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sábado, 24 de outubro de 2026

A era do preenchimento está mudando? Ácido hialurônico cai 25% enquanto liftings avançam no mundo

Novo levantamento com mais de 35 milhões de procedimentos mostra retração dos injetáveis e crescimento de cirurgias que reposicionam tecidos; Brasil lidera ranking mundial de procedimentos cirúrgicos

 

Durante anos, preencher parecia ser a resposta para quase tudo no rejuvenescimento: olheiras, têmporas, maçãs do rosto, mandíbula, sulcos, lábios. Agora, os números começam a mostrar uma mudança importante nesse comportamento. 

O novo levantamento mundial da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), divulgado no fim de setembro, registrou uma queda de 25% nos procedimentos com ácido hialurônico em 2025. No mesmo período, técnicas cirúrgicas voltadas a reposicionar tecidos chamaram atenção pelo crescimento: a mastopexia, cirurgia que levanta e remodela as mamas, apresentou aumento de 48% entre as mulheres, o maior avanço percentual entre os procedimentos cirúrgicos destacados pela entidade. 

O levantamento reúne dados de 51 mercados internacionais e contabiliza quase 17,9 milhões de cirurgias e 17,3 milhões de procedimentos não cirúrgicos realizados por cirurgiões plásticos em 2025 — mais de 35 milhões de intervenções estéticas. O Brasil aparece em posição particularmente relevante: foram cerca de 3,2 milhões de procedimentos no total e 2,3 milhões de cirurgias, colocando o país na liderança mundial em volume cirúrgico. 

Os números não significam que o preenchimento esteja acabando — o ácido hialurônico ainda foi o segundo procedimento não cirúrgico mais realizado no mundo, com aproximadamente 4,7 milhões de aplicações. Também não é possível concluir, apenas pelos dados, que pacientes estejam simplesmente trocando seringas por bisturi. 

Mas há uma pergunta difícil de ignorar: depois de uma década marcada pelo aumento de volume, a estética estaria começando a olhar novamente para estrutura, sustentação e reposicionamento? 

Para o cirurgião plástico Dr. Luiz Anizio Wanna, os dados podem ser lidos como parte de uma mudança maior na maneira de compreender o envelhecimento. “Durante muito tempo, tentou-se corrigir sinais de envelhecimento acrescentando volume. Mas nem todo rosto que envelhece perdeu apenas volume. Existem tecidos que desceram, ligamentos que perderam sustentação e pele que ficou mais frouxa. Colocar mais produto não necessariamente corrige essas alterações.”

 

Preencher e levantar não são a mesma coisa

É justamente aí que está uma das confusões mais frequentes da estética facial. 

O ácido hialurônico pode ser extremamente útil quando existe uma indicação real para reposição de volume, correção de determinados contornos ou tratamento de regiões específicas. O problema aparece quando se tenta utilizar preenchimento para compensar alterações anatômicas que pertencem a outro plano. 

O rosto envelhece em várias camadas. Há alterações na pele, nos compartimentos de gordura, nos ligamentos, nos músculos e até no esqueleto facial. Em determinadas situações, adicionar volume sobre estruturas que já perderam posição pode aumentar o peso visual do rosto sem necessariamente devolver juventude.

“É possível preencher um rosto e ainda assim não rejuvenesce-lo. Em alguns casos, você apenas aumenta aquilo que precisava ser reposicionado. A primeira pergunta deveria ser: o que realmente aconteceu com essa face?”, explica o Dr. Wanna.

É por isso que um preenchimento, um enxerto de gordura, um laser e um lifting não deveriam ser vistos como concorrentes. Eles tratam problemas diferentes. 

Essa distinção também ajuda a explicar por que o crescimento das cirurgias de lifting merece atenção. 

 

Nos Estados Unidos, os liftings também cresceram

Um segundo levantamento, divulgado pela American Society of Plastic Surgeons (ASPS), encontrou movimento semelhante nos Estados Unidos.

Em 2025, os procedimentos cirúrgicos estéticos cresceram 7% no país. O enxerto de gordura facial apresentou aumento de 39%, enquanto lifting de sobrancelhas avançou 29%, lifting de pescoço 21% e facelift, 13%. A cirurgia para levantar as mamas cresceu 8%. 

Os dados norte-americanos acrescentam uma peça interessante ao quebra-cabeça: em vez de apenas acrescentar produto, parte dos procedimentos que mais avançaram busca recuperar uma posição, contorno ou volume perdido. 

A própria ASPS descreveu a demanda observada em 2025 como mais ligada à ideia de restauração do que à transformação completa da aparência. 

