Como o patamar de juros e os fundos estruturados mudaram a composição das gestoras
Nos últimos anos, a indústria de fundos brasileira ficou maior e mudou de perfil. Entre as principais transformações, a renda fixa e os fundos estruturados ganharam peso, ampliando a demanda por soluções de investimento adequadas ao cenário de juros e às necessidades de alocação dos investidores.
Para entender melhor esses grandes movimentos, realizamos um levantamento que mostra como o cenário econômico aparece nas decisões dos investidores e na oferta de produtos por parte das gestoras.
As mudanças abordadas neste relatório ocorreram em um período de forte alteração no ciclo de juros: a Selic chegou a 2% ao ano em 2020 e voltou a 15% em junho de 2025. Com os títulos de Renda Fixa oferecendo retornos atrativos, o investidor passou a ter maior cautela na hora de aceitar oscilações. Esse contexto ajuda a interpretar os movimentos, mas não explica sozinho todas as transformações da indústria.
Neste
contexto, buscamos
nos dados da ANBIMA entender
(i) como cresceu a indústria
de fundos nos últimos
anos, (ii) como esse crescimento se distribuiu
entre gestoras
bancárias e independentes ou
plataformas
de distribuição e (iii) como
o avanço
dos fundos estruturados e dos ETFs mudou a oferta
de
soluções de alocação.
1 -
A indústria cresceu cerca de 67% em menos de
cinco anos
O patrimônio passou
de R$ 6,91 trilhões no fim de 2021 para R$ 11,53 trilhões em setembro de 2026, crescimento nominal de cerca de 67% em menos de cinco anos.
Na comparação mais
longa, desde o fim
de 2019, a indústria
mais que dobrou de
tamanho.
[Gráfico 1]
A indústria de fundos
atingiu
R$ 11,53 trilhões
sob gestão
Esse crescimento não foi distribuído igualmente entre classes e gestoras. O patrimônio incorpora a rentabilidade dos ativos e os movimentos de entrada e saída de dinheiro. Por isso, entender onde a indústria cresceu é tão importante quanto observar seu tamanho total.
A sequência dos gráficos ajuda a separar duas mudanças: a composição dos produtos dentro de cada grupo de gestoras e a participação desses grupos no patrimônio da indústria. Vale pontuar que o levantamento considerou apenas o universo da gestão de recursos.
A amostra reúne gestoras
bancárias, independentes e demais grupos do ranking de gestão, com
cada
gestora classificada individualmente e os nomes consolidados quando
a mesma casa aparece sob razões sociais
distintas. O agrupamento segue o
modelo de
atuação, e não apenas a licença bancária: casas com origem
em banco de investimento ou ligadas a plataformas de distribuição foram
classificadas como independentes/plataformas.
2 - A renda fixa ganhou ainda
mais espaço nas bancárias
O grupo reúne 22 gestoras bancárias
em dezembro de 2019 e 26 em agosto
de 2026, e não
apenas as maiores. Elas tinham
sob gestão
R$ 3,31 trilhões em 2019
e R$ 5,95 trilhões
em agosto de 2026.
A renda fixa saiu de
55% para 62% desse patrimônio, o que equivale
a um estoque que passou de
aproximadamente
R$
1,82 trilhão para R$ 3,69 trilhões, cerca do dobro
do inicial. A previdência manteve
participação de 25%, com
patrimônio que passou
de aproximadamente R$ 828 bilhões para
R$ 1,49 trilhão.
[Gráfico 2]
Composição do patrimônio das gestoras bancárias
A renda fixa já tinha uma presença importante nas gestoras bancárias e ganhou mais peso no período. Na indústria como um todo, a classe recebeu R$ 136 bilhões em captação líquida entre janeiro e setembro de 2026. Esse dado contextualiza a demanda por renda fixa, mas não mede a captação específica das bancárias.
Os percentuais desta seção foram
calculados a partir do ranking de gestão da ANBIMA, com classificação individual por tipo de gestora. Casas ligadas a plataformas de
distribuição foram
consideradas no grupo seguinte,
mesmo quando pertencem a conglomerados com instituição
bancária. Os valores por
categoria
são
aproximações
calculadas com os percentuais arredondados dos gráficos.
3 - Gestoras independentes
passaram a
ter
outra composição
Nas independentes e plataformas, os dados mostram uma mudança
mais intensa. O grupo tinha sob gestão
R$ 1,63 trilhão em dezembro de 2019 e R$ 4,22
trilhões em agosto de 2026, uma
base 2,6 vezes maior. Os fundos
estruturados (FIDC, FIP, FII e
Fiagro) avançaram de
22% para 34% do patrimônio, de aproximadamente R$ 359
bilhões para R$ 1,43
trilhão, e passaram a ser
a maior parcela entre as
categorias apresentadas. A
renda fixa
subiu de 15% para 22%,
de aproximadamente R$ 245 bilhões para
R$ 928 bilhões.
[Gráfico 3]
Composição do patrimônio das independentes e
plataformas
Essa transformação também ocorreu em um contexto de mudança de apetite ao risco por parte dos investidores. De um lado, vimos gestoras mais concentradas em ações e multimercados com uma redução do patrimônio sob gestão (AUM), da estrutura e, em alguns casos, com mudanças no modelo de distribuição ou encerramento das atividades. Também foi possível acompanhar um processo de consolidação da indústria, com fusões, aquisições e incorporação de equipes ou plataformas especializadas, especialmente em crédito e estratégias estruturadas.
