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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Segurança digital também se ensina na infância


Ensinar uma criança a atravessar a rua exige mais do que dizer que carros são perigosos. Primeiro seguramos sua mão, explicamos o significado do semáforo, mostramos por que é preciso olhar para os dois lados e, aos poucos, damos autonomia para que ela tome decisões sozinha. No ambiente digital, deveríamos seguir uma lógica semelhante. 

Crianças estão conectadas cada vez mais cedo. Usam celulares para conversar com amigos e familiares, assistir a vídeos, jogar, estudar e se divertir. As redes sociais são parte dessa experiência, mesmo antes da idade formalmente permitida por muitas plataformas. 

O levantamento da TIC Kids Online Brasil 2025 mostra que 33% dos usuários de internet entre 9 e 10 anos utilizaram redes sociais no último ano. Entre aqueles de 11 e 12 anos, o percentual chega a 63%. Dos 13 aos 17 anos, alcança 89%. São números que evidenciam que estabelecer uma idade mínima de acesso não significa necessariamente manter as crianças fora do ambiente virtual. 

Estamos formando identidades digitais cada vez mais cedo. Uma criança pode não compreender ainda o valor de seus dados pessoais, mas desde muito cedo ela já fornece informações sobre quem é, compartilha fotos, escolhe senhas, conversa com outras pessoas e constrói, pouco a pouco, uma identidade no ambiente digital. E ninguém deveria esperar que ela soubesse, sozinha, até onde pode ir ou quando uma situação aparentemente inofensiva representa um risco.  

Por isso, permitir o acesso à tecnologia precisa vir acompanhado de orientação. Não basta dizer o que pode ou não pode fazer. É preciso ensinar a reconhecer riscos e, principalmente, criar espaço para que a criança peça ajuda quando alguma coisa parecer estranha. 

É justamente aí que começa um dos maiores desafios da segurança digital infantil. Durante muito tempo, concentramos a discussão no controle do tempo de tela. Quantas horas uma criança deve permanecer no celular? Quando desligar o aparelho? Em quais horários permitir seu uso? São perguntas importantes, mas insuficientes. 

Precisamos também perguntar com quem essa criança conversa, quais informações compartilha, quem consegue visualizar suas publicações, que tipo de conteúdo os algoritmos apresentam e se ela saberia reconhecer uma abordagem suspeita. 

A preocupação não é hipotética. Plataformas digitais vêm enfrentando questionamentos em diferentes países sobre a capacidade de impedir que menores sejam expostos a conteúdos sexualmente inadequados, abordagens de adultos, exploração e outros riscos. Casos envolvendo Big Tech como Meta e Discord mostram a complexidade desse desafio e, ao mesmo tempo, têm pressionado o setor a desenvolver novas barreiras de proteção. 

A Meta, por exemplo, passou a adotar contas específicas para adolescentes no Instagram, com configurações de privacidade e contato mais restritivas. Usuários com menos de 16 anos precisam de autorização dos responsáveis para reduzir algumas dessas proteções. A companhia também adicionou restrições para transmissões ao vivo e para a desativação de mecanismos destinados a proteger adolescentes contra imagens com suspeita de nudez. 

O Discord também passou a implementar mecanismos de comprovação de idade e configurações mais protetivas por padrão. No Brasil, conteúdos considerados sensíveis podem ser borrados ou bloqueados e determinados espaços são restritos a adultos. 

Essas mudanças são importantes porque indicam uma transformação necessária na maneira como pensamos segurança digital. Não podemos depender apenas da capacidade de uma criança de identificar um risco que, muitas vezes, é difícil até mesmo para adultos perceberem. 

Isso se torna ainda mais desafiador porque os golpes também aprenderam a falar a linguagem das crianças. Técnicas de phishing e engenharia social podem aparecer disfarçadas de ofertas de moedas, skins, personagens, itens exclusivos ou vantagens gratuitas em jogos. Um link enviado por mensagem pode levar a uma página falsa criada para capturar login e senha. Um perfil aparentemente pertencente a outra criança pode ser usado para estabelecer confiança e obter fotografias ou informações pessoais. Até promoções, sorteios e convites para participar de grupos ou baixar aplicativos podem servir como porta de entrada para roubo de credenciais, instalação de programas maliciosos ou outras formas de fraude. 

Para uma criança, identificar essas armadilhas é particularmente difícil porque muitos golpes exploram justamente mecanismos que fazem parte desse universo: curiosidade, recompensa, urgência, pertencimento e confiança. O “clique aqui agora para ganhar um item raro” é, na prática, uma versão infantilizada de técnicas de engenharia social utilizadas diariamente contra adultos e empresas.  

Há ainda informações que parecem banais, mas podem revelar muito sobre uma criança e sua família. Nome da escola, uniforme, localização, horários, rotina familiar, fotografias e até os lugares frequentados ajudam a construir uma identidade digital. Quando reunidos, esses pequenos fragmentos podem ser utilizados para tornar uma abordagem falsa muito mais convincente. 

É por isso que ferramentas tecnológicas são indispensáveis, mas não substituem acompanhamento e educação. No Brasil, o ECA Digital reforçou justamente essa responsabilidade compartilhada. Plataformas precisam desenvolver ambientes mais seguros e oferecer mecanismos de supervisão, enquanto famílias também têm papel fundamental na construção dessa proteção. 

Monitorar, porém, não deveria significar simplesmente vigiar escondido. Segurança digital também depende de confiança. A conversa precisa começar antes do problema. Quem pode adicionar você? O que fazer se alguém pedir uma fotografia? Por que não devemos clicar imediatamente em um link que promete uma vantagem em um jogo? É seguro dizer onde estudamos? O que fazer quando uma conversa causa desconforto?  

Da mesma forma que ensinamos crianças a desconfiar de um estranho que se aproxima na rua, precisamos explicar que um desconhecido na Internet continua sendo um desconhecido, mesmo que tenha uma fotografia simpática, goste do mesmo jogo ou pareça ter a mesma idade. 

Manter crianças simplesmente afastadas da tecnologia também não é uma resposta possível. Elas estão crescendo em um mundo conectado e vão usar esses recursos para estudar, se divertir, conversar e construir relações. O que precisamos discutir é como prepará-las para fazer tudo isso com mais segurança e autonomia. 

Segurança digital não começa quando instalamos um antivírus ou ativamos um controle parental. Ela começa quando uma criança entende que sua identidade, suas informações e sua intimidade também precisam ser protegidas. E esse talvez seja um dos aprendizados mais importantes que podemos oferecer a uma geração que já nasceu conectada. 

 

Luiza Dias - Presidente da GlobalSign Brasil - empresa líder no mercado de certificação digital no mundo. Vencedora da categoria ‘Melhor CEO’ do Open Mind Awards 2024, Luiza é a única mulher latino-americana a ocupar este cargo em uma Autoridade Certificadora (AC) de Raiz Internacional. Possui 19 anos de carreira, 10 deles dedicados à GlobalSign, onde ocupou os cargos de Vendedora, Gerente de Vendas Latam e, desde 2021, a presidência para o Brasil. Foi responsável por implantar o primeiro escritório físico da empresa no país, localizado em Belo Horizonte (MG), e tornou-se uma importante referência feminina do mercado de tecnologia e cibersegurança de toda a América Latina


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