A violência contra a mulher raramente começa onde a sociedade imagina que ela começa. Antes do feminicídio que choca, do estupro que mobiliza manchetes ou da agressão que finalmente se torna pública, existe um campo silencioso de permissões sociais: o assédio banalizado nas ruas, a ridicularização em ambientes sociais, a exposição do corpo feminino como troféu entre amigos, a lógica de grupo que transforma a intimidade da mulher em instrumento de afirmação masculina.
Essas práticas não são apenas comportamentos isolados. Elas compõem um repertório cultural que associa virilidade à dominação e à capacidade de exercer poder sobre o corpo feminino. Nesse imaginário, a violência não aparece necessariamente como desvio; muitas vezes surge como demonstração de força, conquista ou pertencimento.
Esse modelo de masculinidade não produz apenas danos às mulheres.
Ele também aprisiona os próprios homens em um padrão de virilidade que valoriza
a agressividade, a competição sexual e a necessidade constante de validação
entre pares. É nesse ambiente simbólico que determinadas formas de violência
deixam de parecer inconcebíveis.
Talvez a sua mãe, a sua irmã ou uma amiga próxima nunca tenha lhe contado. Muitas mulheres não contam. Ainda assim, os dados revelam uma realidade contundente: no Brasil, aproximadamente uma em cada três mulheres já sofreu violência física, sexual ou psicológica ao longo da vida. Pesquisas nacionais indicam também que mais da metade das mulheres brasileiras já vivenciou algum tipo de assédio ou abuso sexual, frequentemente ainda na adolescência. Esses números dizem respeito apenas às formas mais visíveis de violência, e ainda assim, permanecem profundamente subnotificados.
Quando se amplia o olhar para outras dimensões, o cenário se torna ainda mais complexo. A violência patrimonial e econômica, por exemplo, permanece amplamente invisibilizada, embora seja um dos mecanismos que sustentam a permanência de mulheres em relações abusivas. A desigualdade salarial, a dependência financeira e a desvalorização estrutural do trabalho feminino operam como engrenagens silenciosas de manutenção desse ciclo.
Sob a perspectiva das ciências sociais e do Direito, essa realidade revela algo essencial: a violência contra a mulher não pode ser compreendida apenas como uma sucessão de episódios individuais. Ela constitui um risco social estruturante, que atravessa relações familiares, econômicas e culturais.
Talvez seja justamente isso que torna o problema mais inquietante. Para muitas mulheres, a questão não é se a violência fará parte de sua trajetória de vida. A pergunta , muitas vezes silenciosa, é quando ela surgirá, sob qual forma, e até onde poderá avançar antes de ser reconhecida como violência.
Enquanto as manifestações mais extremas continuarem sendo tratadas como exceções trágicas, permanecerá invisível o caminho cotidiano que frequentemente as antecede.
Nenhuma violência extrema nasce no vazio. Ela quase sempre germina em um terreno onde pequenas violências já foram aceitas.
Carla Benedetti - advogada, jornalista por
formação, escritora e membro da Academia de Letras, Ciências e Artes de
Londrina/PR. Mestre em Direito Previdenciário e doutoranda em Direito
Constitucional pela PUC/SP, também é associada ao Instituto Brasileiro de
Direito Previdenciário (IBDP), professora e coordenadora de pós-graduação na
área. Sócia da Benedetti Advocacia – escritório referência no Brasil –, atua ao
lado da família nas sedes no Paraná e em todo o país por meio do atendimento
on-line. Fundadora da Benedetti Educacional, dedica-se incansavelmente às
questões previdenciárias e humanitárias, pautando sua atuação na ética, qualidade,
transparência e profissionalismo.
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