quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Enfrentando a instabilidade de 2016





O ano de 2016 está às portas e, se há uma unanimidade no Brasil, entre governo e oposição, crentes e descrentes, compatriotas e estrangeiros, ricos e pobres, é que não será um ano fácil.
Os registros de corrução se avolumam; valores expostos são assombrosamente vultosos e expõem os intestinos de uma nação que se acostumou tanto com a prática que já é presa fácil à extorsão pura e simples, calcada em relacionamentos incestuosos com o poder.
Os problemas fiscais são apocalípticos, possivelmente como “nunca na história deste país”. Programas sociais de legitimidade e eficácia duvidosa contribuíram para drenar a nação. Nestes últimos dias de 2015, cerca de 75 bilhões foram transferidos de contas do governo para bancos estatais, para pagar as chamadas “pedaladas”, ou maquiagens contábeis, pelas quais as contas vêm sendo “fechadas” na aparência.
Na realidade, muito deste “pagamento” foi feito em forma de substituição por outras dívidas, com a emissão de títulos da dívida pública – ou seja, papeis e promessas de pagamento futuro, em vez de dinheiro. O país está cabisbaixo, envergonhado e sem atinar com a saída. A realidade dura é que todos nós vamos pagar a conta dos desmandos; na realidade, JÁ estamos pagando. Aqueles que têm poupança e bens, por mais modestos que sejam, tiveram estes confiscados em 50%, nos últimos anos, quando transformados em dólar. Os salários valem 50% a menos, quando a referência é o dólar, e não digam que “não temos nada a ver com essa moeda”. Em uma economia globalizada, tudo fica mais caro e isso afeta a vida de todos, inclusive a dos mais carentes. A ressurreição do infame Imposto sobre Movimentações Financeiras (IPMF) não cessa de ser anunciada.
Nesse cenário, alguns clamam por “mais governo”! “Aumentem os controles”! “Deem a eles mais poder para aumentar os impostos! ” Outros desesperam e dizem, “não adianta, não há esperança”.
Coloco aqui alguns pensamentos para adentrarmos 2016 com um pouco de lucidez, realistas, mas confiantes na soberania do Deus que reina, procurando deixar as Escrituras construir nossas convicções sobre as estruturas e perspectivas desse mundo, no qual ele nos colocou para sermos sal e luz.

A solução não se encontra em mais controle governamental, mas na volta às responsabilidades básicas do governo.
Vivemos em um mundo caído em pecado. A ganância, a cobiça, os amores ao dinheiro sempre se constituirão em fortes tentações. Sempre darão oportunidade de os ricos e poderosos oprimirem os mais fracos.
Por isso, em paralelo às garantias de liberdade e de livre iniciativa, o governo deve também proteger os cidadãos comuns da injustiça e da desonestidade. Nisso, nada mais fará do que voltar às suas responsabilidades básicas, recebidas de Deus.
Porém, isso não significa uma carta branca ao intervencionismo de toda sorte. Não representa uma ressurreição do socialismo moribundo. Se há algo que os últimos anos deveriam nos ensinar, é que o poder do estado (ou do governo) é RESTRITIVO e não DISTRIBUTIVO.

A esfera econômica também pode ser palco de violência e de injustiça e deve ser fiscalizada.
Por princípio, e exatamente por acreditar que esse é o projeto encontrado na Bíblia, sou avesso à grande maioria dos controles governamentais que se aceitam com naturalidade nos dias atuais.
O propósito do Governo é dar garantia à segurança dos cidadãos para que eles possam desenvolver, em condições de igualdade e justiça, suas desigualdades e seus potenciais com o máximo de respeito ao próximo e em obediência à autoridade que os garante (Romanos 13.1-7).
Mas essa tarefa requer, por vezes, a colocação de controles na sociedade – e na esfera econômica, exatamente para proteger os inocentes. Por exemplo, nenhum defensor de um papel reduzido ao governo, deveria ser contra a existência de sinais de trânsito.
Mas, isso não é extrapolar as funções do governo? Não! Ao ordenar o tráfego, ele protege as pessoas umas das outras; deve ter condições de punir os “avançadores” de sinais e de reconhecer os que os respeitam. Nesse sentido, apoiemos a livre iniciativa tanto quanto devemos apoiar a punição dos corruptos e daqueles que corrompem.

É necessário a proteção aos inocentes e a punição dos maus.
É óbvio que há a necessidade de mais fiscalização e diretrizes éticas no meio das estatais. O tesouro da nação não é para ser explorado por pessoas, partidos ou grupos de interesseiros. Cargos deveriam ser preenchidos por competência, não por alinhamento político-partidário.
No mercado financeiro, à luz da crise de 2008, é necessário que subsistam diretrizes que limitem a exposição indevida aos créditos de risco. Essas práticas estarão alinhadas exatamente com a proteção de inocentes. O aperto, o arrocho fiscal, a recompensa dos maus, com os bons pagando a conta, é uma inversão de valores. Cabe sim, ao governo, prevenir o crime, identificar e punir os malfeitores.
Os governantes, como ministros (servos) de Deus, devem valorizar (e não sufocar em impostos) aqueles que “trabalhando sossegadamente” procuram ganhar o seu pão (2 Tessalonicenses 3.12). Em paralelo não podem deixar impunes aqueles que se aproveitam de situações, ou do poder que detêm, para enriquecimento pessoal ilícito, muitas vezes sugando dos que pouco têm – via de regra com desvio dos recursos destinado a “órfãos e viúvas”.