Para o Dr. Luiz, a mudança é coerente com o que uma cirurgia bem planejada deveria buscar. “O objetivo não deveria ser produzir um rosto novo. É compreender onde aquele rosto perdeu estrutura, volume ou qualidade de pele e tratar cada problema na camada correta. Quanto mais precisa for a indicação, menos artificial tende a ser o resultado.”

 

O excesso de preenchimento entrou em discussão

A mudança também acontece em um momento em que o chamado overfilled face — o rosto excessivamente preenchido — passou a ser criticado inclusive dentro da própria comunidade estética. 

Durante a popularização dos injetáveis, a facilidade de aplicação, o menor tempo de recuperação e a possibilidade de resultados imediatos fizeram do preenchimento uma alternativa extremamente atraente.

Mas a repetição do procedimento em diferentes regiões, principalmente quando usada para tentar produzir sustentação, pode alterar proporções e características individuais. 

É daí que surgem rostos progressivamente mais largos, maçãs excessivamente projetadas, têmporas muito volumizadas ou contornos que começam a se parecer entre si. 

Não significa que o produto seja o problema. O ponto é a indicação.

“O ácido hialurônico continua sendo uma ferramenta excelente quando utilizado para aquilo que ele realmente consegue fazer. O erro é pedir que uma seringa resolva um problema cirúrgico ou acreditar que mais volume é sempre sinônimo de rejuvenescimento”, afirma o cirurgião.

Essa diferenciação permite que a pauta escape da velha discussão entre “procedimento invasivo” e “não invasivo”. A questão passa a ser outra: qual intervenção faz sentido para aquela alteração anatômica?

 

As canetas para emagrecer também podem estar mexendo nesse cenário

Existe ainda outro fenômeno impossível de ignorar: a popularização dos medicamentos GLP-1 e as grandes perdas de peso. 

Nos Estados Unidos, 82% dos cirurgiões membros da ASPS relataram receber pedidos de consulta relacionados ao uso de GLP-1 em 2025. Entre as consultas sobre alterações faciais associadas ao emagrecimento, facelift apareceu para 71% dos médicos consultados e lifting de pescoço para 64%. A entidade ressalta que consulta não equivale a procedimento realizado e que os números não comprovam uma relação causal entre esses medicamentos e o crescimento das cirurgias.

 

Ainda assim, o fenômeno ajuda a contextualizar uma parte da demanda atual. 

Grandes perdas de peso podem reduzir gordura facial e tornar mais evidente a frouxidão dos tecidos. No corpo, podem deixar excesso de pele em braços, abdômen, mamas, coxas e pescoço. 

Nesse cenário, simplesmente acrescentar volume nem sempre responde ao que incomoda o paciente.

 

Naturalidade pode significar fazer procedimentos mais precisos 

Talvez essa seja a parte mais interessante dessa mudança.

Durante muito tempo, “resultado natural” virou quase sinônimo de “fazer pouco”. Mas naturalidade depende menos da quantidade de procedimentos e mais de tratar corretamente aquilo que mudou. 

Uma pessoa pode precisar apenas de um pequeno preenchimento. Outra pode ter indicação para um lifting. Outra pode se beneficiar da combinação entre cirurgia, gordura autóloga e tratamento de pele.

Não existe uma solução universal.

E talvez seja justamente isso que os novos números começam a mostrar: a estética pode estar entrando em uma fase menos orientada pela ferramenta da moda e mais interessada em identificar o mecanismo do envelhecimento.

O preenchimento não morreu. O lifting não voltou para substituí-lo. O que parece estar sendo colocado em xeque é a tentativa de resolver todos os rostos com a mesma resposta.

Para o Dr. Luiz Anizio Wanna, essa é uma mudança positiva: “Não precisamos escolher entre cirurgia e procedimento minimamente invasivo. Precisamos escolher a indicação correta. O futuro da estética provavelmente será cada vez menos sobre fazer determinado procedimento porque ele está em alta e cada vez mais sobre entender o que aquele paciente realmente precisa.”

 

Dr. Luiz Anizio Wanna - CRM 74.219 - Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, sócio fundador do Instituto Wanna, formado na Faculdade de Medicina de Vassouras (RJ). Possui Curso de Emergência Cirúrgica e de Médico Perito Examinador de Trânsito. Atuação em hospitais como: Stella Maris de Guarulhos (SP), Instituto de Pesquisa Médico Científica de São Bernardo do Campo (SP), Hospital Regional Dr. Vivaldo Martins Simões – Osasco (SP) e outros, além de participar de cursos e simpósios nacionais e internacionais.


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