quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM) pode causar ideação suicida cíclica e exige alerta no Setembro Amarelo

Ginecologista explica a diferença entre TPM e TDPM, revela os mecanismos biológicos por trás do transtorno e destaca a importância do diagnóstico integrado entre Ginecologia e Psiquiatria

 

Durante o Setembro Amarelo, mês voltado à conscientização e prevenção do suicídio, um alerta fundamental sobre a saúde mental feminina ganha relevância: a relação entre o ciclo menstrual e o sofrimento psíquico grave. Frequentemente invisibilizado e rotulado de forma preconceituosa como "frescura" ou "drama", o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM) atinge mulheres em idade fértil e pode provocar episódios recorrentes de ideação suicida todos os meses. 

Para conscientizar a população sobre a condição, a ginecologista e docente do curso de Medicina da Unifran, Profa. Dra. Elisabete Lilian, explica como identificar os sinais de alerta, o que acontece no organismo feminino e como funciona o tratamento que devolve a qualidade de vida a mais de 90% das pacientes.
 

TPM comum vs. TDPM: a conexão com o Setembro Amarelo

Enquanto a TPM comum causa desconfortos como inchaço, irritabilidade leve e vontade de comer doces alguns dias antes da menstruação sem paralisar a rotina, o TDPM é uma condição médica grave e incapacitante. 

"No TDPM, a mulher enfrenta sintomas tão intensos que não consegue ser ela mesma por 7 a 14 dias todos os meses. Surgem crises de choro, raiva explosiva, ansiedade sufocante, sensação de perda de controle e, o mais preocupante: tristeza profunda acompanhada pela sensação de que seria melhor não existir ou vontade de sumir", alerta a doutora. 

A médica reforça que é justamente nessa repetição cíclica que reside a conexão direta com o Setembro Amarelo. "Como o TDPM costuma ser invisibilizado, a mulher sofre calada por anos achando que é 'louca'. Quando os pensamentos suicidas se repetem todo mês sem acolhimento, o risco aumenta muito. Falar de TDPM no Setembro Amarelo é salvar vidas, mostrando que esse sofrimento tem nome, causa biológica e tratamento. Não é fraqueza."
 

Uma reação química real: por que não é frescura, Bipolaridade ou Borderline?

Por apresentar sintomas como oscilações bruscas de humor e impulsividade, o TDPM é frequentemente confundido com Transtorno Bipolar ou Borderline. A grande diferença está no calendário: no TDPM, a alteração ocorre exclusivamente na fase lútea (segunda metade do ciclo menstrual, após a ovulação) e melhora em dois a três dias após a chegada da menstruação. 

Biologicamente, o problema não é o excesso ou a falta de hormônios, mas a extrema sensibilidade do cérebro às variações hormonais normais do ciclo:

  • Queda do 'calmante' natural: na fase lútea, os níveis de progesterona sobem e depois caem bruscamente. O cérebro converte a progesterona em alopregnanolona, um neuroesteroide que se conecta aos receptores GABA-A, o mesmo local onde agem os remédios calmantes (benzodiazepínicos). Quando a taxa cai, o cérebro da mulher com TDPM entra em uma espécie de "abstinência".
  • Queda da serotonina: junto com a variação da progesterona, a queda do estrogênio reduz os níveis de serotonina, o neurotransmissor responsável pelo bem-estar e regulação do humor.


Sinais de emergência e como acolher

A especialista da Unifran aponta os principais sinais de alerta de que a dor ultrapassou o limite e exige intervenção imediata:

  • Ciclo de isolamento e sofrimento: a mulher se transforma por 1 a 2 semanas no mês, falta ao trabalho, isola-se na cama e entra em grandes conflitos familiares, voltando ao normal após a menstruação.
  • Desesperança e frases de alerta: desabafos frequentes como "não aguento mais ser assim", "sou um peso para todos" ou "minha família seria melhor sem mim".
  • Medo de si mesma: a própria paciente relata medo do que pode fazer contra si durante a fase pré-menstrual.
  • Uso de substâncias: recorrer ao álcool, automedicação ou automutilação para aliviar o sofrimento emocional.

"Se você percebe isso em alguém, nunca diga que é 'drama' ou 'só TPM'. Diga: 'percebo que todo mês nessa época você sofre muito, estou aqui e vamos buscar ajuda juntos'. Se houver risco iminente ou plano de suicídio, deve-se procurar um pronto-socorro imediatamente ou ligar para o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo número 188", orienta a ginecologista.
 

Tratamento integrado: Ginecologia + Psiquiatria

Embora não tenha uma cura definitiva, o TDPM pode ser totalmente controlado quando diagnosticado de forma correta. O sucesso do tratamento exige uma abordagem multidisciplinar e integrada:

  1. Ginecologia: atua para estabilizar a montanha-russa hormonal por meio de esquemas específicos de anticoncepcionais (com pausa curta ou sem pausa), DIU hormonal ou outras abordagens que evitem a queda hormonal brusca.
  2. Psiquiatria e Psicologia: oferecem suporte neurológico e emocional. Antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina podem ser prescritos (por vezes utilizados apenas na segunda metade do ciclo). A psicoterapia auxilia no manejo dos gatilhos e na reconstrução das relações afetivas e profissionais desgastadas.
  3. Estilo de vida: atividade física regular, manutenção de um sono regular, redução de álcool e cafeína na fase lútea, além de suplementação orientada de cálcio, magnésio e vitamina B6.

"Nenhuma mulher precisa aceitar viver metade da vida se sentindo péssima e a outra metade carregando culpa por isso. O TDPM é uma condição médica séria que merece diagnóstico rápido, tratamento e acolhimento", finaliza a Dra. Elisabete.



Unifran
www.unifran.edu.br


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