Em muitas empresas, existe uma conversa paralela que pesa mais do que a pauta
da reunião e ela se trata sobre como uma mulher falou. Antes mesmo de o argumento
ser analisado, avalia-se o “tom”, se foi firme demais, se foi emocional demais,
se “passou do ponto”. O efeito é sutil, mas profundo e a liderança feminina
passa a ser medida por um conjunto de expectativas contraditórias.
Defendo
que esse policiamento do “tom” não é um detalhe de etiqueta corporativa. Ele é,
na verdade, um mecanismo de poder que restringe quem pode ocupar autoridade com
naturalidade. E é por isso que a assertividade feminina costuma ser confundida
com agressividade, por que a emoção vira atalho para questionar
competência.
Não
é “sensibilidade” individual nem um mal-entendido pontual. É um viés cultural
que atravessa a forma como avaliamos competência. Em muitas empresas, ainda se
espera que a fala feminina seja mais doce, acolhedora e musicalizada. Ao mesmo
tempo, o estilo considerado “profissional” e “assertivo” continua associado ao
modelo masculino de autoridade. O resultado é uma régua desigual, pois o mesmo
comportamento é lido de maneiras opostas dependendo de quem fala.
Eu
chamo de “mito do tom certo” a expectativa de que a mulher lidere sem jamais
soar incisiva, como se firmeza e educação fossem incompatíveis quando vêm de
uma voz feminina. Na prática, basta um “vamos decidir hoje” ou um “isso não faz
sentido” para surgir o comentário paralelo: “Calma, não precisa ser agressiva”.
O recado é claro: para ser ouvida, ela precisa se policiar; para ser
respeitada, precisa não incomodar.
Outro
capítulo desse viés aparece quando a emoção entra na sala. Um homem que se
emociona pode ser visto como “humano”, “verdadeiro”, “liderando com
vulnerabilidade”. Já uma mulher que demonstra emoção corre o risco de virar
pauta: “Será que aguenta pressão?”. O problema não é a emoção, é a autorização
social para senti-la sem ser punida. E essa punição costuma vir justamente onde
dói, em avaliações subjetivas, promoções e espaço de decisão.
Diante
disso, não surpreende que muitas profissionais tentem “masculinizar” a
presença: engrossam a voz, endurecem gestos, adotam uma fala mais seca. Eu
entendo a estratégia de sobrevivência, mas ela cobra caro, porque transforma a
liderança em performance constante. Alguns dirão que “o problema é comunicação”
e que basta a mulher “aprender a se colocar”. Eu discordo. A comunicação é
parte do caminho, mas o centro do problema é o filtro com que a audiência
interpreta a fala feminina.
Minha
posição é simples: não adianta pedir que mulheres “ajustem o tom” se a
organização continua premiando um único estilo de autoridade. É preciso mexer
no sistema de avaliação e no jeito como o feedback é dado porque, do contrário,
a comunicação vira mais uma camada de exigência sobre quem já está tentando
provar competência o tempo todo.
Também
defendo que treinamentos de comunicação sejam usados com um objetivo claro, o
de dar repertório para que mulheres não precisem escolher entre ser respeitadas
e ser “agradáveis”. Uma ferramenta simples é devolver o rótulo em forma de
pergunta: “o que exatamente eu fiz que soou agressivo?”. Isso obriga o outro a
sair do julgamento e entrar no campo do observável.
Há,
ainda, um ponto que quase não entra na conversa: diversidade também é
diversidade de linguagem. Existem muitos jeitos de falar, discordar, argumentar
e liderar entre mulheres e entre homens. Quando o ambiente corporativo espera
que toda líder feminina soe igual, ele não está “padronizando”, está
estreitando a ideia do que é competência.
No fim, essa discussão não é sobre técnica vocal nem sobre “etiqueta” de reunião. É sobre poder. Quem pode ser direto, quem pode se emocionar, quem pode discordar sem ter a reputação corroída. Se empresas querem mesmo reter e promover mulheres, precisam parar de vigiar o “tom” e começar a vigiar seus próprios critérios. A pergunta que vale é: estamos avaliando resultados ou apenas punindo quem não se parece com o modelo antigo de autoridade?
Juliana Algodoal - Considerada uma das maiores especialistas em Comunicação Corporativa do país, Juliana Algodoal é PhD em Análise do Discurso em Situação de Trabalho – Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem e fonoaudióloga pela PUC/SP e fundadora da empresa Linguagem Direta. Ao longo de 37 anos de carreira, Juliana já apoiou quase 11 mil profissionais tendo como foco nos últimos seis anos a alta liderança. Com o desenvolvimento de projetos que buscam aprimorar a interlocução no ambiente empresarial, já atuou para a BASF, Porto Seguro, Novartis, Pfizer, Aché, Itaú, Citibank, Unimed Nacional, Samsung, dentre outras. É coautora do livro Thought Leadership: muito além da influência e membro do conselho de administração da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, que também já presidiu.
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