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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Itália: trabalhadores estrangeiros geram quase € 196 bilhões para a economia

Imagem: IA
Relatório divulgado nesta terça-feira aponta participação de 9,7% na riqueza nacional, crescimento de 21,3% no empreendedorismo estrangeiro e demanda por novos profissionais.

 

A contribuição dos trabalhadores estrangeiros para a economia italiana alcançou € 195,98 bilhões em 2025, o equivalente a 9,7% do valor agregado nacional. Os dados fazem parte do Relatório 2026 sobre a Economia da Imigração, apresentado nesta terça-feira, 13 de outubro, pela Fundação Leone Moressa, no Conselho Nacional de Economia e Trabalho (CNEL), em Roma. O levantamento também revela o crescimento do empreendedorismo entre pessoas nascidas no exterior e a necessidade de renovação da força de trabalho em um país que enfrenta o envelhecimento da população. 

Segundo o estudo, aproximadamente 2,6 milhões de estrangeiros estão empregados na Itália, representando 10,7% dos trabalhadores. Além da participação em setores essenciais, a presença internacional também se destaca na criação de empresas e na arrecadação tributária.

 Para a Dra. Ana Carolina Campara Brittes, advogada especialista em Direito Migratório, CEO da Campara Cidadania, Vistos & Viagens e membro da Comissão de Cidadania Italiana da Associação Brasileira de Advogados (ABA), os números reforçam a importância de compreender a imigração também como um instrumento de desenvolvimento econômico. 

“A Itália precisa de profissionais, empreendedores e pessoas capazes de contribuir para o crescimento de sua economia. Os dados mostram que a imigração não representa apenas uma resposta à necessidade de mão de obra, mas também uma oportunidade de atrair conhecimentos, experiências e investimentos. Para brasileiros que desejam construir uma trajetória internacional, esse cenário merece atenção”, analisa.

 

Empreendedorismo estrangeiro cresce 21,3% em dez anos

Um dos destaques do relatório é o avanço do empreendedorismo. Em 2025, a Itália registrou aproximadamente 796 mil empreendedores nascidos no exterior, o equivalente a 10,8% do total do país.

Entre 2015 e 2025, esse grupo cresceu 21,3%, enquanto o número de empreendedores nascidos na Itália apresentou redução de 5,2%. 

Os números indicam uma transformação na participação econômica dos estrangeiros, que não se limita à ocupação de postos de trabalho, mas também envolve a criação e a administração de negócios. 

“O crescimento do empreendedorismo estrangeiro mostra que essas pessoas não participam apenas como trabalhadores, mas também como responsáveis pela abertura e manutenção de empresas. Para brasileiros interessados em investir na Itália, é importante conhecer a estrutura jurídica, as obrigações tributárias e as condições para desenvolver uma atividade empresarial no país”, explica a Dra. Ana.

 

Itália precisará de 3,7 milhões de trabalhadores até 2029

Outro aspecto relevante do levantamento está relacionado às mudanças demográficas. A Itália enfrenta um processo prolongado de envelhecimento populacional, acompanhado pela redução dos nascimentos e pela necessidade de substituir profissionais que deixam o mercado de trabalho. 

De acordo com projeções do sistema Unioncamere-Excelsior, citadas no relatório, o país terá necessidade de aproximadamente 3,7 milhões de trabalhadores no período de 2025 a 2029, principalmente para reposição de profissionais que se aposentarão. 

“O envelhecimento da população italiana é uma questão estrutural. À medida que profissionais se aposentam, empresas e serviços precisam encontrar pessoas preparadas para dar continuidade às atividades. A experiência profissional e as competências técnicas de trabalhadores estrangeiros podem contribuir para essa renovação e para a continuidade de setores importantes da economia”, afirma a Dra. Ana.

 

Onde os estrangeiros têm maior participação econômica

O estudo mostra que a contribuição dos trabalhadores internacionais está distribuída por diferentes atividades produtivas.

Entre os indicadores apresentados pela Fundação Leone Moressa estão: 

  • Agricultura: trabalhadores estrangeiros respondem por 21,3% do valor agregado do setor;
  • Construção civil: participação de 18,4%;
  • Hotelaria e restaurantes: contribuição de 14,4%;
  • Indústria de transformação: aproximadamente 472 mil trabalhadores estrangeiros e € 40,6 bilhões em valor agregado;
  • Serviços: mais de um milhão de trabalhadores estrangeiros e cerca de € 94 bilhões em valor agregado. 

A presença estrangeira abrange desde atividades operacionais até funções técnicas, administrativas e empresariais, demonstrando sua importância para diferentes segmentos da economia italiana.

 

Profissionais qualificados: oportunidades em diferentes áreas

A necessidade de renovação da força de trabalho também chama a atenção para profissionais com formação superior e experiência especializada. Saúde, engenharia, tecnologia e outras áreas técnicas representam possibilidades para brasileiros interessados em desenvolver uma carreira internacional. 

Na área da saúde, o envelhecimento da população e a aposentadoria de profissionais ampliam a necessidade de reposição de trabalhadores.

Um estudo do Banco da Itália aponta que, até 2032, aproximadamente 25% dos médicos e 9% dos enfermeiros que atuavam no sistema público de saúde no fim de 2022 deverão se aposentar. 

Outro indicador vem da Federação Nacional das Ordens das Profissões de Enfermagem (FNOPI): em setembro de 2025, a Itália contava com mais de 45 mil enfermeiros nascidos no exterior registrados no país. 

