Pesquisador brasileiro ligado a Harvard
explica como o isolamento social afeta a saúde física e mental na velhice e
destaca a importância das redes de apoio e dos espaços de convivência
A solidão na velhice não deve ser encarada como uma consequência
natural do envelhecimento. Além de afetar o bem-estar emocional, o isolamento
prolongado está associado a riscos para a saúde física e cognitiva, incluindo
depressão, demências e doenças cardiovasculares. No Dia Mundial
da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro,
o pesquisador brasileiro David Amorim, mestre em
Antropologia Médica por Harvard, chama a atenção para a importância dos
vínculos sociais como parte do cuidado com a população idosa.
“A conexão com outras pessoas é uma necessidade tão básica quanto
a água e a comida. Nós, humanos, necessitamos de estar em sociedade para
sobreviver bem”, pontua Amorim. Para ele, a percepção de que a solidão é uma
etapa natural da vida precisa mudar, especialmente diante das transformações
sociais que podem reduzir as oportunidades de convivência após a aposentadoria.
“Aos 65 anos, uma pessoa ainda pode ter 20 ou mais anos de vida pela frente.
Estes muitos anos podem ser repletos de significado e de felicidade. Basta a
sociedade lembrar de incluí-las”, complementa.
Os efeitos do isolamento prolongado vão além da saúde mental.
Segundo o pesquisador, a solidão pode aumentar o risco de declínio cognitivo,
demências, doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), depressão
e morte prematura, além de enfraquecer a função imunológica. Pessoas idosas
isoladas também tendem a utilizar mais os serviços de pronto-socorro,
permanecer mais tempo hospitalizadas e apresentar mais readmissões.
Amorim destaca, porém, que estar sozinho não é necessariamente o
mesmo que sentir solidão. “Uma pessoa pode ter dezenas de amigos, mas sentir-se
isolada, incompreendida. É aí que habita o perigo”, diz. Para ele, um dos
principais fatores para a qualidade de vida ao longo do envelhecimento é contar
com uma rede de apoio real, acessível e suficiente, capaz de promover
pertencimento e acolher as necessidades de cada pessoa.
Entre os fatores que contribuem para o isolamento estão a
aposentadoria, as dificuldades de mobilidade, a falta de transporte público e
as mudanças na estrutura familiar. O pesquisador também chama a atenção para o
impacto do etarismo e de condições como a perda auditiva. “Quando se
estereotipa a pessoa idosa como ‘sem energia’, ‘devagar’ e ‘esquecida’, abre-se
caminho para que ela realmente se torne todas estas coisas, porque o que o
corpo não usa, ele despeja”, explica.
A identificação da solidão exige atenção às mudanças de
comportamento, segundo Amorim. O afastamento de atividades habituais, a
diminuição do contato com amigos ou alterações na rotina podem indicar que algo
não vai bem. No entanto, as decisões devem ser tomadas em conjunto com a pessoa
idosa, preservando sua autonomia. “Mas é importante avaliar a situação e tomar
decisões junto à pessoa idosa, e não em nome dela”, ressalta.
Como estratégia para ampliar a convivência, o pesquisador defende a criação e o fortalecimento dos chamados “terceiros espaços”: locais frequentados regularmente além de casa e do trabalho, como bibliotecas, academias, museus, parques e centros comunitários. “O mais importante é que sejam locais bem frequentados, com várias oportunidades de atividades e de criação de laços duradouros”, afirma.
Para Amorim, enfrentar a solidão também exige combater o estigma em torno da saúde mental e reconhecer a importância do cuidado. “Isto não significa que a sociedade deve virar as costas para os médicos na sua jornada de cuidar da saúde mental, mas sim abraçar, com todo o calor e suporte, os profissionais de saúde que dedicaram a vida a ela”, conclui.
Nenhum comentário:
Postar um comentário