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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Viver mais não significa viver melhor: de que adianta aumentar a longevidade sem preservar a funcionalidade?

 

No Dia Internacional das Pessoas Idosas, pesquisador brasileiro que atua na área de envelhecimento e longevidade explica por que ampliar a expectativa de vida precisa vir acompanhado de autonomia e funcionalidade
 


O aumento da expectativa de vida é uma das principais conquistas da medicina nas últimas décadas, mas viver mais anos não significa, necessariamente, viver com autonomia e qualidade de vida. Para o pesquisador brasileiro David Amorim, que atua no campo do envelhecimento e da longevidade, o desafio atual está justamente em ampliar os anos vividos com funcionalidade, independência e participação ativa na sociedade.

A discussão ganha destaque em 1º de outubro, Dia Internacional das Pessoas Idosas, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para chamar atenção para as questões relacionadas ao envelhecimento da população e aos direitos das pessoas idosas.

Segundo David, pensar em longevidade exige ir além do número de anos vividos. “O objetivo não deve ser apenas acrescentar anos à vida, mas preservar a capacidade de viver bem esses anos. Com autonomia, funcionalidade e qualidade de vida. Envelhecer faz parte do curso natural da vida, mas a forma como envelhecemos é influenciada por diferentes fatores ao longo de toda a trajetória”, explica.

Com isso, a capacidade funcional ganha importância, ela está relacionada à possibilidade de uma pessoa realizar suas atividades cotidianas, tomar decisões, se locomover, manter relações sociais e participar da vida em comunidade. Quando essa capacidade é preservada, o envelhecimento pode ser vivido de maneira mais independente, mesmo diante das mudanças naturais associadas à idade.

Para o especialista, também é importante evitar a ideia de que envelhecer significa necessariamente adoecer ou perder autonomia. O processo de envelhecimento é heterogêneo e pode acontecer de maneiras muito diferentes entre pessoas da mesma idade.

“Duas pessoas com a mesma idade cronológica podem apresentar condições de saúde, níveis de necessidade e capacidades funcionais muito diferentes. Por isso, não podemos olhar para a idade isoladamente. Precisamos compreender o indivíduo de forma integral e considerar aspectos sociais, culturais e emocionais, além das condições físicas e cognitivas”, afirma David.

Por isso, a discussão sobre envelhecimento saudável envolve também prevenção e planejamento ao longo do curso da vida. Manter-se fisicamente ativo, cuidar de doenças crônicas, preservar vínculos sociais, estimular a saúde cognitiva e ter acesso adequado à assistência médica são alguns dos elementos que podem contribuir para a manutenção da funcionalidade.

“Longevidade não é um projeto que começa aos 60 ou 70 anos. O envelhecimento começa no nascimento, e muitas das condições que encontramos na velhice têm relação com fatores acumulados ao longo das décadas. Pensar antecipadamente sobre saúde e funcionalidade é uma forma de ampliar as possibilidades de envelhecer bem, mas nunca é tarde para agir”, destaca.

A discussão também passa pela necessidade de repensar a própria ideia de velhice. Com o aumento da longevidade, pessoas acima dos 60 anos permanecem por mais tempo trabalhando, estudando, viajando, criando novos projetos e participando ativamente da sociedade.

Para David, preservar autonomia significa também garantir que a pessoa idosa continue tendo espaço para fazer escolhas e participar das decisões sobre a própria vida. “Muitos enxergam o cuidado como sinal de uma dependência indesejada, mas cuidar não significa substituir a autonomia da pessoa. Todo ser humano cuida e é cuidado em pelo menos um momento da vida. Essa verdade humana não pode ser interpretada como uma ferida à dignidade da pessoa cuidada. Por isso, é preciso encontrar um equilíbrio entre oferecer suporte quando necessário e preservar a capacidade de escolha e participação do indivíduo”, conclui.

 

David Amorim - pesquisador brasileiro, único brasileiro mestre em Antropologia Médica por Harvard e Research Associate do Marcus Institute for Aging Research, ligado à Harvard Medical School, em Boston. Atua nas áreas de envelhecimento, demência, cuidado e saúde global, com pesquisas voltadas à compreensão dos aspectos sociais, culturais e humanos relacionados ao envelhecimento e à assistência. Em 2025, teve um trabalho reconhecido pela American Geriatrics Society na categoria Ethics & Qualitative Research e posteriormente publicado no Journal of the American Geriatrics Society. No Brasil, também atua como consultor do Ministério da Saúde.

 

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