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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Saúde Mental com a NR-1 valendo: empresas agora respondem pelo que adoece seus funcionários

Com a fiscalização dos riscos psicossociais em vigor, Aline Graffiette, especialista em saúde mental e comportamento no trabalho e fundadora da Mental One, alerta que cartilha e palestra de outubro não bastam: a mudança precisa estar na rotina, nas metas e na liderança.

 

Este 10 de outubro marcou o primeiro Dia Mundial da Saúde Mental em que as empresas brasileiras são obrigadas a identificar, avaliar e gerenciar os riscos psicossociais do trabalho, como sobrecarga, metas inalcançáveis, assédio e falta de autonomia. A exigência vem da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), cuja fiscalização passou a valer em maio de 2026. Para Aline Graffiette, fundadora da Mental One, a data deixa de ser simbólica e passa a ser um termômetro: “A pergunta agora não é se a empresa falou de saúde mental em outubro. É o que ela mudou no resto do ano.”


O que mudou e por que importa

A NR-1 foi atualizada pela Portaria MTE nº 1.419/2024, que incluiu os fatores psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). A regra vale para todas as empresas com empregados pela CLT. Elas precisam identificar o que ameaça a saúde mental das equipes, avaliar a gravidade e a probabilidade de cada risco e montar um plano de ação com responsáveis e prazos. O programa deve ser revisto a cada dois anos, ou antes, em caso de acidentes ou mudanças nos processos. Desde 26 de maio de 2026, o Ministério do Trabalho e Emprego fiscaliza o cumprimento e pode aplicar multas.

O pano de fundo é o recorde de afastamentos. Em 2024, o Brasil registrou cerca de 470 mil licenças por transtornos mentais, como ansiedade e depressão, o maior número em uma década, segundo dados do Ministério da Previdência Social.

“Durante muito tempo, saúde mental no trabalho foi tratada como assunto individual: o funcionário que não aguentou, que precisava de terapia, de resiliência. A NR-1 muda a pergunta. Ela olha para o ambiente. Se a meta é impossível, se o gestor humilha, se ninguém consegue se desconectar, o problema não está na pessoa. Está na forma como o trabalho foi organizado”, afirma Aline Graffiette.

 

O risco do “outubro de fachada”

Segundo a especialista, o maior perigo agora é transformar a norma em burocracia: um questionário aplicado uma vez, um relatório arquivado e uma palestra no Dia da Saúde Mental. “Não adianta oferecer aula de meditação para uma equipe que trabalha 12 horas por dia. Isso é tratar o sintoma e manter a causa. A norma pede o contrário: descobrir o que está gerando o adoecimento e mexer nisso”, diz Aline.

Ela destaca que o papel da liderança é central. “O líder é o principal fator de proteção ou de risco dentro de uma empresa. Um gestor que não sabe dar feedback, que cobra por mensagem à meia-noite ou que ignora sinais de esgotamento pode desfazer qualquer programa de bem-estar. Treinar liderança deixou de ser um extra. Agora é gestão de risco.”

Para os trabalhadores, Aline vê a norma como um avanço, mas pede cautela. “A lei dá linguagem para algo que muita gente sentia e não sabia nomear. Mas ninguém precisa esperar a empresa mudar para cuidar de si. Reconhecer os sinais cedo e buscar ajuda continua sendo fundamental.”

 

Canal externo de escuta: segurança para o colaborador e inteligência para a empresa

Atenta às novas demandas do mercado e aos desafios que a adequação à NR-1 traz para as organizações, a Mental One passará a disponibilizar um canal externo de denúncia e acolhimento, com escuta especializada psicológica. A proposta é oferecer aos colaboradores um espaço independente para relatar situações, expressar preocupações e buscar orientação, com mais segurança e confidencialidade.

O atendimento será realizado externamente, e, na empresa contratante, apenas a área de Compliance terá contato com o canal. O primeiro contato do colaborador será tratado como uma queixa, acolhida por meio de escuta especializada psicológica, e não como uma denúncia formal automática. A partir dessa escuta, serão avaliados os encaminhamentos adequados para cada situação.

“A ideia é criar um espaço seguro para que o colaborador possa falar sem medo de exposição ou retaliação. Ao mesmo tempo, a empresa passa a contar com informações qualificadas para compreender os riscos presentes no ambiente de trabalho e agir de forma responsável, sem gerar tumulto ou inibir as pessoas que precisam se manifestar”, explica Aline Graffiette.

O canal integra a proposta de prevenção e gestão dos riscos psicossociais, contribuindo para que as organizações identifiquem situações que merecem atenção e adotem medidas antes que os problemas se agravem. A iniciativa também reforça a importância de separar o acolhimento inicial da apuração formal dos fatos, respeitando a confidencialidade e os procedimentos necessários em cada caso.

 

Cinco passos para sair do discurso, segundo Aline Graffiette

1.   Escutar antes de agir. Fazer um diagnóstico real, com pesquisas anônimas e conversas, para entender o que pesa no dia a dia de cada área.

2.   Olhar para metas e jornada. Revisar carga de trabalho, prazos e horas extras. É aí que mora boa parte do risco.

3.   Preparar as lideranças. Treinar gestores para reconhecer sinais de sofrimento e conduzir conversas difíceis com respeito.

4.   Criar canais seguros. Garantir que denúncias de assédio e pedidos de ajuda tenham resposta, sem retaliação, com mecanismos externos de acolhimento e confidencialidade que favoreçam a confiança dos colaboradores.

5.   Medir e repetir. Acompanhar indicadores como afastamentos, rotatividade e clima, e revisar as ações ao longo do ano, não só em outubro. As informações obtidas por canais de escuta também podem ajudar a identificar pontos de atenção e orientar ações preventivas, preservando a confidencialidade dos envolvidos.

6.   “Saúde mental não é campanha, é cultura. E cultura se vê na segunda-feira de manhã, não no post do dia 10”, resume a especialista.



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