Levantamento mapeou o histórico de mais de mil
jovens assassinados na capital
Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (FMUSP) revela que a maioria dos adolescentes vítimas
de homicídio na cidade de São Paulo passou por diversos serviços públicos de
atendimento antes de morrer. Publicado na revista
científica Cadernos de Saúde Pública, o trabalho foi agraciado com o Prêmio
CAPES de Tese – Edição 2026, um dos principais reconhecimentos à produção
científica da pós-graduação brasileira.
A pesquisa demonstra que escolas, postos de saúde, unidades de assistência
social e o sistema de justiça acompanharam esses jovens em algum momento de
suas vidas, mas as instituições não conseguiram agir de forma integrada para
evitar os assassinatos. O levantamento classifica esses episódios como
oportunidades perdidas pelo Estado na prevenção da violência letal.
Ao
cruzar informações de diferentes secretarias e órgãos governamentais sobre
1.036 adolescentes de 10 a 19 anos mortos por homicídio na capital entre 2015 e
2020, os pesquisadores mapearam o perfil das vítimas e o histórico de
atendimento público de cada uma. Os resultados apontam que 94% dos mortos eram
do sexo masculino e cerca de 67% eram negros. A maioria vivia em áreas de alta
vulnerabilidade socioeconômica, com famílias cadastradas em programas de renda
e enfrentando condições de vida precárias.
Fatores de vulnerabilidade
O abandono escolar e a interrupção dos estudos surgem como fatores determinantes de vulnerabilidade. Cerca de 68% dos jovens assassinados já haviam deixado a escola quando foram mortos, e a maioria acumulava histórico de reprovações, causadas principalmente pela baixa frequência às aulas. Segundo os autores da pesquisa, os primeiros sinais de distanciamento da escola ocorriam em média anos antes do óbito, o que abriria uma janela de tempo valiosa para intervenções preventivas que não chegaram a ser consolidadas.
O estudo também destaca que mais de metade das vítimas tinha histórico de atos infracionais e quase 70% desse grupo chegou a cumprir medida socioeducativa com privação de liberdade na Fundação Casa. A pesquisa identificou que metade das mortes ocorridas após a saída dessas unidades de internação aconteceu em até um ano após o jovem ser liberado, evidenciando o período crítico e a vulnerabilidade do momento pós-internação.
Em
relação às causas diretas dos óbitos, a atividade policial respondeu por mais
de 50% das mortes registradas pela segurança pública no período analisado. Além
disso, o estudo aponta que quase 86% de todas as mortes intencionais entre os
adolescentes foram cometidas por armas de fogo.
Estratégias integradas
Os pesquisadores reforçam que a solução não passa apenas pela expansão de serviços públicos isolados, mas pela criação de canais de comunicação e troca de dados entre a saúde, a educação, a assistência social e a segurança. "O compartilhamento sistemático de dados pode permitir a identificação precoce dos sinais de risco e a elaboração de estratégias integradas para proteger a vida dos jovens e combater as desigualdades sociais e o racismo estrutural na cidade", afirma o pesquisador Marcelo Ryngelblum, primeiro autor do estudo e Doutor em Saúde Coletiva pela FMUSP.
O
artigo completo está disponível na revista
científica Cadernos de Saúde Pública (DOI: 10.1590/0102-311XPT120224)*.
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