Obesidade e diabetes tipo 2 crescem no Brasil, mostra pesquisa
Sociedade Brasileira de Diabetes analisa dados do
Vigitel 2025, do Ministério da Saúde, e diz que obesidade aumentou 118% no país
desde 2006; diabetes tipo 2 cresceu 135% no mesmo período
O diabetes tipo 2
e a obesidade são dois dos principais desafios de saúde pública global.
Consideradas doenças crônicas não transmissíveis, ambas compartilham fatores de
risco, mecanismos fisiológicos e determinantes sociais, formando uma “dupla
epidemia” que cresce de forma acelerada no mundo e no Brasil.
“Os últimos dados
do levantamento Vigitel 2025, divulgado pelo Ministério da Saúde, mostram que,
desde que essa pesquisa começou a ser feita, em 2006, até a última coleta de
dados, em 2024, houve um aumento de 118% na prevalência de obesidade”, afirma
dra. Cintia Cercato, coordenadora do departamento de Obesidade e Síndrome
Metabólica da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Isso significa que
60% da população brasileira apresenta excesso de peso, o que acaba impactando também
o número de pessoas que convivem com o diabetes tipo 2, uma vez que a obesidade
está extremamente relacionada com o desenvolvimento da doença. “Os dados do
Vigitel mostram que, entre 2006 e 2024, houve um aumento de 5,5% para 12,9% nos
casos de pessoas com diabetes, o que representou um crescimento de 135% ao
longo desses 18 anos”, esclarece dra. Cintia. “São números que impressionam
porque, se a gente pensar na população brasileira como um todo, estamos falando
que cerca de 19,9 milhões de adultos hoje convivem com o diabetes.”
Com isso, Brasil
está entre os países que têm a maior prevalência de diabetes tipo 2. De acordo
com o IDF – Federação Internacional de Diabetes, o Brasil ocupa a 6ª posição no
ranking mundial.
Já está mais do
que comprovado que a obesidade é um dos principais fatores de risco para o
diabetes tipo 2. O acúmulo de gordura corporal, especialmente na região
abdominal, altera o metabolismo da glicose e leva à resistência à insulina —
mecanismo central para o desenvolvimento da doença. A obesidade vem crescendo
em todo o mundo, e o mesmo ocorre com o diabetes tipo 2: atualmente são cerca
de 589 milhões de pessoas com a doença no mundo, o equivalente a uma em cada
nove.
Esse cenário
brasileiro traz implicações muito importantes para o sistema de saúde
brasileiro, uma vez que a combinação de obesidade e diabetes acaba acarretando
um aumento do risco cardiovascular, vascular e doença renal crônica, além das
complicações crônicas do diabetes, como as neuropatias, que levam às amputações,
e a cegueira. “Por isso a Sociedade Brasileira de diabetes considera
extremamente importante discutir a obesidade como uma doença crônica que pode
trazer uma série de consequências, incluindo o diabetes do tipo 2”, explica
dra. Cintia. “Políticas públicas para prevenir a obesidade são muito
importantes”, alerta. Ela defende a inclusão, no sistema público, da promoção
de dietas saudáveis e aumento de atividade física. “Também é preciso
desenvolver linhas de cuidado para obesidade para as pessoas que já têm a
doença”, diz. “Os diversos setores da sociedade devem trabalhar juntos para
reduzir o crescimento dessas condições crônicas na nossa população.”
Estigma e
acolhimento
A psicóloga
Priscila Pacoli, do Departamento de Psicologia da Sociedade Brasileira de
Diabetes, concorda que o tratamento da obesidade merece atenção, inclusive dos
próprios profissionais da saúde. “Existe um estigma contra a obesidade que não
é apenas um sentimento ruim, ele acaba sendo uma barreira clínica, pois as
pessoas relutam em buscar ajuda médica”, explica. “Com medo do preconceito e do
julgamento, as pessoas decidem esperar estar com peso melhor ou conseguir
incluir uma rotina de exercício antes de ir ao médico”, lembra.
De acordo com a psicóloga, esse medo do julgamento afasta as pessoas do tratamento, o que causa mais complicações. “Por isso nós, profissionais de saúde, precisamos combater o aumento da obesidade, do diabetes tipo 2 e, para isso, o primeiro passo é a gente transformar os nossos consultórios em zonas livres de estigma”, explica. “Para colocar isso na prática, precisamos entender que a obesidade e o diabetes são condições de saúde extremamente complexas, influenciadas por genética, ambiente, biologia e não são falhas de caráter ou uma falta de força de vontade, como muitos costumam dizer.”
Ela também sugere uma mudança na linguagem, como parar de rotular a pessoa pela doença. “Então ela não é obesa, ela é uma pessoa que convive com obesidade. Assim como não é diabético, é pessoa que convive com diabetes.” “Com esse tratamento mais humano, sem julgamento, o paciente deixa de se esconder e assume seu próprio cuidado, seu próprio tratamento.”
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