Entre vistos, planejamento financeiro, carreira e
educação dos filhos, especialista explica quais decisões tomaria agora para
organizar uma mudança de país no próximo ano.
Faltam 79 dias para terminar 2026. Se eu estivesse
no Brasil e tivesse como objetivo mudar com minha família para os Estados
Unidos em 2027, começaria a me preparar imediatamente. Mas minha primeira
decisão não seria comprar passagens, procurar uma casa em Orlando ou pesquisar
escolas em Miami. Eu começaria entendendo se tenho condições jurídicas,
profissionais e financeiras de realizar essa mudança.
Ao longo de mais de 20 anos atuando com Direito
Internacional e imigração, acompanhei famílias que conseguiram construir uma
nova vida nos Estados Unidos e outras que enfrentaram dificuldades porque não
se prepararam adequadamente. Mudar de país envolve muito mais do que conseguir
um visto. Estamos falando de carreira, patrimônio, impostos, educação dos
filhos, saúde e adaptação cultural.
Se eu estivesse começando esse processo hoje,
concentraria minha atenção em cinco decisões fundamentais.
- Escolheria
o visto antes de escolher a cidade
O primeiro passo seria descobrir qual categoria
migratória realmente combina com meu perfil. Para profissionais qualificados,
eu avaliaria inicialmente o EB-1 e o EB-2 NIW, duas possibilidades de obtenção
da residência permanente, desde que cumpridos os requisitos legais.
O EB-1 pode atender profissionais com
reconhecimento extraordinário em suas áreas, além de outros perfis previstos na
legislação. Já o EB-2 NIW permite que determinados profissionais com formação
avançada ou habilidade excepcional solicitem a dispensa de uma oferta de
emprego e da certificação trabalhista, desde que demonstrem que seu projeto
atende ao interesse nacional americano.
Para empresários, também consideraria o L-1,
voltado a transferências entre empresas relacionadas, ou o EB-5, destinado a
investidores.
No EB-5, os valores mínimos previstos em outubro de
2026 são de US$ 800 mil para investimentos elegíveis a condições especiais e
US$ 1,05 milhão para os demais projetos, com exigência de criação de pelo menos
dez empregos qualificados. A legislação prevê reajuste desses valores em
janeiro de 2027.
Mas existe um cuidado essencial: a aprovação de uma
petição migratória não significa necessariamente que o Green Card estará
disponível imediatamente.
O Visa Bulletin de outubro de 2026 mostra que a
categoria EB-1 está sem fila de disponibilidade para brasileiros nascidos no
Brasil, enquanto o EB-2 apresenta uma data de corte anterior. Isso pode
influenciar diretamente o prazo de conclusão do processo.
Por isso, eu não venderia meus bens nem pediria
demissão antes de entender o cronograma migratório. Começar o processo em 2026
não garante a mudança em 2027.
- Reservaria
dinheiro para manter minha família por pelo menos um ano
Uma das maiores preocupações que eu teria seria a
estabilidade financeira.
Muitos brasileiros calculam o custo da passagem, do
aluguel e da documentação, mas esquecem que podem levar meses para conseguir
emprego, estruturar um negócio ou alcançar uma renda estável nos Estados Unidos.
Se eu estivesse me mudando com minha esposa e dois
filhos, trabalharia com uma estimativa de despesas mensais entre US$ 5 mil e
US$ 10 mil, dependendo da cidade, da moradia, do transporte e do seguro-saúde.
Isso representaria uma reserva de US$ 60 mil a US$
120 mil para um ano, sem incluir necessariamente todas as despesas de
instalação, honorários jurídicos, custos migratórios ou mensalidades escolares.
Para uma família com padrão intermediário de
consumo, eu consideraria um planejamento financeiro próximo de US$ 100 mil a
US$ 120 mil, incluindo uma margem para os primeiros gastos. Esses números são
estimativas ilustrativas, não exigências legais ou médias oficiais.
Também levaria em conta o câmbio. Uma reserva de
US$ 100 mil equivale a R$ 500 mil com o dólar a R$ 5, mas sobe para R$ 600 mil
se a cotação chegar a R$ 6.
Minha recomendação seria não depender de conseguir
emprego imediatamente após desembarcar. Uma mudança internacional não pode
começar com a família pressionada financeiramente.
- Se
tivesse filhos, a educação definiria onde eu iria morar
Se meus filhos tivessem até 12 anos, escolheria a
cidade considerando principalmente a qualidade das escolas, a segurança, o
custo da moradia e a adaptação ao idioma.
Nos Estados Unidos, a escola pública costuma estar
vinculada ao endereço residencial. Isso significa que escolher uma casa sem
pesquisar previamente o distrito escolar pode comprometer o planejamento
familiar.
Eu também verificaria os programas de apoio para
estudantes que ainda não dominam o inglês e tentaria organizar a mudança de
acordo com o calendário escolar americano, que geralmente começa entre agosto e
setembro.
Agora, se tivesse um filho de 16 ou 17 anos, minha
preocupação seria ainda maior.
