Avanços da medicina permitem considerar
características clínicas, biológicas e genéticas de cada paciente na escolha e
no ajuste dos tratamentos
Celebrado em 10 de outubro, o Dia Mundial
da Saúde Mental reforça a importância de ampliar o olhar sobre
o cuidado psiquiátrico. Nesse contexto, a medicina de precisão ganha espaço ao
permitir que, além do diagnóstico, sejam consideradas diferentes
características de cada paciente na tomada de decisões sobre o tratamento. Na
psiquiatria, essa abordagem busca tornar as escolhas terapêuticas mais
individualizadas, levando em conta aspectos clínicos, biológicos e genéticos.
“Hoje entendemos com muito mais clareza que um mesmo diagnóstico
não significa necessariamente a mesma doença do ponto de vista biológico, nem
exige o mesmo tratamento”, explica o psiquiatra Dr. Guido Boabaid,
médico psiquiatra à frente da GnTech, empresa pioneira em
farmacogenética no Brasil. Segundo ele, personalizar o tratamento não significa
deixar de lado o conhecimento científico, mas utilizá-lo de forma mais
direcionada. “Personalizar não significa abandonar a medicina baseada em
evidências, mas sim utilizar as evidências científicas para escolher, entre as
alternativas disponíveis, aquela que faz mais sentido para aquela pessoa”,
pontua.
A necessidade de tornar essas escolhas mais direcionadas também
está relacionada à própria dificuldade de encontrar uma resposta adequada ao
tratamento psiquiátrico. Dados do estudo STAR*D, um dos maiores estudos já
realizados sobre tratamento da depressão, mostram que a taxa de remissão foi de
36,8% na primeira tentativa, caindo para 30,6% na segunda, 13,7% na terceira e
13% na quarta. Ou seja, para uma parcela dos pacientes, encontrar uma estratégia
eficaz pode exigir sucessivas mudanças de tratamento, enquanto as chances de
remissão diminuem a cada nova tentativa.
A medicina de precisão procura reunir diferentes informações para auxiliar o médico nessa decisão, na psiquiatria, isso significa olhar para o diagnóstico, mas não parar nele. Entre essas informações está a farmacogenética, que estuda como determinadas variações genéticas podem influenciar a maneira como uma pessoa metaboliza e responde aos medicamentos.
Na prática, esses dados podem complementar a avaliação clínica e
contribuir para escolhas mais direcionadas, inclusive na definição de
medicamentos e doses. A proposta, porém, não é transformar um teste genético em
uma resposta definitiva sobre o tratamento. “Nenhum teste farmacogenético consegue
determinar sozinho qual será o melhor medicamento para uma pessoa ou garantir
que determinado tratamento funcionará. A genética é apenas uma das variáveis
envolvidas na resposta terapêutica”, completa o Dr.
A evidência científica sobre o uso dessa informação como apoio à
decisão também vem se ampliando. Uma meta-análise publicada em 2024, com mais
de 17 mil pacientes, apontou que tratamentos guiados por farmacogenética
estiveram associados a um aumento de 49% na taxa de remissão e de 78% na taxa
de resposta, em comparação com o tratamento usual. Os resultados reforçam o
potencial da ferramenta como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado,
sempre integrada à avaliação médica.
Em 2026, um estudo clínico randomizado e multicêntrico publicado
no JAMA Network Open, com 1.460 pacientes com depressão, também encontrou
resultados superiores no grupo que recebeu tratamento guiado por
farmacogenética. Após seis meses, a taxa de remissão foi de 48,3% contra 39,4%
pelo critério PROMIS e de 29,9% contra 21% pelo PHQ-8, quando comparados os
grupos guiado e de tratamento usual, respectivamente. O estudo também mostrou
maior proporção de prescrições consideradas concordantes com o perfil genético
no grupo que recebeu a orientação farmacogenética.
Nesse processo, a tecnologia aparece como uma ferramenta de apoio à decisão médica, e não como substituta da relação entre profissional e paciente. Para Dr. Guido, a evolução da psiquiatria está justamente na possibilidade de integrar essas novas informações à avaliação individual de cada pessoa.
“O futuro da psiquiatria não está em substituir a relação
médico-paciente por exames, algoritmos ou tecnologia. Está em utilizar essas
ferramentas para tornar essa relação ainda mais qualificada”, ressalta. A perspectiva
reforça que a personalização não significa criar um tratamento completamente
diferente para cada indivíduo, mas ampliar as informações disponíveis para que
o médico possa refinar suas escolhas, ajustar doses, antecipar determinados
riscos e reduzir parte das tentativas sucessivas até encontrar uma estratégia
adequada.
Outro estudo apresentado pela GnTech, publicado em 2026 no The
Pharmacogenomics Journal, analisou 5.808 pacientes com depressão ou
ansiedade e 8.571 prescrições de antidepressivos. Os dados mostraram que um em
cada dois antidepressivos prescritos antes do teste farmacogenético foi
posteriormente interrompido, além de associações entre determinadas variantes
genéticas e o risco de descontinuação de alguns medicamentos. Os resultados ajudam
a ilustrar como diferenças individuais podem influenciar a resposta e a
tolerabilidade aos tratamentos.
No Dia Mundial da Saúde Mental, essa mudança de perspectiva
reforça a importância de compreender que o diagnóstico é apenas uma parte da
avaliação. Para Dr. Guido, quanto maior a capacidade de integrar as
particularidades de cada paciente ao conhecimento científico e à avaliação
clínica, mais direcionado pode ser o cuidado com a saúde mental.
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