“Mais mulheres empreendendo significa mais diversidade de ideias, maior resiliência econômica e mais dinamismo para as economias locais”
O Dia Internacional da Mulher é
um momento de reflexão sobre conquistas, mas também de olhar atento para os
desafios que ainda persistem. No universo do empreendedorismo, as mulheres
brasileiras têm demonstrado força, criatividade e capacidade de transformação,
impulsionando negócios, gerando renda e contribuindo de forma decisiva para a
economia do país.
Hoje, mais de 10 milhões de
mulheres estão à frente de negócios no Brasil. Esse recorde expressa tanto a
resiliência quanto a iniciativa feminina diante de um mercado em constante
transformação.
Apesar desse aumento em
participação, o cenário revela fragilidades estruturais que podem limitar a
sustentabilidade e o crescimento desses empreendimentos. Em termos de
representatividade, as mulheres correspondem a cerca de 34% dos empreendedores,
sinalizando progresso, mas também evidenciando que ainda existem barreiras
relevantes para a plena igualdade de gênero na economia.
Um dos maiores desafios que
nossas empreendedoras enfrentam é o acesso ao crédito. Estudos apontam que
apenas uma parcela reduzida dos recursos destinados a pequenos negócios, cerca
de 25%, chega às mulheres, enquanto muitas linhas de financiamento beneficiam
majoritariamente os empreendimentos masculinos. Essa diferença significa menos
capital para investimentos, estoque e profissionalização das empresas lideradas
por mulheres.
Outro obstáculo são as taxas de
juros mais altas cobradas das empreendedoras. Pesquisas indicam que
empresárias, especialmente as microempreendedoras, chegam a pagar taxas médias
efetivas superiores às dos homens, reduzindo ainda mais a viabilidade
financeira de expansão dos seus negócios. Essa diferença agrava desigualdades
já existentes e aumenta o risco de endividamento e fechamento prematuro.
Também é preciso considerar a
realidade da jornada feminina. Muitas mulheres acumulam uma dupla ou tripla
jornada que envolve administrar o negócio, cuidar da casa e também da família.
Essa sobrecarga limita o tempo dedicado à gestão estratégica, à capacitação, ao
networking e à busca por novos mercados. Estudos apontam altos índices de
sobrecarga entre empreendedoras, com impactos diretos na produtividade, na
capacidade de inovação e no crescimento dos negócios.
As desigualdades raciais também
atravessam esse ecossistema. Negócios de propriedade de mulheres negras tendem
a ser menores, com menor formalização e menor renda média, o que evidencia a
necessidade de políticas específicas de inclusão e fomento capazes de reduzir
essa assimetria territorial e racial.
Para os próximos anos, é
fundamental consolidar os ganhos de participação feminina e reduzir as
vulnerabilidades que limitam a qualidade desse avanço.
Fortalecer o empreendedorismo
feminino exige ampliar o acesso das mulheres ao crédito em condições mais
justas e compatíveis com a realidade das micro e pequenas empresárias. Isso
passa pela criação e expansão de instrumentos financeiros com juros mais
acessíveis, garantias adequadas e programas específicos voltados às mulheres
empreendedoras, especialmente às microempreendedoras individuais e às mulheres
negras, que ainda enfrentam barreiras adicionais para acessar capital e
investir no crescimento de seus negócios.
Outro eixo essencial é a
ampliação de programas de capacitação, consultorias e redes de mentoria que
apoiem o desenvolvimento empresarial feminino. A digitalização desses serviços
e a oferta em formatos mais flexíveis tornam essas iniciativas mais acessíveis
a mulheres que conciliam múltiplas responsabilidades e que, muitas vezes, têm
menos tempo disponível para investir em qualificação e planejamento
estratégico.
Também é fundamental ampliar a
participação de empresas lideradas por mulheres nas cadeias produtivas e nas compras
públicas. Políticas de incentivo e mecanismos que estimulem governos e grandes
empresas a contratar mais produtos e serviços de empreendedoras contribuem para
gerar escala, estabilidade e novas oportunidades de crescimento para esses
negócios, fortalecendo um ecossistema mais inclusivo e dinâmico para a economia
brasileira.
O Brasil vive um momento
promissor para o protagonismo feminino no empreendedorismo. Mais mulheres
empreendendo significa mais diversidade de ideias, maior resiliência econômica
e mais dinamismo para as economias locais.
Neste Dia Internacional da
Mulher, celebrar esse avanço é essencial. Mas é igualmente necessário
reconhecer que o fortalecimento do empreendedorismo feminino depende de ações
estruturais capazes de garantir igualdade de oportunidades. Transformar
presença em protagonismo econômico é um passo fundamental para o
desenvolvimento sustentável do país.
Ana Claudia Badra Cotait - Presidente do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) Nacional da CACB e dos CMECs da ACSP e da Facesp

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