A recente exposição de 17 mil câmeras conveniadas ao Smart Sampa, em São Paulo, após uma nova falha de segurança na plataforma, reforça um alerta que também precisa chegar ao ambiente corporativo: a velocidade da transformação digital não pode superar a capacidade de proteger os sistemas que a sustentam. Isso porque, em um cenário no qual a inteligência artificial facilita tanto a inovação quanto a identificação de vulnerabilidades, empresas que incorporam novas tecnologias sem critérios, planejamento e governança estão ampliando a própria exposição a ataques.
O problema, porém, está longe de ser isolado. Na
Europa, ataques recentes a sistemas de refrigeração de supermercados permitiram
que hackers alterassem, remotamente, a temperatura de freezers e câmaras frias,
provocando a perda de grandes volumes de alimentos em estabelecimentos de
diferentes países. No mercado financeiro, a Binance também sofreu um ataque de
grandes proporções em outubro deste ano, que comprometeu aproximadamente US$
6,34 bilhões em ativos digitais. Embora tenham características distintas, os
episódios evidenciam como vulnerabilidades tecnológicas podem atingir setores e
operações muito diferentes, com impactos que ultrapassam o ambiente virtual.
Não há margem para questionamento do quanto que o
avanço da IA está modificando a dinâmica da cibersegurança. Se antes, a
identificação de brechas exigia conhecimentos técnicos especializados e um
trabalho mais demorado, hoje ferramentas inteligentes podem acelerar a análise
de códigos, sistemas e infraestruturas em busca de pontos vulneráveis - o que,
nas mãos de agentes mal-intencionados, conseguem automatizar etapas de
reconhecimento e exploração de falhas.
Segundo o relatório Digital Defense Report 2026, da
Microsoft, quase 40 mil vulnerabilidades de softwares foram publicadas apenas
no primeiro semestre deste ano, em um ritmo que pode levar o total anual a,
aproximadamente, o dobro do registrado anteriormente. Atribuir o aumento dos
riscos exclusivamente à IA, contudo, seria simplificar o problema, considerando
que uma parte importante da vulnerabilidade está na maneira como as próprias
organizações adotam essas ferramentas.
Muitas incorporam soluções sofisticadas sem avaliar
adequadamente os riscos dessa tecnologia, sem revisar permissões de acesso,
estabelecer políticas de uso ou garantir a integração segura com seus sistemas
e bases de dados. Isso, sem falar que muitas adotam o recurso com a expectativa
de resolver problemas rapidamente, sem que exista investimento proporcional em
proteção e estrutura de governança. O resultado? Uma expansão da superfície de
ataque: quanto mais sistemas, aplicações e dados são conectados sem controles
adequados, mais possibilidades de exploração podem surgir.
E, as consequências vão muito além do vazamento de
informações. Outro levantamento da Kaspersky, divulgado em setembro de 2026,
mostrou que a interrupção de processos de negócio foi a principal consequência
dos incidentes mais graves enfrentados por 32% de pequenas e médias empresas
brasileiras nos 12 meses anteriores. Perdas financeiras apareceram em 29% dos
casos, enquanto vazamentos públicos de dados foram mencionados por 21%.
Diante desse cenário, a segurança da informação
precisa deixar de ser tratada como uma etapa posterior à inovação, fazendo
parte das decisões estratégicas desde o início. Isso significa mapear
vulnerabilidades, avaliar fornecedores e integrações, controlar acessos,
monitorar ambientes continuamente e estabelecer planos de resposta a
incidentes. Também exige analisar previamente os riscos envolvidos na
implementação de ferramentas de IA, considerando possíveis falhas, usos
indevidos e impactos sobre informações sensíveis.
Nesse processo, normas como a ISO 27001, voltada à
gestão da segurança da informação, e a ISO 42001, direcionada aos sistemas de
gestão de inteligência artificial, oferecem referências globais importantes
para estruturar políticas, responsabilidades, controles e processos de
avaliação de riscos. Mais do que buscar uma certificação reconhecida ao redor
do mundo, se trata de incorporar uma cultura de governança que acompanhe todo o
ciclo de vida das tecnologias utilizadas pela organização.
A inteligência artificial pode, inclusive,
fortalecer a própria defesa cibernética, ajudando a identificar ameaças e antecipar
vulnerabilidades. Mas, seu potencial só será aproveitado de maneira sustentável
quando estiver acompanhado de critérios técnicos, investimentos e
responsabilidade.
O episódio do Smart Sampa mostra que não basta conectar sistemas e ampliar capacidades digitais: é preciso garantir que essa estrutura seja confiável. Afinal, de que adianta acelerar a inovação, se as empresas não conseguem proteger aquilo que estão construindo?
Alexandre Pierro - doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.
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