Fotógrafa premiada explica que domínio técnico, conhecimento do comportamento animal e planejamento rigoroso são necessários para registrar a vida marinha sem interferir no ambiente
O Dia Nacional do Mar, celebrado no Brasil em 12 de
outubro, chama atenção para um ambiente que cobre mais de 70% da superfície do
planeta, mas que ainda permanece desconhecido para grande parte da população.
Uma das maneiras mais eficazes de reduzir essa distância é através da
fotografia, conforme afirma a Organização
das Nações Unidas (ONU): “a fotografia pode destacar desafios e soluções
relacionados ao desenvolvimento sustentável no âmbito oceânico”. Mais
especificamente, a fotografia subaquática tem o potencial de trazer à público
locais e animais que a maioria das pessoas nunca pensou em conhecer.
É o que conta Fabi Fregonesi, fotógrafa subaquática
reconhecida internacionalmente e primeira brasileira a alcançar o pódio do
Underwater Photographer of the Year, considerado o principal prêmio mundial do
segmento. “Vejo esse trabalho como um meio de fazer mais pessoas se conscientizarem
sobre o mar e tudo que é necessário para a conservação da vida marinha.
Acredito que as imagens registradas permitem essa conexão com o oceano”,
afirma.
O resultado final desses registros muitas vezes é
de uma imagem natural, talvez até de aparência simples; mas a fotografia
subaquática envolve desafios técnicos bastante diferentes daqueles encontrados
em terra. A água altera a forma como a luz se comporta, reduzindo contraste,
intensidade das cores e nitidez. Conforme a profundidade aumenta, determinadas
tonalidades desaparecem gradualmente, exigindo estratégias específicas para
recuperar detalhes e fidelidade visual.
“As pessoas vêem apenas o resultado, mas existe
muito planejamento por trás de cada fotografia. A escolha da lente, a posição
em relação ao animal, a leitura da luz e até a forma como nos movimentamos na
água influenciam diretamente a qualidade da imagem”, afirma Fabi.
Uma das principais características da modalidade é
a necessidade de reduzir ao máximo a distância entre a câmera e o que é
fotografado. Ao contrário do que acontece em muitas situações em terra,
aproximar-se costuma ser mais eficiente do que utilizar lentes de longo
alcance. Isso ocorre porque a própria água funciona como uma barreira visual,
contendo partículas que interferem na passagem da luz e comprometem a definição
da cena.
A escolha dos equipamentos também varia conforme o
objetivo da captura. Câmeras profissionais são instaladas dentro de caixas
estanques, estruturas que garantem proteção total contra a água e permitem
controlar todas as funções do equipamento durante o mergulho. Dependendo do
tipo de registro, o sistema pode incluir lentes grande-angulares para paisagens
e animais de maior porte, lentes macro para organismos pequenos, além de
flashes e iluminação específica para devolver às imagens parte das cores
perdidas em profundidade.
“O equipamento é importante, mas ele não faz a
fotografia sozinho. Conhecer as condições do ambiente, entender como a luz está
se comportando e saber exatamente quando fotografar são fatores que fazem uma
diferença enorme”, explica.
Outro aspecto relevante é a relação com os animais.
Profissionais especializados seguem protocolos que priorizam o bem-estar das
espécies observadas. Em vez de perseguir os animais, a prática recomendada
consiste em observar seus movimentos, compreender padrões de comportamento e
aguardar oportunidades naturais de aproximação.
“A aproximação nunca pode ser mais importante do
que o animal. O objetivo é registrar um comportamento autêntico sem causar
qualquer tipo de perturbação. Quando percebemos sinais de desconforto ou
estresse, o correto é aumentar a distância e respeitar o espaço”, destaca Fabi.
O tempo disponível para produzir imagens também
costuma ser limitado. Em mergulhos recreativos, as operações frequentemente
duram entre 45 e 60 minutos, incluindo descida, deslocamento, observação e
retorno à superfície. Em expedições profissionais, a logística pode ser ainda
mais complexa, especialmente quando a equipe busca registrar comportamentos
específicos ou ambientes profundos.
Essa combinação de conhecimento técnico, domínio do
mergulho, planejamento e respeito à vida marinha ajuda a explicar por que duas
pessoas podem estar diante da mesma cena e produzir resultados diferentes. Em
muitos casos, a fotografia subaquática depende de longos períodos de espera
para capturar apenas alguns segundos decisivos.
“O mar é um ambiente extremamente dinâmico. Muitas
vezes você passa boa parte do mergulho observando e esperando até que todos os
elementos se alinhem. É aí que a imagem se torna também uma história a ser
contada”, conclui Fabi.
Fabi Fregonesi - fotógrafa subaquática brasileira
que transformou uma virada pessoal em propósito profissional, unindo arte e
conscientização ambiental. Depois de duas décadas na publicidade, passou a usar
a fotografia como meio de inspirar novas formas de olhar e preservar o mar. Reconhecida
internacionalmente por sua técnica e sensibilidade, foi a primeira brasileira a
subir ao pódio do Underwater Photographer of the Year, alcançando o 3º lugar na
categoria “Wrecks” (Naufrágios), entre mais de 6.500 imagens inscritas. Com
mais de 30 prêmios internacionais em apenas dois anos — como One Eyeland Award
e Sony World Photography Awards —, Fabi se consolida como uma das principais
referências da fotografia de natureza e arte subaquática no país.

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