Com campanhas,
lançamentos e investimentos sendo definidos para o próximo ano, oscilações do
clima colocam em discussão modelos de planejamento baseados em estações cada
vez menos previsíveis
O calendário de marketing ainda acompanha as
estações. O consumidor, talvez não. Enquanto empresas começam a definir
campanhas, lançamentos, estoques e investimentos para 2027, mudanças no
comportamento do clima colocam em discussão uma lógica que orienta há décadas
boa parte do planejamento das marcas: associar determinados períodos do ano a
padrões relativamente previsíveis de temperatura e, consequentemente, de
consumo.
Verão começa em dezembro, inverno em junho e, a
partir dessas referências, são organizadas coleções, campanhas, abastecimento e
ativações comerciais. Na prática, porém, a chegada de uma estação não significa
necessariamente que o consumidor encontrará as condições climáticas
tradicionalmente associadas a ela. Se o calor se antecipa, o frio demora a
chegar ou períodos de chuva se prolongam além do esperado, a data continua a
mesma, mas a necessidade de consumo pode mudar.
O El Niño torna essa discussão especialmente
relevante para o planejamento de 2027. O fenômeno interfere nos padrões de temperatura
e precipitação e seus efeitos não são uniformes no Brasil. Segundo o Instituto
Nacional de Meteorologia (INMET), o El Niño deve alcançar intensidade muito
forte entre outubro e dezembro de 2026, cenário que aumenta a probabilidade de
impactos climáticos distintos entre as regiões do país. Mais do que uma questão
meteorológica, esse contexto ajuda a colocar uma pergunta na mesa das empresas:
a sazonalidade deve continuar sendo definida principalmente pelo calendário?
Talvez seja necessário começar a entendê-la também
como uma condição. Uma categoria tradicionalmente associada ao verão, por
exemplo, pode encontrar demanda relevante antes do período previsto se uma
sequência de temperaturas elevadas antecipar determinados hábitos de consumo.
Da mesma forma, produtos ligados ao frio podem perder força se a queda de
temperatura esperada para determinado mês não acontecer. Nesse cenário, a
estação oficial continua sendo uma referência importante, mas deixa de ser
suficiente, sozinha, para explicar o momento de consumo.
Dados da Scanntech ajudam a dimensionar essa
relação. Um levantamento que cruzou informações de vendas com registros de
aproximadamente 600 estações meteorológicas do INMET, entre janeiro de 2022 e
março de 2026, identificou que, a cada aumento de 1°C na temperatura, o volume
de bebidas sensíveis ao clima cresce, em média, 4,1% no Brasil. O impacto varia
entre as categorias: para água, o avanço chega a 5,7%; para isotônicos, 5,4%;
e, para cerveja, 5%. Os números mostram como uma mudança aparentemente pequena
no termômetro pode se traduzir em alterações concretas de demanda, reforçando a
necessidade de considerar o clima não apenas na comunicação, mas também nas
decisões comerciais e operacionais.
Essa mudança amplia o impacto muito além da comunicação.
Se o calor chega antes do previsto, não basta trocar uma peça publicitária ou
aumentar o investimento em mídia de determinada categoria. O produto precisa
estar disponível. Isso envolve previsão de demanda, estoque, distribuição,
negociação com o varejo, trade marketing, exposição e execução no ponto de
venda. Uma campanha pode identificar rapidamente uma oportunidade criada pelo
clima, mas perde parte de seu efeito se a operação não estiver preparada para
acompanhá-la.
O mesmo vale no sentido contrário. Uma empresa que
abastece o varejo considerando uma determinada janela sazonal pode encontrar
produtos chegando às lojas quando a condição que estimularia aquela compra já
mudou. Nesse caso, o clima deixa de ser apenas uma variável para a área de marketing
e passa a interferir também em decisões comerciais e operacionais. Planejar
sazonalidade exige uma conexão maior entre comunicação, vendas, supply chain,
trade e inteligência de dados.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil,
essa discussão ganha outra camada. Uma mesma data pode encontrar consumidores
vivendo condições completamente diferentes em São Paulo, Porto Alegre, Recife
ou Manaus. Quanto maior a variação entre regiões, menor a eficiência de tratar
o país inteiro a partir de uma única leitura de estação. A pergunta deixa de
ser apenas quando determinada campanha deve começar e passa a incluir onde
existe a condição que justifica sua ativação.
Isso não significa abandonar o planejamento anual
nem tentar prever com precisão como estará o tempo meses à frente. A mudança
está em construir um planejamento capaz de responder a cenários diferentes.
Campanhas, lançamentos e investimentos podem continuar sendo definidos
antecipadamente, mas acompanhados de alternativas para produto, mídia, abastecimento
e execução comercial caso a realidade encontrada seja diferente daquela
imaginada no momento do planejamento.
Dados de vendas, comportamento de busca, previsão
meteorológica e informações regionais podem ajudar a identificar quando essa
adaptação faz sentido. A tecnologia torna mais rápida a alteração de mídia, CRM
e comunicação digital, mas a resposta só se torna realmente estratégica quando
essa leitura chega também às decisões de negócio. Não adianta perceber que uma
mudança de temperatura alterou o interesse do consumidor se estoque e
distribuição continuam presos exclusivamente ao cronograma definido meses
antes.
Ao mesmo tempo, flexibilidade não significa
transformar qualquer oscilação do clima em oportunidade publicitária. Nem todo
dia mais quente muda comportamento de compra e nem toda frente fria exige uma
reação da marca. O desafio está em estabelecer critérios capazes de diferenciar
uma variação pontual de uma condição com força suficiente para alterar demanda,
disponibilidade e decisão de consumo. Agilidade, nesse caso, não é reagir mais
vezes, mas conseguir reagir quando realmente importa.
Se o clima está deixando de seguir com tanta
precisão o calendário, talvez o marketing também precise depender um pouco
menos dele. A sazonalidade não desaparece, assim como datas e estações
continuam relevantes para o planejamento. O que muda é a forma de
interpretá-la: além de um período previamente marcado no calendário, ela passa
a ser também uma condição observada no mercado. Para as marcas que começam
agora a planejar 2027, essa diferença pode significar sair de um modelo que
pergunta apenas “quando começa a estação?” para outro que também procura
entender “quando começa, de fato, o comportamento de consumo associado a ela?”.
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