Projeto Olha o Clima, Litoral! combina inteligência artificial, drones e monitoramento da fauna para acompanhar o retorno da biodiversidade após a remoção de espécies invasoras
Os sons da floresta podem revelar se um manguezal
voltou a estar saudável. No litoral do Paraná, pesquisadores do projeto Olha o
Clima, Litoral!, realizado pelo Mater Natura – Instituto de Estudos
Ambientais, estão usando inteligência artificial (IA) para acompanhar a
recuperação da biodiversidade em áreas restauradas da Baía de Antonina (PR). A
partir de registros sonoros coletados por gravadores autônomos, a equipe usa um
sistema com IA capaz de auxiliar na identificação dos cantos das aves, criando
uma nova forma de avaliar os resultados da restauração ecológica. A iniciativa
também combina drones, georreferenciamento e algoritmos que reconhecem espécies
de aves pelo canto.
O uso de tecnologias sustentáveis marca uma nova
etapa do projeto, que iniciou recentemente sua segunda fase com a meta de
restaurar até 15 hectares de manguezais e brejos salinos até 2030. Após
recuperar 6,55 hectares entre 2022 e 2025, a iniciativa avança agora para a
maior área já contemplada pelo projeto: cerca de seis hectares às margens do
rio Lagoinha, em Antonina (PR). O local é um dos trechos mais afetados pela
invasão das braquiárias-d’água (Urochloa arrecta e U. mutica),
espécie exótica invasora que ameaça alguns dos ecossistemas mais importantes
para a conservação da biodiversidade e para a adaptação às mudanças climáticas.
Além das ações de restauração ecológica, a
iniciativa também promove atividades de educação ambiental, mobilização de
comunidades pesqueiras e apoio técnico aos municípios para fortalecer
estratégias de adaptação climática. O projeto é realizado em parceria com a
Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
Mais do que acompanhar a recuperação da vegetação,
o desafio agora é compreender como a fauna responde às mudanças no ambiente
restaurado. Esse trabalho dependia antes exclusivamente da observação em campo
feita por especialistas. Agora, gravadores autônomos permanecem durante dias
nas áreas restauradas, registrando continuamente toda a paisagem sonora do manguezal.
Os equipamentos produzem milhares de horas de
gravação, que passam a alimentar um algoritmo desenvolvido por outros grupos de
pesquisas e amplamente utilizados na bioacústica, em linguagem Python,
utilizada em aplicações de inteligência artificial. O sistema está sendo
treinado para reconhecer automaticamente as espécies a partir do espectrograma,
que é a representação visual dos sons emitidos pelas aves. A expectativa é que,
até o final de setembro, a ferramenta esteja treinada para reconhecer um conjunto
inicial de espécies. Para aves com vocalizações mais complexas, o processo de
identificação pode demandar um período maior de aprimoramento.
Segundo Larissa Teixeira de Andrade, bióloga e
responsável pela frente de restauração do projeto Olha o Clima, Litoral!,
a expectativa é que a IA reduza significativamente o tempo necessário para
analisar os registros sonoros e aumente a precisão do monitoramento. “Espécies
raras ou de ocorrência esporádica, que muitas vezes passam despercebidas
durante visitas de campo, poderão ser detectadas com mais facilidade",
complementa.
Além disso, o objetivo também é ampliar o
conhecimento sobre espécies ameaçadas de extinção que podem estar utilizando as
áreas restauradas. Uma delas, o bate-bico (Phleocryptes melanops), já foi
registrada durante os monitoramentos recentes. “Tem várias espécies que a gente
acredita que encontrariam um ambiente perfeito no local e existe a
possibilidade de termos perdido alguns registros, porque as aves não estavam
sendo monitoradas naquele momento. Não é que elas não estavam ali, mas a gente
não conseguia estar no mesmo lugar e no mesmo dia que elas”, explica.