Do outro lado,
casas
que já tinham uma
atuação mais diversificada, ou
que conseguiram construir
essa diversificação ao longo
do período, mostraram
maior capacidade de
atravessar o
ciclo. Em alguns casos, isso aconteceu de forma
orgânica; em outros, por meio
da aquisição de times de gestão
especializados em classes que
passaram a ser mais demandadas pelo investidor
4 – No contexto de
transformação, gestoras
independentes e plataformas ampliaram
sua participação:
A mudança também
aparece em quem faz a gestão. Ao avaliar universo de gestão, a soma do
patrimônio é de R$ 5,06 trilhões em dezembro de 2019
e R$ 10,30 trilhões em agosto de 2026, as independentes e plataformas
passaram de
R$ 1,63 trilhão para R$ 4,22 trilhões,
de 32,2% para 41,0% do
total. As gestoras bancárias
saíram de R$
3,31
trilhões para R$ 5,95 trilhões,
enquanto sua participação caiu
de 65,5% para 57,8%. O
restante corresponde aos demais grupos, como MFOs. A
amostra
não equivale ao patrimônio total da
indústria apresentado no
gráfico 1, pois considera apenas gestoras de recursos.
Os dois grupos
cresceram: o bancário multiplicou seu patrimônio por aproximadamente x1,8 e o independente por x2,6. Essa diferença de ritmo explica
a mudança na composição da indústria.
[Gráfico 5]
As dez maiores gestoras ainda concentram cerca de 68% do patrimônio
Apesar da mudança na composição das gestoras, o patrimônio segue concentrado nos maiores nomes. Na amostra analisada, as dez maiores reuniam 68,0% dos recursos em agosto de 2026, ante 68,7% em dezembro de 2019, uma redução de apenas 0,7 ponto percentual. Ou seja, o avanço das independentes e plataformas ocorreu sem uma desconcentração relevante no topo. Há mudanças em quem ocupa esse espaço e nas estratégias oferecidas, mas os grandes grupos continuam reunindo cerca de dois terços do patrimônio.
Lá fora, a concentração também é uma característica importante. Segundo o Thinking Ahead Institute e a Pensions & Investments, as 20 maiores gestoras globais reuniam 47% do patrimônio das 500 maiores ao fim de 2024, ante 45,5% em 2023. Os recortes e as datas são diferentes, portanto os percentuais não são diretamente comparáveis, mas mostram como poucos grandes grupos concentram uma parcela expressiva dos recursos, não só no Brasil mas na indústria de fundos globais.
A XP Asset ilustra esse movimento de crescimento. Seu patrimônio
passou de R$ 51,6 bilhões em dezembro de 2019 para R$ 289,8 bilhões em agosto de
2026, atingindo cerca de 5,6 vezes o valor inicial, ou um aumento de aproximadamente
462%.
5 - ETFs
e parte dos estruturados cresceram
em ritmo mais forte
Entre dezembro de 2022 e agosto de 2026, o patrimônio dos ETFs
mais que triplicou, enquanto o dos FIDCs mais
que dobrou. FIIs e Fiagros, somados, praticamente
dobraram. Os
FIPs cresceram 43,7%,
mostrando que o avanço não foi uniforme
entre os estruturados.
Esse recorte
começa em 2022 e difere da comparação de
composição das
gestoras, iniciada em
2019.
[Gráfico 6]
Crescimento do patrimônio por
produto
de dezembro de 2022
a agosto de 2026
Crescimento percentual e aumento do patrimônio em reais medem dimensões diferentes. A
renda
fixa cresceu 72%, abaixo de ETFs, FIDCs
e FIIs/Fiagros, mas adicionou R$ 2,04
trilhões. A previdência acrescentou R$
701 bilhões e os FIDCs, R$
465 bilhões. Os ETFs cresceram 228%
e adicionaram R$ 87 bilhões,
partindo de
uma base próxima
de R$ 38 bilhões. A ordem do gráfico mostra o ritmo de crescimento; o aumento em reais
mostra a contribuição de
cada produto para a expansão do patrimônio. Esses valores incluem rentabilidade e fluxos,
e não equivalem à captação
líquida.
O que muda para o
investidor
A ampliação da prateleira oferece mais caminhos para construir a carteira. ETFs permitem acessar diferentes mercados, enquanto fundos estruturados ampliam as alternativas de crédito, ativos reais e estratégias especializadas. A exposição internacional também pode diversificar economias, setores e fontes de retorno, embora seu crescimento não seja medido pelos gráficos deste relatório.
Nesse ambiente, pode fazer sentido combinar acesso eficiente aos mercados com gestão ativa seletiva: usar veículos de custos competitivos para acompanhar determinados índices e recorrer à gestão ativa onde seleção, originação e execução possam agregar valor. Para a gestão ativa, isso aumenta a necessidade de demonstrar sua contribuição depois dos custos e considerando o risco assumido.
A escolha, portanto,
vai
além das classes
ou dos produtos e
passa a considerar o papel
de cada estratégia na
carteira: liquidez, horizonte de investimento, risco, custo e aderência
à exposição
desejada devem ser avaliados
junto com o retorno
esperado.
Nos estruturados, seleção
e acompanhamento dos ativos são centrais; nas estratégias de crédito, também
importam a
capacidade
de pagamento e a qualidade
das garantias, quando existentes. Nos ETFs, custo, liquidez
e aderência ao índice de
referência merecem atenção.
Uma indústria com mais alternativas não
reduz a importância da seleção.
Pelo contrário: quanto maior
a prateleira, mais importante se torna entender onde vale
pagar
por
gestão,
onde vale acessar o
mercado de forma eficiente e qual função cada investimento desempenha na carteira.
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