Durante décadas, muitas mulheres foram definidas como “sensíveis demais”, “intensas”, “perfeccionistas” ou “tímidas”. Poucas ouviram a palavra que poderia explicar suas vivências desde a infância: autismo.
O diagnóstico tardio de TEA em mulheres adultas não é exceção: é regra. Na prática clínica, segundo o neurologista Dr. Matheus Trilico, neurologista referência em TEA e TDAH em adultos, é comum atender mulheres que passaram 30, 40 ou até 50 anos tentando se encaixar.
“Elas aprendem a observar, copiar, ensaiar
interações sociais. Desenvolvem estratégias sofisticadas para mascarar
dificuldades. Mas o custo emocional é altíssimo”, explica o médico.
O Fenótipo Feminino: quando o autismo não parece “autismo”
Os critérios diagnósticos clássicos foram
estruturados com base majoritária em estudos com meninos. O que isso significa?
Que muitas mulheres ficaram invisíveis.
O chamado fenótipo feminino do
autismo costuma envolver:
- Maior
capacidade de camuflagem social
- Interesses
intensos, porém socialmente aceitos
- Tendência
à internalização do sofrimento
- Altos
níveis de autocrítica
- Histórico frequente de ansiedade e depressão
Essa habilidade de “performar socialmente” faz com
que muitas só recebam diagnóstico após crises de exaustão, burnout, colapsos
emocionais ou rupturas importantes na vida.
Saúde feminina e ciclos hormonais: um ponto-chave
A relação entre autismo e saúde da mulher ainda é pouco discutida. Puberdade, gestação, pós-parto e climatério podem intensificar questões sensoriais, desregulação emocional e sobrecarga mental. Alterações hormonais muitas vezes amplificam características que sempre estiveram ali apenas não nomeadas.
Não é raro que o diagnóstico surja durante o climatério ou após anos de tratamentos para depressão, transtornos alimentares ou ansiedade, quando, na verdade, o TEA sempre esteve na base do sofrimento.
“O diagnóstico tardio significa décadas de
intervenções que tratam sintomas, mas não a raiz da questão. Quando a mulher
entende que é neurodivergente, há uma mudança profunda: sai a culpa, entra o
autoconhecimento”, reforça Dr. Matheus Trilico.
Representatividade importa sim
A visibilidade também tem papel transformador. No Brasil, a atriz Letícia Sabatella compartilhou seu diagnóstico na vida adulta, ampliando o debate nacional. Internacionalmente, nomes como Greta Thunberg e Alexis Wineman mostram que mulheres no espectro ocupam espaços de liderança, arte, ciência e ativismo. Elas não representam exceções. Representam possibilidades. Mais do que diagnóstico: validação.
Receber o diagnóstico na vida adulta não apaga o
passado, mas reorganiza a narrativa. Muitas mulheres relatam sensação de
libertação ao compreender que nunca foram “difíceis demais”, e sim diferentes
em um mundo pouco adaptado à diversidade neurológica.
Para Dr. Matheus Trilico, o avanço passa por três pilares fundamentais:
- Atualização
dos critérios diagnósticos com olhar sensível ao gênero
- Capacitação
de profissionais de saúde para reconhecer o fenótipo feminino
- Ampliação do acesso ao diagnóstico em todas as regiões do país
No Mês da Mulher e em todos os meses falar sobre autismo é falar sobre saúde feminina integral. É reconhecer que autocuidado também envolve autoconhecimento.
“É permitir que mais mulheres se enxerguem, busquem apoio e construam trajetórias com menos culpa e mais pertencimento. Porque quando uma mulher entende sua neurodivergência, ela não descobre uma limitação e sim descobre uma nova forma de existir no mundo, com dignidade, autonomia e verdade” finaliza o neurologista.
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - CRM 35805PR, RQE 24818 – neurologista. - Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); - Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); - Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR - Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista
Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/
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