Recusa de determinados alimentos é comum entre crianças, mas uma alimentação muito restrita pode comprometer a variedade de nutrientes e merece acompanhamento
A seletividade alimentar é comum durante a infância, mas, quando a
recusa a determinados alimentos se torna persistente e reduz de forma
significativa a variedade da dieta, pode haver impacto na ingestão de
nutrientes importantes para o desenvolvimento. Um estudo observacional
publicado em 2025, com 3.503 crianças de 3 a 4 anos na China, identificou
deficiência de ferro em 25,4% dos participantes e anemia por deficiência de
ferro em 7,5%. A pesquisa também apontou a seletividade alimentar como um dos
fatores associados de forma independente ao risco das duas condições.
Segundo o estudo, publicado na BMC Pediatrics e indexado no
PubMed, crianças com comportamento alimentar seletivo apresentaram maior
probabilidade de apresentar deficiência de ferro. Embora os resultados não
possam ser generalizados para todas as populações infantis, o levantamento
reforça a importância de observar a qualidade e a variedade da alimentação
durante uma fase em que as necessidades nutricionais são elevadas.
“Uma criança que recusa alguns alimentos ou passa por períodos de
preferência por determinados sabores não necessariamente apresenta uma
deficiência nutricional. A preocupação aumenta quando a alimentação fica muito
limitada por um período prolongado, especialmente quando determinados grupos de
alimentos são completamente excluídos”, explica Dr. Carlos Alberto Reyes
Medina, Diretor Médico da Carnot Laboratórios.
A relação com o ferro merece atenção porque o mineral participa de
processos fundamentais para o organismo, incluindo o transporte de oxigênio e o
metabolismo energético. Na infância, uma ingestão inadequada pode contribuir
para a deficiência de ferro e, em casos mais avançados, para a anemia
ferropriva. A avaliação, no entanto, não deve ser feita apenas a partir dos
hábitos alimentares ou de sintomas isolados.
Uma revisão publicada em 2026 no Journal of Pediatrics
reforça que as dificuldades alimentares na infância podem ter diferentes
origens e manifestações, envolvendo aspectos nutricionais, comportamentais,
médicos e do desenvolvimento. Por isso, a seletividade não deve ser tratada
como um fenômeno único ou automaticamente associada a uma deficiência.
“É importante entender por que aquela criança está restringindo a
alimentação. Questões relacionadas à textura, experiências negativas com
determinados alimentos, dificuldades no desenvolvimento da alimentação ou mesmo
aspectos comportamentais podem estar envolvidos. A partir disso, é possível
avaliar se existe de fato um comprometimento nutricional e qual deve ser a
conduta”, afirma Dr. Carlos.
O impacto nutricional também depende dos alimentos que deixam de
fazer parte da rotina. Uma criança que consome pouca variedade, mas mantém
representantes de diferentes grupos alimentares, pode ter um cenário diferente
daquela que elimina sistematicamente carnes, ovos, verduras, frutas ou outros
grupos importantes. Estudos recentes sobre dificuldades alimentares ressaltam
justamente a necessidade de uma avaliação individualizada, já que a restrição
não produz necessariamente as mesmas consequências em todas as crianças.
Para o médico, o acompanhamento deve considerar não apenas o
comportamento alimentar, mas também o crescimento e o desenvolvimento da
criança. “A seletividade merece atenção quando começa a interferir de maneira
importante na rotina alimentar, reduz muito a variedade de alimentos ou levanta
dúvidas sobre a adequação nutricional. Nesses casos, a avaliação profissional ajuda
a diferenciar uma fase comum do desenvolvimento de uma situação que exige
investigação”, conclui.
A deficiência de ferro não deve ser presumida apenas pela presença
de seletividade alimentar, assim como a suplementação não deve ser iniciada por
conta própria. A investigação de possíveis deficiências deve considerar a
alimentação, o histórico clínico, o crescimento e, quando indicado pelo
profissional de saúde, exames laboratoriais.
Carnot®
Laboratórios
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