“A saúde é um exemplo importante de como a participação de profissionais estrangeiros pode contribuir para atender às necessidades da população italiana. Médicos, enfermeiros e outros especialistas brasileiros possuem formação e experiência que podem encontrar espaço nesse cenário. O mesmo vale para profissionais de engenharia, tecnologia e outras atividades que demandam conhecimentos especializados”, destaca a Dra. Ana. 

Para exercer profissões regulamentadas, como medicina, enfermagem e determinadas especialidades da engenharia, é necessário observar os procedimentos de reconhecimento de diplomas e qualificações profissionais. As exigências variam conforme a atividade e podem incluir inscrição em órgãos profissionais e comprovação de conhecimentos específicos.

Entre os principais aspectos que brasileiros interessados em trabalhar na Itália devem considerar estão: 

  • Reconhecimento de diplomas: verificar as exigências para o exercício da profissão;
  • Idioma italiano: conhecer o nível de proficiência necessário para a atividade;
  • Autorização de trabalho: identificar a modalidade migratória compatível com a atuação profissional;
  • Cidadania italiana ou europeia: compreender os direitos de residência e trabalho decorrentes dessa condição;
  • Mercado de trabalho: pesquisar oportunidades, remuneração e perspectivas de carreira. 

“A internacionalização de uma carreira envolve compreender como a experiência adquirida no Brasil pode ser aproveitada em outro país. Para quem possui formação especializada, conhecer as características do mercado italiano é fundamental para identificar oportunidades compatíveis com seu perfil profissional”, explica a advogada.

 

Quase 30% dos estrangeiros trabalham em funções não qualificadas

Apesar da contribuição econômica, o relatório também revela uma diferença importante na ocupação dos postos de trabalho.

Segundo o levantamento, 29,9% dos trabalhadores estrangeiros exercem funções classificadas como não qualificadas, percentual significativamente superior aos 8% registrados entre os trabalhadores italianos. 

O indicador evidencia uma questão que vai além da necessidade de mão de obra: o aproveitamento do potencial profissional de pessoas que chegam ao país com diferentes níveis de escolaridade, experiência e especialização. 

“Quando um profissional com formação e experiência trabalha em uma atividade muito abaixo de sua capacidade, não é apenas ele que deixa de aproveitar seu potencial. A própria economia perde a oportunidade de incorporar conhecimentos e competências que poderiam contribuir para seu desenvolvimento. Valorizar esses talentos é tão importante quanto ampliar a participação dos estrangeiros no mercado de trabalho”, observa a Dra. Ana.

 

Estrangeiros também contribuem para as contas públicas

A participação econômica dos imigrantes também aparece nos indicadores fiscais apresentados pela Fundação Leone Moressa.

De acordo com o relatório, os aproximadamente 5,2 milhões de contribuintes nascidos no exterior declararam € 87,9 bilhões em rendimentos referentes a 2024 e recolheram € 12,6 bilhões em imposto de renda das pessoas físicas, conhecido na Itália como IRPEF.

O estudo também estima um saldo positivo de € 1 bilhão nas contas públicas relacionadas à população estrangeira residente, considerando receitas tributárias e previdenciárias e despesas atribuídas a serviços públicos.

Os principais números são: 

  • € 45 bilhões em receitas fiscais e contribuições;
  • € 44 bilhões em despesas públicas estimadas;
  • € 1 bilhão de saldo positivo;
  • € 12,6 bilhões recolhidos em imposto de renda por contribuintes nascidos no exterior. 

O resultado considera a metodologia utilizada pela Fundação para estimar a contribuição fiscal e os gastos públicos associados à população estrangeira.

 

Perspectivas para brasileiros

Os resultados do relatório apontam para uma economia em transformação, na qual a presença estrangeira participa da geração de riqueza, da criação de empresas e da renovação da força de trabalho.

Para brasileiros interessados em viver na Itália, esse cenário reúne perspectivas de desenvolvimento profissional e empresarial, especialmente para aqueles que desejam aproveitar sua formação, experiência ou capacidade empreendedora no mercado europeu. 

“Os números mostram uma Itália que precisa renovar sua força de trabalho e que já conta com uma contribuição expressiva de pessoas nascidas no exterior. Para os brasileiros, existem diferentes caminhos, seja por meio de uma carreira profissional, do empreendedorismo ou da cidadania italiana. O importante é compreender as possibilidades e avaliar qual delas corresponde melhor aos objetivos de cada pessoa”, conclui a Dra. Ana Carolina Campara Brittes.


Sobre a pesquisa

O Relatório 2026 sobre a Economia da Imigração é produzido pela Fundação Leone Moressa, instituição italiana especializada em estudos sobre os impactos econômicos e sociais da imigração. A publicação anual, editada pela Il Mulino desde 2011, utiliza indicadores de emprego, empreendedorismo, demografia e finanças públicas.

A edição deste ano, dedicada ao tema “Da mão de obra ao valor no trabalho e na sociedade”, foi apresentada em 13 de outubro, em Roma, no Conselho Nacional de Economia e Trabalho (CNEL).


Ana Carolina Campara Brittes - * CEO e sócia-fundadora da Campara Cidadania, Vistos & Viagens; * Membro da Comissão de Cidadania Italiana da Associação Brasileira de Advogados (ABA); * Membro da ABRINTER (Associação Brasileira de Advogados Internacionalistas); * Membro do IBDESC (Instituto Brasileiro de Direito Estrangeiro e Comparado); * Advogada no Brasil e em Portugal; * Pós-graduada em Direito Público pela FMP (Fundação Escola Superior do Ministério Público – RS); * MBA em Direito Migratório pela EBPÓS; * MBA em Instrumentos Internacionais de Planejamento Patrimonial e Sucessório pela EBPÓS (em andamento).


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