Estudo da FGV aponta que apenas 6,3% do patrimônio declarado pelos brasileiros está no exterior; especialistas explicam os riscos da concentração e como ativos internacionais, incluindo imóveis, podem fazer parte da estratégia
A elevada taxa de juros brasileira pode
tornar os investimentos locais atrativos, mas não elimina os riscos de
concentrar o patrimônio em uma única economia e moeda. É o que mostra um estudo
do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef), que
aponta que apenas 6,3% do patrimônio declarado pelos brasileiros está no
exterior.
Para Gustavo Farhat, Vice-Presidente
Executivo e Diretor-Geral do Sunstate Bank, o percentual revela uma forte
concentração patrimonial no Brasil. Segundo ele, parte desse comportamento está
relacionada ao fato de o investidor naturalmente buscar alternativas que está
mais acostumado, que conhece melhor e, durante muitos anos, aos juros elevados
do país, que reduziram a percepção de necessidade de buscar oportunidades
internacionais.
“A atratividade dos juros brasileiros
não elimina os riscos inerentes à concentração patrimonial. Quando praticamente
todo o patrimônio está exposto ao Brasil, o investidor assume simultaneamente
risco econômico, fiscal, político, regulatório e cambial de um único país”,
afirma.
Nesse cenário, manter todo o patrimônio
em reais significa deixar os investimentos excessivamente dependentes da
situação brasileira e das oscilações da moeda. "Um exemplo bastante
simples é pensar em um caso de algum empresário brasileiro que gera renda,
possui imóveis, investimentos e empresas concentrados no Brasil. O patrimônio
inteiro depende da mesma economia, da mesma moeda e do mesmo ambiente
regulatório. A internacionalização ajuda justamente a reduzir essa
concentração."
"Por isso, a decisão de investir
globalmente não deve ser vista como uma aposta contra o Brasil, mas como uma
estratégia de proteção patrimonial."
O executivo ressalta, porém, que
internacionalizar o patrimônio não significa simplesmente comprar ativos no
exterior. A diversificação também precisa considerar diferentes classes de
ativos, geografias e moedas. Para ele, uma carteira concentrada em um único
setor ou mercado estrangeiro pode continuar exposta a riscos semelhantes.
O estudo da FGV aponta 16% como
uma referência mínima de exposição internacional para neutralizar o efeito do
dólar sobre o consumo dos brasileiros, mas Farhat ressalta que o percentual
adequado depende dos objetivos de cada investidor, do tamanho de seu patrimônio
e de onde ele pretende utilizar esses recursos no futuro.
"Por exemplo, um executivo
que pretende se aposentar no Brasil pode ter uma necessidade diferente de
alguém que pretende comprar uma residência nos Estados Unidos ou que tem filhos
estudando no exterior. Na prática, a pergunta mais relevante não é "quanto
devo investir fora?", mas "quanto do meu patrimônio eu gostaria de
manter protegido das variáveis exclusivamente brasileiras?", explica
Gustavo Farhat.
Imóveis entram na estratégia de
diversificação
A internacionalização patrimonial
também pode envolver ativos reais, como imóveis. O próprio estudo da FGV mostra
que a participação de investimentos no exterior ainda é pequena quando
considerados imóveis, fundos e demais aplicações financeiras, chegando a apenas
2,2%.
Para Daniel Ickowicz, CEO e diretor de
vendas da Elite International Realty, o mercado imobiliário pode representar
uma das alternativas para o investidor que busca ampliar sua exposição
internacional e manter parte do patrimônio em uma economia e moeda diferentes
do Brasil.
“Um imóvel no exterior pode cumprir
funções que vão muito além de servir como residência ou buscar valorização. Ele
pode gerar renda em dólar com aluguel e fazer parte de uma estratégia de
formação e preservação de patrimônio, inclusive para organizar a transferência
desses bens para os herdeiros no futuro”, explica.
Segundo Ickowicz, a escolha de um
imóvel no exterior deve partir do objetivo do investidor. Localização, perfil
do imóvel, potencial de renda, liquidez, custos de manutenção, tributação,
financiamento e administração do ativo estão entre os fatores que precisam ser
avaliados antes da compra.
A possibilidade de geração de
renda também amplia as opções para o investidor. Além dos imóveis residenciais,
há alternativas comerciais voltadas à locação, como lojas e strip malls. Entre
elas está o modelo triple net, em que o contrato pode transferir ao locatário
boa parte dos custos operacionais do imóvel, permitindo ao proprietário ter uma
receita mais previsível e reduzir a gestão do ativo.
Dentro do próprio mercado
americano, a Flórida é um dos destinos que mantêm forte interesse entre
investidores brasileiros, pela presença de uma grande comunidade brasileira no
estado. Nesse mercado, há opções em diferentes faixas de preço e perfis de
investimento, desde cidades como Hallandale Beach, que podem oferecer
oportunidades com valores de entrada mais acessíveis, até regiões consolidadas
de Miami, como Brickell, que combinam infraestrutura, alta demanda e forte
potencial de valorização. A escolha do imóvel depende, entre outros fatores, do
capital disponível, da finalidade do ativo e do perfil de renda que o
investidor busca.
“Internacionalizar patrimônio não
significa deixar de investir no Brasil, mas evitar que todo o patrimônio
dependa das mesmas variáveis. O objetivo é construir uma estrutura que esteja
alinhada aos objetivos financeiros e familiares de longo prazo”, afirma
Ickowicz.

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