Nesse caso, eu pesquisaria imediatamente as
exigências de ingresso nas universidades, os prazos de inscrição, os custos e
as possibilidades de bolsas de estudo.
Também avaliaria a situação migratória do
adolescente. Em determinadas categorias, filhos solteiros menores de 21 anos
podem acompanhar os pais, mas existem regras específicas que precisam ser
analisadas para evitar problemas relacionados à idade durante o processamento.
Outro detalhe importante: ter um Green Card não
garante automaticamente o pagamento de mensalidades universitárias reduzidas.
Cada estado e instituição possui critérios próprios.
Para uma família com filhos próximos da faculdade,
essa despesa pode representar uma parcela significativa do orçamento nos anos
seguintes.
- Prepararia
minha carreira e não deixaria tudo para depois da mudança
Se minha intenção fosse solicitar um EB-1 ou EB-2
NIW, começaria ainda em outubro a reunir diplomas, certificados, comprovantes
de experiência, publicações, projetos e documentos que demonstrassem minhas
realizações profissionais.
Também procuraria entender como funciona minha
profissão nos Estados Unidos. Algumas atividades exigem validação de diploma,
licenças estaduais ou certificações específicas.
Outro ponto seria pesquisar o mercado de trabalho
antes de escolher o destino.
Eu não iria automaticamente para Miami ou Orlando
apenas porque são cidades conhecidas pelos brasileiros. Compararia
oportunidades profissionais, salários, impostos, custo de vida e qualidade das
escolas em diferentes regiões.
Se fosse empresário, analisaria a viabilidade
econômica do negócio, as despesas operacionais e a estrutura tributária.
Também procuraria orientação sobre a saída fiscal
do Brasil e as obrigações tributárias americanas. Dependendo da situação, o
imigrante pode precisar declarar rendimentos e determinados ativos mantidos no
exterior.
O Green Card pode permitir que uma pessoa viva e
trabalhe permanentemente nos Estados Unidos, mas não garante emprego,
reconhecimento automático de diplomas ou sucesso financeiro.
- Acompanharia
Trump, mas não deixaria a política decidir meu futuro
É impossível planejar uma mudança para os Estados
Unidos em 2027 sem considerar o governo de Donald Trump e seus reflexos sobre a
imigração.
Entretanto, eu separaria as medidas de fiscalização
migratória das regras aplicáveis aos profissionais qualificados, empresários e
investidores que buscam residência permanente.
As categorias EB-1, EB-2 e EB-5 possuem requisitos
específicos, e mudanças administrativas podem influenciar procedimentos,
exigências documentais e prazos.
Eu acompanharia as atualizações oficiais, mas não
tomaria decisões com base em vídeos alarmistas ou promessas de aprovação
garantida.
Independentemente de quem ocupa a Casa Branca, a
consistência da documentação, a elegibilidade jurídica e a capacidade
financeira continuam sendo elementos fundamentais de um projeto migratório.
O que eu faria, na prática, até 31 de dezembro?
Nos primeiros 20 dias, procuraria uma avaliação
jurídica para identificar as categorias migratórias compatíveis com meu perfil.
Em seguida, começaria a reunir documentos profissionais, acadêmicos e
financeiros.
Até o fim de novembro, teria uma estimativa do
custo de vida em pelo menos três cidades americanas, incluindo moradia,
escolas, saúde e transporte. Também avaliaria o mercado de trabalho e a
necessidade de validação profissional.
Em dezembro, organizaria a reserva financeira,
verificaria as questões tributárias e definiria um cronograma familiar. Se a
documentação estivesse pronta e houvesse fundamento jurídico, avaliaria a
possibilidade de iniciar o processo migratório ainda em 2026.
Meu objetivo seria chegar a janeiro de 2027 com um
planejamento estruturado, sabendo quais decisões dependem de mim e quais
dependem das autoridades americanas.
Depois de tantos anos acompanhando famílias
brasileiras, aprendi que o maior erro não é demorar para mudar de país. É tomar
decisões irreversíveis antes de estar preparado.
Os Estados Unidos podem oferecer oportunidades
profissionais, educacionais e empresariais, mas a mudança exige recursos,
adaptação e disposição para enfrentar dificuldades.
Se eu quisesse morar nos Estados Unidos em 2027,
começaria hoje. Não porque exista uma corrida para deixar o Brasil, mas porque
uma decisão dessa dimensão não pode ser tomada por impulso.
Ainda temos 79 dias até o fim do ano. Talvez não seja tempo suficiente para conseguir um Green Card, mas é tempo suficiente para começar a construir um projeto migratório com responsabilidade.
Daniel Toledo - advogado da Toledo e Advogados Associados especializado em Direito Internacional, consultor de negócios internacionais, palestrante e sócio da LeeToledo PLLC. Toledo também possui um canal no YouTube com mais de 1 milhão de seguidores com dicas para quem deseja morar, trabalhar ou empreender internacionalmente. Ele também é membro efetivo da Comissão de Relações Internacionais da OAB Santos, professor honorário da Universidade Oxford - Reino Unido, consultor em protocolos diplomáticos do Instituto Americano de Diplomacia e Direitos Humanos USIDHR.
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