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sábado, 10 de outubro de 2026

Dia Mundial da Saúde Mental: por que a psiquiatria caminha cada vez mais para tratamentos personalizados

Avanços da medicina permitem considerar características clínicas, biológicas e genéticas de cada paciente na escolha e no ajuste dos tratamentos
 


Celebrado em 10 de outubro, o Dia Mundial da Saúde Mental reforça a importância de ampliar o olhar sobre o cuidado psiquiátrico. Nesse contexto, a medicina de precisão ganha espaço ao permitir que, além do diagnóstico, sejam consideradas diferentes características de cada paciente na tomada de decisões sobre o tratamento. Na psiquiatria, essa abordagem busca tornar as escolhas terapêuticas mais individualizadas, levando em conta aspectos clínicos, biológicos e genéticos.
 

“Hoje entendemos com muito mais clareza que um mesmo diagnóstico não significa necessariamente a mesma doença do ponto de vista biológico, nem exige o mesmo tratamento”, explica o psiquiatra Dr. Guido Boabaid, médico psiquiatra à frente da GnTech, empresa pioneira em farmacogenética no Brasil. Segundo ele, personalizar o tratamento não significa deixar de lado o conhecimento científico, mas utilizá-lo de forma mais direcionada. “Personalizar não significa abandonar a medicina baseada em evidências, mas sim utilizar as evidências científicas para escolher, entre as alternativas disponíveis, aquela que faz mais sentido para aquela pessoa”, pontua. 

A necessidade de tornar essas escolhas mais direcionadas também está relacionada à própria dificuldade de encontrar uma resposta adequada ao tratamento psiquiátrico. Dados do estudo STAR*D, um dos maiores estudos já realizados sobre tratamento da depressão, mostram que a taxa de remissão foi de 36,8% na primeira tentativa, caindo para 30,6% na segunda, 13,7% na terceira e 13% na quarta. Ou seja, para uma parcela dos pacientes, encontrar uma estratégia eficaz pode exigir sucessivas mudanças de tratamento, enquanto as chances de remissão diminuem a cada nova tentativa. 

A medicina de precisão procura reunir diferentes informações para auxiliar o médico nessa decisão, na psiquiatria, isso significa olhar para o diagnóstico, mas não parar nele. Entre essas informações está a farmacogenética, que estuda como determinadas variações genéticas podem influenciar a maneira como uma pessoa metaboliza e responde aos medicamentos. 

Na prática, esses dados podem complementar a avaliação clínica e contribuir para escolhas mais direcionadas, inclusive na definição de medicamentos e doses. A proposta, porém, não é transformar um teste genético em uma resposta definitiva sobre o tratamento. “Nenhum teste farmacogenético consegue determinar sozinho qual será o melhor medicamento para uma pessoa ou garantir que determinado tratamento funcionará. A genética é apenas uma das variáveis envolvidas na resposta terapêutica”, completa o Dr. 

A evidência científica sobre o uso dessa informação como apoio à decisão também vem se ampliando. Uma meta-análise publicada em 2024, com mais de 17 mil pacientes, apontou que tratamentos guiados por farmacogenética estiveram associados a um aumento de 49% na taxa de remissão e de 78% na taxa de resposta, em comparação com o tratamento usual. Os resultados reforçam o potencial da ferramenta como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado, sempre integrada à avaliação médica. 

Em 2026, um estudo clínico randomizado e multicêntrico publicado no JAMA Network Open, com 1.460 pacientes com depressão, também encontrou resultados superiores no grupo que recebeu tratamento guiado por farmacogenética. Após seis meses, a taxa de remissão foi de 48,3% contra 39,4% pelo critério PROMIS e de 29,9% contra 21% pelo PHQ-8, quando comparados os grupos guiado e de tratamento usual, respectivamente. O estudo também mostrou maior proporção de prescrições consideradas concordantes com o perfil genético no grupo que recebeu a orientação farmacogenética. 

Nesse processo, a tecnologia aparece como uma ferramenta de apoio à decisão médica, e não como substituta da relação entre profissional e paciente. Para Dr. Guido, a evolução da psiquiatria está justamente na possibilidade de integrar essas novas informações à avaliação individual de cada pessoa. 

“O futuro da psiquiatria não está em substituir a relação médico-paciente por exames, algoritmos ou tecnologia. Está em utilizar essas ferramentas para tornar essa relação ainda mais qualificada”, ressalta. A perspectiva reforça que a personalização não significa criar um tratamento completamente diferente para cada indivíduo, mas ampliar as informações disponíveis para que o médico possa refinar suas escolhas, ajustar doses, antecipar determinados riscos e reduzir parte das tentativas sucessivas até encontrar uma estratégia adequada. 

Outro estudo apresentado pela GnTech, publicado em 2026 no The Pharmacogenomics Journal, analisou 5.808 pacientes com depressão ou ansiedade e 8.571 prescrições de antidepressivos. Os dados mostraram que um em cada dois antidepressivos prescritos antes do teste farmacogenético foi posteriormente interrompido, além de associações entre determinadas variantes genéticas e o risco de descontinuação de alguns medicamentos. Os resultados ajudam a ilustrar como diferenças individuais podem influenciar a resposta e a tolerabilidade aos tratamentos. 

No Dia Mundial da Saúde Mental, essa mudança de perspectiva reforça a importância de compreender que o diagnóstico é apenas uma parte da avaliação. Para Dr. Guido, quanto maior a capacidade de integrar as particularidades de cada paciente ao conhecimento científico e à avaliação clínica, mais direcionado pode ser o cuidado com a saúde mental.
 

Guido Boabaid May - Médico psiquiatra há mais de 32 anos, com mais de 115 mil consultas realizadas, mais de 1.200 pacientes em tratamento guiado com teste farmacogenético e pioneiro da farmacogenética no Brasil. Guido também é fundador e CEO da GnTech, empresa de biotecnologia pioneira e líder em farmacogenética no Brasil, com mais de 30 mil testes farmacogenéticos realizados sob sua liderança. A empresa é detentora do maior banco de dados de farmacogenética sobre a população brasileira. Boabaid também atua como médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e é autor do livro Onde Foi Parar Minha Alegria?, publicado em 2025.


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