Escuta digital mostra dúvidas básicas sobre “o que é menopausa?”, enquanto pesquisa aponta invalidação de sintomas e falta de orientação terapêutica
Mesmo
afetando cerca de 30 milhões de mulheres no Brasil, a menopausa segue marcada
por dúvidas básicas e por um cenário de subtratamento.¹
Uma escuta digital realizada via Answer the Public no Brasil, em agosto
de 2026, identificou que a pergunta “o que é menopausa?” concentra mais de 18
mil pesquisas mensais, além de apontar confusões conceituais entre climatério e
perimenopausa e tentativas de explicar sintomas isolados sem correlacioná-los à
flutuação hormonal.²
Na prática, a falta de informação se soma à negligência e à deslegitimação dos sintomas vivenciada por muitas mulheres. Uma pesquisa da Ipsos, encomendada pela Bayer (2025), com 800 mulheres no Brasil, mostrou que 44% das respondentes que apresentam sintomas da menopausa não realizam nenhum tipo de tratamento.³
O levantamento também aponta que os sintomas são frequentemente minimizados:
metade das mulheres afirma que seus sintomas de saúde já foram tratados como
“exagero” ou “algo normal”, proporção que sobe para 65% entre mulheres na
perimenopausa.³
O
ginecologista e diretor do departamento médico da Bayer no Brasil e a América
Latina, Eli Lakryc, aponta que a dúvida vai ainda além do tratamento dos
sintomas e da qualidade de vida dessas mulheres, podendo culminar até mesmo em
um cenário com uma gravidez não planejada, que acomete 48% das mulheres na
faixa etária dos 40 aos 44 anos, quando, geralmente, estão na fase da
perimenopausa.4 “A irregularidade menstrual característica desse
período pode gerar a falsa sensação de infertilidade e levar ao abandono de
métodos contraceptivos, mas, aos 45 anos, 45% das mulheres ainda são
biologicamente capazes de engravidar. Nesse contexto, uma gravidez não
planejada pode elevar os riscos obstétricos e clínicos para a mãe e para o
bebê”.
Congresso no Rio de Janeiro coloca o tema em evidência no Mês de
Conscientização sobre a Menopausa
No
Mês de Conscientização sobre a Menopausa, o Rio de Janeiro sedia o 20º
congresso mundial sobre o tema. “Recentemente tivemos grandes avanços na desmistificação
dos tratamentos relacionados à menopausa, mais pessoas falando sobre o tema e
compartilhando histórias, mas ainda há um longo caminho a percorrermos”, afirma
Lakryc.
Um
deles, de acordo com o especialista, é a falta de uma comunicação mais objetiva
na conversa entre médicos e pacientes. “Vimos em nossa pesquisa com a Ipsos que
53% das respondentes afirmaram que seus médicos nunca apresentaram opções de
reposição hormonal, ou seja, o tratamento mais seguro e eficaz disponível para
o controle dos sintomas vasomotores e para a preservação da massa óssea das
mulheres na menopausa”.
O medo ao redor da terapia de reposição hormonal tem nome: estudo WHI. “Em 2002, a divulgação dos primeiros resultados do estudo Women’s Health Initiative (WHI), sugeriu, equivocadamente, uma correlação entre a terapia e o câncer de mama e isso contribuiu drasticamente para uma redução na utilização do tratamento”, explica.
Em 2025, a partir de novas análises, o tema ganhou um novo capítulo quando a Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória dos Estados Unidos, determinou a retirada das ‘boxed warnings’ (advertências da caixa). A mudança visou transmitir informações atualizadas e precisas sobre os riscos e benefícios da TRH, marcando o fim de uma era de medo e desinformação. “Nesse percurso, o DIU hormonal pode ser um aliado importante para algumas mulheres, especialmente na perimenopausa, por contribuir para o controle do sangramento uterino, oferecer contracepção em uma fase em que a gravidez ainda é possível e, em determinados casos, integrar estratégias terapêuticas associadas à reposição hormonal para a proteção endometrial, sempre sob orientação médica”, finaliza Lakryc.
