Participante da 16ª edição da série “Conferências FAPESP 60 Anos” defendeu a importância de oferecer aos usuários de tecnologias de comunicação digital critérios mínimos que lhes permitam defender-se das fake news (foto: Rodion Kutsaiev/Unplash)
“Cultura digital” é uma ideia que tende a se tornar rapidamente
obsoleta. Porque a cultura passa por um processo de digitalização tão amplo e
irreversível que falar em “cultura digital” é quase uma redundância. Assim como
o uso da eletricidade tornou-se intrínseco às atividades humanas, e ninguém
mais se ocupa em apontar isso, a digitalização também o será – e já é, cada vez
mais.
Com esta reflexão, a pesquisadora Giselle Beiguelman,
professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo
(FAU-USP), artista, escritora e ativista, iniciou sua fala na 16ª edição da
série Conferências FAPESP 60 Anos,
dedicada ao tema “Cultura Digital”.
Beiguelman
disse que, no centro desse processo de digitalização da cultura, as imagens
tornaram-se as interfaces principais de mediação do cotidiano humano. “Para
além do lugar da transmissão de ideias e linguagens, as imagens tornaram-se o
próprio campo das tensões políticas da atualidade”, disse.
A
pesquisadora enfatizou a presença real da “dadosfera” que nos envolve, da qual
somos produtores, mas também pela qual somos constantemente produzidos, e que
enseja novas formas de vigilância e novos formatos de exclusão e opressão
ditados por algoritmos.
Beigelman falou do mecanismo de criação de deepfake, técnica que sintetiza imagens e sons por meio
de inteligência artificial para criar vídeos falsos, com pessoas dizendo ou
fazendo coisas que nunca disseram ou fizeram. Combinando recursos de big data (gigantescas bases de dados) e machine learning (aprendizado de máquina),
as deepfakes levam ao extremo o poder de manipulação
das consciências exercido pelas fake news.
Diante do
tsunami de imagens produzidas diariamente e que circulam por todo o planeta por
meio de diferentes plataformas, a pesquisadora defendeu a necessidade de um
“letramento digital” que dê às pessoas parâmetros mínimos para distinguir o
verdadeiro do falso e não serem manipuladas como gado em uma “sociedade de
controle como jamais foi imaginada”.
Coração
técnico
A palestra de Giselle Beiguelman foi, em certa medida, um complemento à
de Muniz Sodré,
que a antecedeu. Sociólogo, professor emérito da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ) e membro da Academia de Letras da Bahia, Sodré foi presidente da
Fundação Biblioteca Nacional de 2005 a 2011.
Em sua
fala, ele articulou os conceitos de tecnologia e cultura, em busca da medida
adequada de relacionamento do humano com sua exterioridade técnica. “Não se
trata de rejeitar ou de demonizar a técnica, que é um produto do engenho
humano, mas, sim, de integrar humanamente a técnica”, falou.
E foi
adiante: “Sem a dimensão cultural, a tecnologia se fecha narcisicamente em
torno de si mesma. E exerce efeitos de fascinação pela eficácia do desempenho
técnico, que contempla a cognição individual, mas, até agora, recalca o vínculo
com a comunidade, recalca o vínculo com o entorno sócio-histórico. É esse
vínculo que responde pela transitividade política do conhecimento”.
Sodré associou cultura à ideia grega de philia,
traduzida geralmente como "amizade", mas que vai além disso,
englobando as noções de “vizinhança”, de “viver junto”, de “predisposição à
sociabilidade”, de “comunicação”. “A cultura não é um ajuntamento de conteúdos;
a cultura é o mapeamento ativo do meio”, definiu.
O
acadêmico afirmou que “o vício digital é a secreta vingança do objeto contra a
soberania do sujeito”. E enfatizou que, “se não se compatibiliza com a cultura,
a tecnologia se afasta do coração técnico” – definido este como “o núcleo de
identidade, sem separação radical, entre o humano e a técnica”, como “a
inserção do objeto em uma trama de relações interpessoais”.
A 16ª Conferência FAPESP 60 Anos teve a mediação de Eduardo Morettin,
professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
(ECA-USP). E foi aberta pelo professor Marco Antonio Zago, presidente da
FAPESP.
Zago
lembrou que a popularização das mídias digitais foi acompanhada de um enorme
desenvolvimento técnico. “A dimensão dessa revolução só pode ser comparada à da
introdução da imprensa por Gutenberg no século 15”, disse. Mas ressaltou que,
enquanto as informações veiculadas pela mídia tradicional são muito mais
sujeitas à verificação, “nas novas mídias digitais qualquer pessoa pode
disseminar notícias falsas”.
O
presidente ressaltou que o sistema digital deu voz a extremistas e à
desinformação. E concluiu com uma pergunta deixada aos participantes do evento
como um tema para reflexão: “Como defender os interesses da sociedade sem
restringir a liberdade de expressão?”.
A “16ª Conferência FAPESP 60 Anos: Cultura Digital” pode ser assistida
na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=hMoGrRjPMOI&t=811s.
Os eventos anteriores da série podem ser encontrados em: 60anos.fapesp.br/conferencias.
José Tadeu Arantes
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/letramento-digital-e-fundamental-para-proteger-as-pessoas-da-manipulacao-possibilitada-pelas-novas-midias/40141/

Nenhum comentário:
Postar um comentário