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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

3 em cada 4 brasileiros não têm reserva financeira para enfrentar mais de seis meses de dificuldades


Pesquisa revela que 31% da população não possui nenhum dinheiro guardado para emergências. Especialista alerta para os riscos da falta de planejamento financeiro e ensina como começar a construir uma reserva, mesmo ganhando pouco. 

Perder o emprego, enfrentar um problema de saúde ou precisar arcar com uma despesa inesperada pode transformar rapidamente a vida financeira de uma família. E, para a maioria dos brasileiros, enfrentar uma situação dessas por um período prolongado seria um grande desafio. 

Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), em parceria com o Datafolha, 74% dos brasileiros não possuem reservas financeiras suficientes para cobrir suas despesas por mais de seis meses. Isso significa que apenas um em cada quatro brasileiros teria recursos guardados para enfrentar uma emergência financeira superior a esse período. 

O levantamento, divulgado em abril de 2026, ouviu 5.832 pessoas com 16 anos ou mais, de todas as regiões do país. 

Os números revelam uma realidade ainda mais preocupante: 31% dos entrevistados não possuem qualquer reserva de emergência. Outros 20% afirmam que o dinheiro guardado seria suficiente para, no máximo, um mês. 

Para o contador, professor universitário e especialista em educação financeira André Charone, autor do livro A Verdade sobre o Dinheiro, esses resultados mostram como grande parte da população brasileira ainda vive financeiramente vulnerável. 

“Existe uma diferença enorme entre ter algum dinheiro guardado e possuir uma reserva de emergência de verdade. Muitas pessoas até conseguem economizar alguma coisa, mas esse dinheiro não seria suficiente para sustentar a família durante uma situação mais grave, como a perda de um emprego ou uma doença que impeça temporariamente o trabalho”, explica Charone.

 

O perigo de viver sem uma reserva de emergência 

A ausência de uma proteção financeira pode desencadear um efeito dominó na economia doméstica. Quando surge uma despesa inesperada, famílias sem reservas frequentemente precisam recorrer ao cartão de crédito, cheque especial, empréstimos ou até mesmo à ajuda de parentes. 

O problema é que uma emergência financeira pode acabar se transformando em um endividamento prolongado, especialmente quando o crédito contratado possui juros elevados. 

“Imagine uma família que depende de uma renda mensal de R$ 4 mil. Se essa renda desaparece de uma hora para outra, mas as contas continuam chegando, o que acontece? Sem dinheiro guardado, a primeira alternativa costuma ser recorrer ao crédito. E é justamente nesse momento de fragilidade que os juros podem transformar um problema temporário em uma dívida que levará anos para ser resolvida”, alerta o especialista. 

Charone ressalta, entretanto, que a dificuldade para poupar nem sempre está relacionada à falta de disciplina financeira. 

“Não podemos ignorar a realidade de milhões de brasileiros que precisam utilizar praticamente toda a renda para pagar despesas básicas. Para essas famílias, guardar dinheiro é realmente difícil. Mas também existem pessoas que, mesmo tendo uma renda confortável, acabam aumentando seus gastos na mesma proporção dos ganhos e permanecem sem nenhuma segurança financeira”, observa.

 

Afinal, quanto dinheiro é necessário guardar? 

De acordo com André Charone, uma referência importante é formar uma reserva capaz de cobrir pelo menos seis meses das despesas essenciais da família. 

Isso significa que o cálculo deve considerar gastos como moradia, alimentação, água, energia elétrica, medicamentos, transporte e outras obrigações indispensáveis. 

Para uma família que possui despesas essenciais de R$ 3 mil mensais, por exemplo, uma reserva de seis meses corresponderia a R$ 18 mil. Já para quem precisa de R$ 5 mil mensais para manter as contas em dia, o valor seria de R$ 30 mil. 

O especialista explica que trabalhadores autônomos, empresários e profissionais com renda variável podem precisar de uma proteção ainda maior, chegando a 12 meses de despesas. 

“Não existe um valor único que sirva para todo mundo. Uma pessoa com emprego estável e poucas despesas pode precisar de uma reserva diferente daquela exigida por um profissional autônomo, que não sabe exatamente quanto vai receber no próximo mês. O mais importante é que esse dinheiro ofereça tranquilidade e tempo para reorganizar a vida quando alguma coisa sair do planejado”, afirma.

 

Como construir uma reserva mesmo ganhando pouco? 

Para quem ainda não possui nenhuma economia, a recomendação é começar com metas menores e progressivas. 

Em vez de pensar imediatamente em acumular seis meses de despesas, o primeiro objetivo pode ser guardar R$ 500 ou R$ 1 mil. Depois, construir uma reserva equivalente a um mês de gastos essenciais e aumentar gradualmente esse montante. 

Outro cuidado importante é manter o dinheiro destinado às emergências separado dos recursos utilizados no cotidiano. 

Aplicações financeiras de baixo risco e com liquidez adequada, como determinados CDBs com liquidez diária e o Tesouro Selic, podem ser consideradas, sempre observando as condições de resgate e as características de cada produto. 

Charone também destaca a importância de não confundir reserva de emergência com dinheiro para realizar sonhos ou financiar o consumo. 

“Viagem, troca de carro e compra de celular precisam ter planejamentos próprios. A reserva de emergência não é uma poupança para realizar desejos, mas uma proteção para enfrentar necessidades inesperadas. Ela pode não parecer tão interessante quanto outros investimentos, mas sua principal função não é enriquecer ninguém. É impedir que um imprevisto destrua aquilo que a pessoa levou anos para construir”, explica.

 

Educação financeira também é prevenção 

Para o especialista, os resultados da pesquisa reforçam a necessidade de ampliar o acesso à educação financeira no Brasil, especialmente com orientações simples e aplicáveis à realidade das famílias. 

“Quando falamos de educação financeira, muita gente pensa imediatamente em investimentos, Bolsa de Valores ou em como ficar rico. Mas, antes de tudo isso, precisamos falar sobre orçamento, controle das dívidas e formação de reservas. A verdadeira educação financeira começa quando aprendemos a proteger o dinheiro que já temos”, afirma André Charone.

 

E conclui com um alerta:

“Uma reserva de emergência é como um extintor de incêndio: você espera nunca precisar utilizar, mas, quando surge um problema, fica extremamente agradecido por ter um. O melhor momento para começar a construir essa proteção é antes de a emergência acontecer.”

 



André Charone - contador, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais pela Must University, na Flórida (EUA), com atuação nas áreas de contabilidade, finanças e consultoria empresarial. Possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV, em São Paulo, além de certificações internacionais pela Universidade de Harvard, em Massachusetts, e pelo Disney Institute, na Flórida. É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional. Seu mais recente trabalho é o livro "Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática", em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional.
Disponível em versão física: https://loja.uiclap.com/titulo/ua111005/
digital: https://play.google.com/store/books/details?id=nAB5EQAAQBAJ&pli=1
Instagram: @andrecharone


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