pessoas com a condição. Além das questões cardíacas, as particularidades genéticas trazem desafios práticos para a higiene diária. A macroglossia, que se caracteriza pelo tamanho maior da língua, dificulta a limpeza dos dentes e favorece o surgimento de cáries e problemas respiratórios. Somam-se a isso as dificuldades sensoriais e o medo do consultório, fatores que muitas vezes afastam as famílias do acompanhamento preventivo. 

A abordagem humanizada aparece como a principal ferramenta para reverter esse cenário e garantir a segurança do paciente. Dr. Cristiano Demartini ressalta que o ambiente clínico precisa estar preparado para acolher hipersensibilidades sensoriais com profissionais capacitados e tempo de consulta estendido. Ele destaca ainda que muitas pessoas com a síndrome enfrentam dificuldades para comunicar dores ou desconfortos bucais, o que costuma atrasar o diagnóstico de quadros inflamatórios silenciosos. 

O caminho para a prevenção sistêmica passa pela participação ativa dos responsáveis e pelo estímulo à autonomia do paciente. Quando a família e o dentista trabalham em conjunto, é possível identificar problemas precocemente e evitar que uma simples inflamação bucal se transforme em uma complicação hospitalar delicada. A conscientização sobre esses riscos é o primeiro passo para garantir que o cuidado com o sorriso seja também um cuidado com a longevidade do coração. 

“Em alguns casos, a pessoa com Síndrome de Down pode ter dificuldade para comunicar que está sentindo dor ou desconforto na região bucal, o que pode atrasar o diagnóstico de problemas que começam de forma silenciosa. Não é raro recebermos pacientes já com quadros inflamatórios bucais avançados justamente por essa dificuldade de percepção ou comunicação. O caminho que seguimos é avaliar as possibilidades de cada paciente para estimular a autonomia na higiene oral. A partir dela, o paciente já adquire maior conhecimento das próprias dores e podemos ter um diagnóstico antecipado”, conclui Dr. Cristiano Demartini.

 

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