Instabilidade é uma realidade inexorável.
Instabilidade parece ser a palavra da vez (com todas as suas derivativas: volatilidade, desconfiança, falta de credibilidade, insegurança, etc.). Nesse sentido, todo esse turbilhão econômico-financeiro que estamos vivenciando vem demonstrar a bênção que é a estabilidade, tão rapidamente abalada.
No Brasil, chegamos a quase nos acostumar com uma forma de vida mais economicamente estável, em função da solidez da moeda e de uma situação econômica favorável ao crescimento, experimentada desde 1994.
É verdade que o aperto financeiro em nosso bolso nunca foi aliviado, mas passamos a planejar com mais tranquilidade e, ingenuamente, passamos a achar que a estabilidade era permanente. Chegamos a arquivar os pacotes econômicos, como coisas do passado. É fácil enganarmo-nos a nós mesmos, mas uma simples olhada na história demonstrará como instabilidade é a norma nesse mundo.
Em 1987 houve uma crise intensa nos mercados financeiros. A capa da revista TIME chegou a compará-la à crise de 1929. Em 2008 tivemos uma crise mundial monumental. Nossa memória é curta. Estamos preocupados com a situação financeira, mas um olhar mais abrangente revela violência crescente, atos de terror, guerras atrozes, crueldades indescritíveis, exploração de mulheres e crianças. Um mundo que jaz em pecado é, por definição, instável.

Estabilidade é um anseio legítimo que cresce em proporção inversa à instabilidade ao nosso redor.
No cenário de recessão que atravessamos e naquele que se descortina para 2016, já é possível antever o continuado desaquecimento do mercado; vendas cada vez mais decrescentes; contenção de despesas nas empresas, com o consequente desemprego; incertezas em nosso dia-a-dia; instabilidade, enfim.
De certa forma, nos sentimos espoliados em conquistas que julgávamos alcançadas. Com frequência as pessoas se consideram aventureiras e corajosas, mas por que será que a estabilidade é algo tão almejado e perseguido? Por que as pessoas anseiam por uma repetitividade das circunstâncias, pela condição de poderem planejar?

Estabilidade é característica divina.
Estabilidade é uma característica divina, por isso ela é uma bênção. Deus é estável. O pecado é fator de instabilidade. Deus é previsível. Satanás é enganador e astuto. A criação geme, sob o domínio do pecado. Deus instala a ordem no meio do caos. A mensagem de Deus é construtiva, no meio da turbulência.
O plano de salvação é sequencial, lógico e progressivo. Da morte espiritual, pela justificação procedente de Jesus Cristo, passamos à vida e, em santificação, aguardamos a glorificação e comunhão eterna com o Pai. A Palavra de Deus ensina estabilidade de vida, a estabilidade da família, a estabilidade da sua Igreja. Estabilidade, podemos esperar de Deus, e só dele: o mais está fadado à desilusão.

Vivendo estavelmente em um mundo instável.
Não tenhamos dúvida de que Deus nos sustentará em 2016. Ele prepara os seus servos para viverem estavelmente em um mundo instável. Jesus intercedeu não para que fôssemos tirados do mundo, mesmo com suas instabilidades e perigos, mas para que pudéssemos ser livres do mal.
Na realidade, somos comissionados com a mensagem da estabilidade do evangelho, como embaixadores de um país celestial, no qual não existem pacotes, e os tesouros não são corrompidos pela inflação, especulação ou malversação; onde não existem crises, nem turbilhão financeiro; de onde a corrução e o pecado foram levados e lavados pelo Sangue de Cristo.
Serenidade e confiança em Deus é o remédio para os sobressaltos desta vida. A estabilidade que o mundo e os governantes nos oferecem, é passageira, é enganosa, é traiçoeira. A paz que recebemos de Jesus difere da obtida do mundo: ela tem o efeito de serenar os nossos corações.

Enfrentando a instabilidade de 2016.
Como enfrentar este ano de crise e outras crises em nossas vidas? Com a paz de Deus em nossos corações, com a confiança de que ele reina e está em controle de tudo e de todos, com a certeza de que a vitória final é dele e de seus servos.
O que pedir a Deus, para 2016? Devemos estar orando para que ele possa atuar em nosso país, derramando a sua graça comum, para que a estabilidade, tão característica de sua pessoa, seja parte de nossa experiência e peregrinação, por onde ele nos guiar.
Nesse momento de incertezas, acima de tudo, além de contabilizarmos as perdas (agora, ou no futuro) façamos um balanço da nossa alma, dos nossos objetivos e de nossas motivações. Aprendamos com as circunstâncias, pois o Deus da providência nos ensina através das situações em que ele nos coloca.


Solano Portela - Diretor Educacional do Mackenzie. Graduado em Ciências Exatas, fez o mestrado no Biblical Theological Seminary. Além de suas atividades no campo empresarial, em São Paulo, é escritor, tradutor e conferencista.

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