Comer
escondido, sentir culpa depois de uma refeição, passar horas sem se alimentar
para “compensar” um excesso, eliminar grupos alimentares sem necessidade
clínica, pensar constantemente em calorias ou ter a sensação de perder o
controle diante da comida. Nem todo comportamento desse tipo significa
necessariamente um transtorno alimentar, mas alguns deles podem funcionar como
sinais de que a relação com a alimentação está se tornando fonte de sofrimento.
Segundo
a psicóloga Tatiana Vainboim, que atua na área de obesidade, entender
o comportamento alimentar exige olhar além da pergunta “o que você come?”.
“Comer
é um comportamento complexo. Nós não comemos apenas em resposta à fome
fisiológica. A alimentação também está relacionada a emoções, cultura, memória,
prazer, convivência, disponibilidade de alimentos e à maneira como cada pessoa
aprendeu a lidar com o próprio corpo. O problema começa quando essa relação
passa a ser marcada por sofrimento, culpa, rigidez ou perda de controle”,
explica.
Quando a comida vira resposta para tudo
Depois
de um dia difícil, algumas pessoas procuram chocolate. Outras perdem
completamente a fome. Há quem coma quando está ansioso, entediado, frustrado ou
solitário.
Usar
a comida ocasionalmente como fonte de prazer ou conforto não caracteriza, por si
só, um transtorno. A atenção deve aumentar quando ela se transforma em uma das
principais estratégias para lidar com emoções difíceis.
“É
importante observar a frequência, a intensidade e principalmente o sofrimento
associado ao comportamento. A pessoa sente que não consegue parar? Come sem
fome repetidamente? Depois sente culpa ou vergonha? Tenta compensar
restringindo a alimentação no dia seguinte? Quando isso vira um ciclo,
precisamos olhar com mais cuidado”, afirma Tatiana.
O ciclo restrição, exagero e culpa
Um
comportamento comum é tentar controlar a alimentação por meio de regras
extremamente rígidas. A pessoa passa a dividir os alimentos entre “permitidos”
e “proibidos”, restringe calorias excessivamente e acredita que qualquer saída
da dieta representa fracasso.
O
problema é que a restrição intensa pode contribuir para um ciclo difícil de romper:
restrição → desejo aumentado → perda de controle → culpa → nova restrição.
“Quanto
mais rígida fica a relação com a alimentação, maior pode ser a sensação de
fracasso quando aquela regra é quebrada. Em alguns casos, a pessoa come algo
que considera proibido e pensa: ‘já estraguei tudo’. A partir daí, pode ocorrer
um episódio de exagero seguido de culpa e de uma tentativa ainda maior de
controle”, explica a psicóloga.
Quando é preciso pensar em transtorno alimentar?
Os
transtornos alimentares são condições de saúde mental e não devem ser reduzidos
a “falta de força de vontade” ou a uma preocupação excessiva com aparência.
Entre
eles estão anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão
alimentar, além de outros quadros que também podem provocar prejuízo
significativo.
Alguns
sinais merecem atenção, especialmente quando aparecem de maneira persistente:
- preocupação intensa com peso, corpo, calorias ou alimentação;
- restrições alimentares importantes;
- medo excessivo de engordar;
- episódios recorrentes de perda de controle ao comer;
- comer grandes quantidades em pouco tempo acompanhado de sofrimento;
- comportamentos compensatórios após comer;
- evitar situações sociais por causa da comida;
- comer escondido;
- culpa ou vergonha frequentes após as refeições;
- autoestima excessivamente dependente do peso ou da aparência.
“Não
precisamos esperar o quadro se tornar grave para procurar ajuda. Muitas vezes
existem comportamentos alimentares disfuncionais antes mesmo de um diagnóstico
estabelecido. Se comer está gerando sofrimento e ocupando uma parcela muito
grande dos pensamentos e da rotina, isso já merece atenção”, ressalta Tatiana.
Nem todo transtorno alimentar é visível no corpo
Outro
ponto importante é abandonar a ideia de que é possível identificar um
transtorno alimentar apenas olhando para uma pessoa.
Pessoas
com diferentes pesos e tipos corporais podem apresentar comportamentos
alimentares disfuncionais ou transtornos alimentares.
“Existe
uma imagem estereotipada de quem teria um transtorno alimentar. Isso pode fazer
com que muitos casos passem despercebidos. Peso corporal isoladamente não conta
toda a história. Precisamos observar comportamento, pensamentos, emoções e o
impacto que essa relação com a comida está causando na vida da pessoa”, destaca.
Redes sociais também entram nessa relação
A
exposição constante a dietas, corpos idealizados, desafios de emagrecimento e
conteúdos que classificam alimentos como “bons” ou “ruins” pode aumentar a
pressão sobre pessoas vulneráveis.
Para
Tatiana, o problema não está apenas no conteúdo, mas na comparação permanente.
“Quando
alimentação e corpo passam a ocupar o centro da identidade, qualquer mudança na
balança pode ser interpretada como sucesso ou fracasso pessoal. É importante
reconstruir uma relação em que comer não seja uma prova moral e o corpo não
determine o valor daquela pessoa.”
Tratamento não é simplesmente “aprender a fechar a boca”
Quando
existe sofrimento relacionado à alimentação, o cuidado pode exigir uma
abordagem multiprofissional, envolvendo psicologia, psiquiatria, nutrição e
acompanhamento médico, de acordo com cada caso.
Na
psicoterapia, um dos objetivos é compreender qual função aquele comportamento
alimentar exerce.
“Em
vez de perguntar somente ‘por que você comeu isso?’, precisamos entender o que
estava acontecendo antes, o que a pessoa estava sentindo, quais pensamentos
apareceram e o que a comida representou naquele momento. O comportamento
alimentar conta uma história”, explica.
E
o objetivo não deve ser criar mais uma lista de proibições.
“Uma
relação saudável com a comida não significa comer perfeitamente o tempo
inteiro. Significa conseguir se alimentar sem viver permanentemente entre
controle, medo e culpa. Quando toda refeição vira uma batalha, é importante
procurar ajuda”, conclui Tatiana Vainboim.
Tatiana Vainboim - Psicóloga especialista em Psicologia Hospitalar Pelo Programa de Aprimoramento em Hospital Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e mestre em Neurologia pela Faculdade de Medicina Da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e Psico-Oncologista pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO).
https://www.instagram.com/tatianabvainboim/
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