sábado, 24 de janeiro de 2026

Janeiro Branco: investir nas fortalezas que atravessam o tempo


Saúde mental é um fenômeno multifatorial, atravessado por dimensões sociais, emocionais, econômicas e relacionais. Ainda assim, 30% dos brasileiros afirmam não adotar nenhuma iniciativa para cuidar do próprio equilíbrio psíquico, segundo o Check-up de Bem-Estar 2025, levantamento conduzido pela Vidalink. Apesar da relevância do tema, o debate público costuma se concentrar em sintomas, diagnósticos e estratégias de enfrentamento emocional. Este artigo propõe ampliar essa abordagem ao destacar uma dimensão pouco nomeada: a saúde cognitiva como base invisível da saúde mental no trabalho e na aprendizagem.

No cotidiano profissional contemporâneo, um elemento silencioso tem intensificado o mal-estar: o desgaste provocado por ambientes de excesso. Não se trata apenas de exaustão emocional. Observa-se sobrecarga mental persistente, decisões tomadas de forma automática e experiências de aprendizagem que não se transformam em compreensão. A produção segue, mas à custa de um funcionamento mental tensionado e pouco sustentável.

A análise parte do campo da aprendizagem, do trabalho do conhecimento e do desenho de contextos que exigem pensamento, escolha e adaptação contínuos. Não se trata de uma leitura clínica ou terapêutica. O foco está em compreender como organizações mal estruturadas, associadas ao uso pouco reflexivo da tecnologia, comprometem o funcionamento cognitivo e, por consequência, fragilizam o equilíbrio psíquico no dia a dia profissional.

A neurociência contribui para esse entendimento ao demonstrar que o cérebro humano não foi projetado para operar sob fragmentação permanente. Atenção é um recurso finito, decisões sucessivas consomem energia mental e aprender exige tempo para consolidação. Quando esses limites são desconsiderados, até pessoas qualificadas, engajadas e resilientes entram em estado de esgotamento. Nesse contexto, mais relevante do que acumular competências rapidamente superadas é investir naquelas que permanecem ao longo do tempo: pensamento crítico, capacidade decisória e, sobretudo, metacognição, a habilidade de reconhecer como se pensa, aprende e escolhe. Essas capacidades não eliminam todos os fatores que impactam o bem-estar psicológico, mas preservam algo essencial: autonomia no uso das próprias faculdades mentais.

Atualizar-se é necessário. Aprimorar a forma de pensar é estratégico. Nesse sentido, valorizar fortalezas individuais não se confunde com discursos simplificadores de positividade ou autoajuda. Trata-se de uma estratégia cognitiva objetiva. Atuar a partir dos próprios pontos fortes reduz atrito mental, evita esforço desnecessário e amplia a percepção de competência e controle. Em contextos complexos, alinhar o modo de funcionamento mental às exigências do trabalho pode ser determinante para sustentar aprendizado, desempenho e bem-estar ao longo do tempo.

O Janeiro Branco pode, portanto, ser também um convite à consciência sobre como a mente é utilizada. Cuidar do equilíbrio psicológico envolve diversas frentes, e uma delas passa por gerir melhor a atenção, qualificar processos decisórios e estruturar contextos de trabalho e aprendizagem compatíveis com os limites cognitivos humanos. Não se trata de silenciar o cérebro, mas de acioná-lo com mais intenção, um cuidado discreto, porém estruturante, para atravessar tempos de excesso sem perder o essencial.

A seguir, alguns exemplos cotidianos de como escolhas aparentemente banais impactam o bem-estar no trabalho e nos processos de aprender:

  • Iniciar o dia reagindo a e-mails e mensagens, acumulando desgaste sem avançar no que é prioritário;
  • Participar de reuniões extensas em que decisões relevantes ficam para o final, quando a atenção já se encontra comprometida;
  • Consumir cursos, podcasts e conteúdos curtos de forma contínua, resultando em saturação, não em assimilação;
  • Tomar decisões rápidas e sucessivas guiadas pela urgência, acumulando fadiga decisória;
  • Atuar fora das próprias fortalezas cognitivas, com alto gasto de energia e baixo impacto;
  • Manter a atenção fragmentada por notificações e múltiplas abas abertas, elevando o custo mental das tarefas.

No contexto da educação e da aprendizagem organizacional, aprender vai além do simples acesso a conteúdos, uma vez que exige intenção. Diante de rotinas marcadas pelo excesso de estímulos e pela pressa, torna-se fundamental adotar pequenos ajustes, como foco, pausas e encerramento consciente de aprendizados, que preservam a intencionalidade no uso da mente e ajudam a integrar o cuidado com o bem-estar no trabalho, em sintonia com a proposta do Janeiro Branco.

  

Clara Cecchini - especialista em aprendizagem e inovação, palestrante, graduada pela UNICAMP, com MBA pela FGV e formação complementar na Kaospilot e na Schumacher College, na Inglaterra.


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