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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Falha no Smart Sampa: os riscos de adotar IA sem governança

A recente exposição de 17 mil câmeras conveniadas ao Smart Sampa, em São Paulo, após uma nova falha de segurança na plataforma, reforça um alerta que também precisa chegar ao ambiente corporativo: a velocidade da transformação digital não pode superar a capacidade de proteger os sistemas que a sustentam. Isso porque, em um cenário no qual a inteligência artificial facilita tanto a inovação quanto a identificação de vulnerabilidades, empresas que incorporam novas tecnologias sem critérios, planejamento e governança estão ampliando a própria exposição a ataques. 

O problema, porém, está longe de ser isolado. Na Europa, ataques recentes a sistemas de refrigeração de supermercados permitiram que hackers alterassem, remotamente, a temperatura de freezers e câmaras frias, provocando a perda de grandes volumes de alimentos em estabelecimentos de diferentes países. No mercado financeiro, a Binance também sofreu um ataque de grandes proporções em outubro deste ano, que comprometeu aproximadamente US$ 6,34 bilhões em ativos digitais. Embora tenham características distintas, os episódios evidenciam como vulnerabilidades tecnológicas podem atingir setores e operações muito diferentes, com impactos que ultrapassam o ambiente virtual. 

Não há margem para questionamento do quanto que o avanço da IA está modificando a dinâmica da cibersegurança. Se antes, a identificação de brechas exigia conhecimentos técnicos especializados e um trabalho mais demorado, hoje ferramentas inteligentes podem acelerar a análise de códigos, sistemas e infraestruturas em busca de pontos vulneráveis - o que, nas mãos de agentes mal-intencionados, conseguem automatizar etapas de reconhecimento e exploração de falhas.  

Segundo o relatório Digital Defense Report 2026, da Microsoft, quase 40 mil vulnerabilidades de softwares foram publicadas apenas no primeiro semestre deste ano, em um ritmo que pode levar o total anual a, aproximadamente, o dobro do registrado anteriormente. Atribuir o aumento dos riscos exclusivamente à IA, contudo, seria simplificar o problema, considerando que uma parte importante da vulnerabilidade está na maneira como as próprias organizações adotam essas ferramentas.  

Muitas incorporam soluções sofisticadas sem avaliar adequadamente os riscos dessa tecnologia, sem revisar permissões de acesso, estabelecer políticas de uso ou garantir a integração segura com seus sistemas e bases de dados. Isso, sem falar que muitas adotam o recurso com a expectativa de resolver problemas rapidamente, sem que exista investimento proporcional em proteção e estrutura de governança. O resultado? Uma expansão da superfície de ataque: quanto mais sistemas, aplicações e dados são conectados sem controles adequados, mais possibilidades de exploração podem surgir. 

E, as consequências vão muito além do vazamento de informações. Outro levantamento da Kaspersky, divulgado em setembro de 2026, mostrou que a interrupção de processos de negócio foi a principal consequência dos incidentes mais graves enfrentados por 32% de pequenas e médias empresas brasileiras nos 12 meses anteriores. Perdas financeiras apareceram em 29% dos casos, enquanto vazamentos públicos de dados foram mencionados por 21%. 

Diante desse cenário, a segurança da informação precisa deixar de ser tratada como uma etapa posterior à inovação, fazendo parte das decisões estratégicas desde o início. Isso significa mapear vulnerabilidades, avaliar fornecedores e integrações, controlar acessos, monitorar ambientes continuamente e estabelecer planos de resposta a incidentes. Também exige analisar previamente os riscos envolvidos na implementação de ferramentas de IA, considerando possíveis falhas, usos indevidos e impactos sobre informações sensíveis. 

Nesse processo, normas como a ISO 27001, voltada à gestão da segurança da informação, e a ISO 42001, direcionada aos sistemas de gestão de inteligência artificial, oferecem referências globais importantes para estruturar políticas, responsabilidades, controles e processos de avaliação de riscos. Mais do que buscar uma certificação reconhecida ao redor do mundo, se trata de incorporar uma cultura de governança que acompanhe todo o ciclo de vida das tecnologias utilizadas pela organização. 

A inteligência artificial pode, inclusive, fortalecer a própria defesa cibernética, ajudando a identificar ameaças e antecipar vulnerabilidades. Mas, seu potencial só será aproveitado de maneira sustentável quando estiver acompanhado de critérios técnicos, investimentos e responsabilidade.  

O episódio do Smart Sampa mostra que não basta conectar sistemas e ampliar capacidades digitais: é preciso garantir que essa estrutura seja confiável. Afinal, de que adianta acelerar a inovação, se as empresas não conseguem proteger aquilo que estão construindo?  



Alexandre Pierro - doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.



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