O monitoramento acústico permite gerar uma
quantidade maior de dados e acompanhar de forma mais precisa a dinâmica da
biodiversidade ao longo do processo de restauração. A tecnologia complementa
outras estratégias adotadas pelo projeto, como o uso de drones equipados com
sensores capazes de medir o vigor da vegetação por meio do Índice de Vegetação
por Diferença Normalizada (NDVI), ferramenta amplamente utilizada na
agricultura de precisão.
Espécies invasoras também são
monitoradas
A tecnologia sustentável também ajuda a compreender
os impactos causados pela braquiária-d’água, espécie exótica invasora que
compromete o equilíbrio dos ecossistemas ao sufocar a vegetação nativa e
dificultar a sobrevivência de diversas espécies da fauna. Na primeira fase do
projeto, foram removidas 654,8 toneladas da planta invasora.
Ainda de acordo com Larissa, antes do início dos
trabalhos de remoção da planta, toda a área é mapeada com drones, que produzem
centenas de imagens utilizadas no planejamento da restauração. O levantamento
permite identificar as condições do terreno, delimitar as áreas invadidas pela
braquiária-d'água e registrar, com precisão, cada ponto monitorado ao longo do
projeto.
Além de acompanhar a recuperação do ecossistema, as
tecnologias ajudam a compreender como a braquiária responde às condições
ambientais do estuário e quais fatores favorecem sua expansão. “Se, em
situações normais, ela cresce cerca de sete centímetros por dia e, em condições
de estresse, pode crescer ainda mais, imagina o potencial destrutivo que ela
pode ter. Ela pode avançar muito mais sobre os manguezais, caso essa hipótese
se confirme. Por isso, estamos fazendo esse mapeamento das áreas com presença
de braquiárias para entender como essa dinâmica acontece e quais são os
impactos”, comenta a pesquisadora.
Atualmente, mais de 200 hectares de manguezais e
brejos salinos da baía de Antonina encontram-se ocupados pela
braquiária-d’água. Em alguns trechos, a planta forma verdadeiros tapetes
flutuantes capazes de fechar canais naturais, alterar o fluxo da água e
comprometer toda a dinâmica do ecossistema.
Os primeiros resultados da restauração dos
manguezais do projeto Olha o Clima, Litoral! já indicam que o
esforço começa a produzir efeitos positivos na fauna. Segundo a bióloga Maria
Fernanda, responsável pelo monitoramento de aves no projeto, houve um aumento
de 28 espécies de aves nas áreas restauradas. “Observamos o retorno de espécies
ameaçadas que não eram mais registradas nas áreas, como o bate-bico (Phleocryptes
melanops) e o sargento (Agelasticus thilius). Ambas são aves
que possuem uma preferência pelas frutificações dos capins nativos, como a dos
pirizais (Schoenoplectus californicus) que retornaram com abundância
após a restauração. Assim como essas duas espécies, houve a aparição e um
grande aumento de carretões (Agelasticus cyanopus), tendo sido
contabilizado um grupo de mais de 40 indivíduos da espécie ocupando e se
alimentando nas áreas”.
O acompanhamento do bicudinho-do-brejo (Formicivora
acutirostris), ave considerada um importante indicador da qualidade
ambiental, também mostra mudanças promissoras. Por ser uma espécie altamente
territorialista e com baixa capacidade de deslocamento, o comportamento desses
animais ajuda os pesquisadores a compreender as condições do habitat
restaurado.
“Ele vive praticamente no mesmo lugar a vida
inteira. Não voa mais do que 40 metros por vôo, então, para se ter uma ideia, é
um animal que realmente não se desloca para muito longe. É uma espécie bastante
territorialista, então usamos o monitoramento dos bicudinhos para entender como
está a dinâmica desses territórios”, afirma Larissa.
A expectativa é que, nos próximos meses, a IA passe a identificar espécies com maior rapidez e precisão, tornando o acompanhamento da biodiversidade mais eficiente e produzindo uma base inédita de informações para projetos de restauração de manguezais no litoral paranaense. Para saber mais sobre o projeto Olha o Clima, Litoral!, acesse https://climalitoral.org.br/.
Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais
maternatura.org.br

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