Informação
para separar mitos de verdades
A
menopausa é, ainda, um assunto cercado de crenças populares e mitos que também
podem gerar entraves na jornada de acesso ao cuidado. Lakryc esclarece algumas
das principais afirmações que podem confundir as mulheres e levarem questões
médicas que necessitam de atenção a serem normalizadas:
“Menopausa é um problema de saúde que pode ser evitado” — Mito. A menopausa é uma fase biológica natural da vida,
marcada pelo fim definitivo dos ciclos menstruais. Entretanto, essa constatação
não significa que os sintomas associados a essa transição devam ser ignorados.
Todas as pessoas devem procurar orientação médica para lidar com sintomas que
as incomodem e afetem a qualidade de vida.
“Menopausa só acontece depois dos 50 anos.” — Mito. Embora a menopausa ocorra, em geral, entre os 45 e
55 anos, algumas mulheres podem passar por ela mais cedo, inclusive antes dos
40 anos. Manter consultas e exames ginecológicos em dia é fundamental para acompanhar
essa situação.
“Ondas de calor são o único ou o principal problema da menopausa.” —
Mito. Os fogachos são um dos
sintomas mais conhecidos, mas a transição menopausal pode estar associada a
alterações no sono, humor, sexualidade, ressecamento vaginal, irregularidade
menstrual, sintomas geniturinários e impactos sobre a saúde óssea, entre
outros. Cada mulher experiencia esse momento de uma forma única e, por isso, o
cuidado individualizado é tão importante.
“Tenho ciclos menstruais irregulares e mais de 40 anos de idade, mas
ainda posso engravidar.” — Verdade.
Independentemente da idade, enquanto houver ciclos menstruais, mesmo que
irregulares, a ovulação ainda pode ocorrer. Por isso, a necessidade de
contracepção deve ser discutida individualmente com o ginecologista.
“Toda mulher terá sintomas intensos na menopausa.” — Mito. A experiência de cada mulher é individual. Algumas
apresentam poucos ou nenhum sintoma, enquanto outras podem ter manifestações
que interferem significativamente na rotina. Para aquelas que precisam de
tratamento, existem alternativas hormonais e não hormonais, que devem ser avaliadas
de acordo com os sintomas, o histórico de saúde e as preferências de cada
mulher.
“A terapia hormonal é um tratamento perigoso.” — Mito. A terapia hormonal é o padrão-ouro de tratamento e
resultados comprovadamente eficazes no manejo dos sintomas da menopausa. Porém,
assim como qualquer outra terapia, ela não é indicada indiscriminadamente para
todos os públicos. Pacientes com histórico de câncer de mama, por exemplo, têm
contraindicação ao uso. A decisão sobre o tratamento sempre deve ser feita de forma
individualizada e com acompanhamento médico.
“Sangramento irregular na perimenopausa é normal.” — Mito. Alterações no padrão menstrual são comuns durante
a perimenopausa, mas sangramentos anormais, intensos ou persistentes devem ser
avaliados por um profissional de saúde para identificar sua causa e definir a
melhor conduta de tratamento.
“O DIU hormonal pode ter um papel além da contracepção.” — Verdade. Para algumas mulheres na perimenopausa, o DIU
hormonal pode contribuir para o controle do sangramento uterino e oferecer
contracepção. Em determinadas estratégias terapêuticas, também pode ser
utilizado para proteção endometrial associada à terapia hormonal, sempre
conforme avaliação e orientação médica.
Referências:
- SENADO FEDERAL. Mulheres na menopausa: invisibilidade deixa
tratamento fora da agenda pública. Brasília, DF, 2024. Disponível em: .
Acesso em: 5 ago. 2026.
- Answer The Public. Termo “Menopausa”. Brasil. Coleta em 23 de
agosto de 2026.
- Ipsos.
Pesquisa Saúde Feminina, encomendada pela Bayer. 2025.
4. JOHNSON-MALLARD,
Versie; KOSTAS-POLSTON, Elizabeth A.; WOODS, Nancy Fugate; SIMMONDS, Katherine
E.; ALEXANDER, Ivy M.; TAYLOR, Diana. Unintended pregnancy: a framework for
prevention and options for midlife women in the US. Women's Midlife Health,
v. 3, art. 8, 2017. DOI: 10.1186/s40695-017-0027-5.
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